El Niño ganha força e pode afetar clima em julho
Modelos indicam impactos do El Niño no semestre
Foto: Pixabay
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial voltou a ganhar intensidade e reforçou os sinais de fortalecimento do fenômeno El Niño nos próximos meses. Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (8) pela Meteored, com base em dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), as anomalias de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 avançaram de +0,5°C para +0,7°C na última semana, enquanto as anomalias absolutas atingiram +1,3°C.
De acordo com os dados, o novo aumento reforça a tendência de aquecimento observada desde maio e fortalece as projeções de evolução do fenômeno ao longo do segundo semestre. Ao mesmo tempo, modelos climáticos começam a indicar alterações nos padrões de chuva e temperatura a partir de julho, sugerindo que a atmosfera pode começar a responder ao aquecimento registrado no Pacífico.
A região Niño 3.4 é considerada uma das principais áreas de monitoramento do El Niño devido à sua influência sobre a circulação atmosférica global. Conforme a análise, as anomalias relativas permanecem próximas ou acima do limiar de +0,5°C utilizado para caracterizar condições associadas ao fenômeno desde meados de maio, apesar de revisões posteriores realizadas pela NOAA.
O relatório também destaca que o aquecimento não se limita à região Niño 3.4. Na região Niño 1+2, próxima à costa do Peru, as anomalias chegaram a +2,1°C na atualização mais recente, patamar classificado como compatível com um evento muito forte.
Parte desse aquecimento pode estar relacionada à atuação da Oscilação Madden-Julian (MJO), sistema de variabilidade atmosférica tropical que tem apresentado atividade sobre o Pacífico oeste neste início de junho. Segundo a análise, a atuação da fase convectiva da MJO favorece mudanças nos ventos próximos à superfície, contribuindo para o enfraquecimento dos ventos alísios e para o aquecimento das águas superficiais do Pacífico equatorial.
A discussão sobre o início oficial do El Niño, porém, depende da metodologia utilizada. Conforme a Meteored, pela metodologia tradicional empregada há décadas pelos centros meteorológicos, as anomalias já permanecem acima de +0,5°C desde meados de abril. "Considerando apenas esse critério, o Pacífico já apresenta condições compatíveis com El Niño há várias semanas", destaca a análise.
Já pela metodologia relativa, adotada mais recentemente para isolar o sinal do fenômeno do aquecimento médio dos oceanos, as anomalias atingiram o limiar de +0,5°C apenas nas últimas semanas e atualmente estão em +0,7°C. "Em outras palavras: quando considerada a metodologia tradicional, maio de 2026 já pode ser considerado o primeiro mês sob condições oceânicas compatíveis com El Niño. Pela nova metodologia, esse marco deve ser alcançado ao longo de junho, caso o aquecimento observado nas últimas semanas se mantenha", informa o levantamento.
Apesar dos sinais observados no oceano, os especialistas ressaltam que a consolidação do fenômeno depende também da resposta da atmosfera. Segundo a Meteored, "a temperatura do oceano é apenas uma parte da história. Para que o fenômeno esteja plenamente estabelecido, a atmosfera também precisa responder ao aquecimento observado no Pacífico".
As projeções do modelo europeu ECMWF indicam que essa resposta atmosférica pode começar a ser observada a partir de julho. A expectativa é de chuvas acima da média na Região Sul durante o segundo semestre, incluindo a possibilidade de eventos extremos. Ao mesmo tempo, condições mais secas tendem a se estabelecer sobre as regiões Norte e Nordeste, avançando para áreas do Centro-Oeste e Sudeste ao longo da primavera.
As projeções também apontam temperaturas acima da média no centro-norte do país, especialmente entre outubro e novembro. Em áreas com déficit hídrico, as anomalias podem alcançar até 4°C acima da média, favorecendo ondas de calor mais frequentes, além de ampliar os riscos de seca, queimadas e impactos sobre os recursos hídricos.
Mesmo com o fortalecimento do fenômeno, a análise ressalta que os efeitos regionais não dependem apenas do aquecimento do oceano. "Embora eventos intensos aumentem a probabilidade de ocorrência dos padrões clássicos associados ao El Niño, os impactos regionais dependem da interação com outros fenômenos atmosféricos e não crescem necessariamente na mesma proporção do aquecimento observado no oceano", conclui o estudo.