El Niño pode encarecer alimentos nos próximos meses
Alimentos aliviam inflação, mas El Niño volta ao radar
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O agronegócio brasileiro chega à segunda metade de agosto de 2026 diante de um ambiente marcado por juros elevados, volatilidade cambial e riscos ligados ao clima e ao mercado internacional. Segundo dados divulgados pela Rabobank, na Análise em Macroeconomia, o banco projeta Selic de 14% no fim deste ano e dólar a R$ 5,35, enquanto petróleo, El Niño e possíveis pressões sobre fertilizantes permanecem entre os fatores de atenção.
Selic elevada prolonga cenário de cautela
O Comitê de Política Monetária reduziu a taxa Selic para 14% ao ano em sua reunião de agosto, mas indicou que o ambiente ainda exige cautela. Entre os fatores destacados estão a desancoragem das expectativas de inflação, as incertezas externas e os riscos em torno do cenário econômico brasileiro. De acordo com a Rabobank, as expectativas de inflação permanecem acima da meta em diferentes horizontes, condição que sustenta a necessidade de uma política monetária restritiva por mais tempo. O banco avalia que os efeitos dos juros altos sobre a atividade vêm se acumulando gradualmente, embora as pressões de demanda ainda justifiquem a manutenção desse caráter restritivo.
No cenário projetado pela instituição, o ciclo de redução dos juros deve ser interrompido com a Selic em 14%. A expectativa é de retomada da flexibilização somente em abril de 2027, com a taxa encerrando o próximo ano em 12,50%. A projeção anual apresentada pela Rabobank: Análise em Macroeconomia também aponta crescimento de 1,8% para o Produto Interno Bruto brasileiro em 2026 e de 2,2% em 2027. Para a balança comercial, as estimativas são de superávit de US$ 78,8 bilhões neste ano e US$ 77,7 bilhões no próximo.
Alimentos aliviam inflação, mas El Niño volta ao radar
A inflação de julho trouxe sinais mais favoráveis pelo lado dos alimentos. O IPCA avançou 0,07% no mês e desacelerou de 4,6% para 4,4% no acumulado de 12 meses, ficando ligeiramente abaixo do limite superior de 4,5% da meta de inflação. Segundo dados divulgados pela Rabobank, alimentação e bebidas recuaram 0,67% em julho, enquanto a alimentação no domicílio caiu 1,14%.Entre os produtos que ajudaram a reduzir o índice, o tomate registrou queda mensal de 29,09%, a batata-inglesa recuou 19,59%, a cenoura caiu 14,41% e o café moído apresentou redução de 2,45%. Nos combustíveis, a queda foi de 1,44%, com recuos de 1,37% na gasolina, 2,26% no etanol e 1,22% no óleo diesel.
O alívio recente, entretanto, não levou a instituição a alterar sua avaliação para o ano. A Rabobank: Análise em Macroeconomia mantém projeção de IPCA de 5,1% em 2026 e segue monitorando o comportamento da energia e do petróleo, além dos riscos relacionados aos alimentos, à eventual ocorrência de El Niño e a possíveis pressões sobre fertilizantes. Para agosto, a previsão é de queda de 0,17% no IPCA, apoiada pela continuidade da redução na inflação de alimentos e pelo recuo dos preços regulados. Em setembro, a expectativa passa para alta de 0,57%. Para outubro, a projeção é de avanço de 0,31%, período em que o relatório prevê elevação da inflação de alimentos já sob efeitos do El Niño, além de pressão nos serviços.
Dólar e petróleo aumentam atenção sobre o mercado
O câmbio é outro componente acompanhado de perto. O dólar encerrou a semana anterior cotado a R$ 5,2228, com desvalorização de 2,8% do real frente à moeda norte-americana. Segundo dados divulgados pela Rabobank, esse foi o pior desempenho entre 24 moedas de mercados emergentes avaliadas no período.
Para o fim de 2026, a instituição projeta dólar a R$ 5,35. A avaliação considera a expectativa de redução do diferencial entre os juros brasileiros e externos ao longo do ano, uma eventual recuperação global da moeda norte-americana e as incertezas relacionadas ao cenário fiscal doméstico.
O petróleo também ganhou espaço no balanço de riscos. O Brent fechou a sexta-feira a US$ 88,55 por barril, avanço semanal de 6%, enquanto o índice CRB de commodities subiu 2,8%, para 391 pontos. De acordo com a Rabobank, a retomada de preços mais elevados do petróleo aumenta as incertezas sobre a convergência da inflação à meta.O relatório ainda chama atenção para a incerteza tarifária no comércio internacional, os conflitos geopolíticos, as dúvidas sobre a desaceleração das economias dos Estados Unidos e da China e a maior probabilidade de ocorrência de El Niño no fim do ano.
Commodities agrícolas têm desempenho majoritariamente positivo
Nos mercados agrícolas internacionais, boa parte dos produtos acompanhados encerrou a semana em alta. Segundo dados divulgados pela Rabobank, a soja negociada em Chicago avançou 1,3%, enquanto milho e trigo subiram 4,7% cada. O açúcar teve valorização de 0,9% e o algodão, de 0,5%.
O desempenho não foi uniforme. O boi gordo negociado na CME recuou 2,9% no período, enquanto o café caiu 0,5%. Na comparação apresentada na tabela de commodities do relatório, a soja acumulava alta de 12% em 12 meses, o milho de 9%, o trigo de 16%, o café de 11% e o algodão de 22%. O açúcar apresentava queda de 3% nessa base de comparação.
Etanol e fertilizantes entram nas decisões de política fiscal
Medidas em discussão no Congresso também alcançam segmentos diretamente ligados ao agronegócio. Segundo a Rabobank, com referência a informações do Valor, o Congresso aprovou um projeto que reduz tributos sobre combustíveis em 2026 e reúne medidas com impacto fiscal em diferentes setores. O texto segue para sanção presidencial.
Entre as medidas previstas estão uma subvenção de até R$ 1,2 bilhão para o etanol e créditos fiscais destinados a produtores de fertilizantes no âmbito do Profert. O projeto também contempla benefícios tributários relacionados a minerais críticos e mecanismos para conter despesas vinculadas a partir de 2027.
O conjunto dos indicadores mantém o cenário econômico cercado de variáveis relevantes para o agronegócio no restante de 2026. Segundo a Rabobank, apesar do alívio recente da inflação de alimentos, permanecem no radar juros elevados, volatilidade do dólar e do petróleo, incertezas comerciais e geopolíticas, além dos riscos relacionados ao El Niño e aos fertilizantes.