Época de semeadura pode reduzir risco de brusone no trigo
Planejamento evita que espigamento e florescimento coincidam com períodos quentes
Foto: Seane Lennon
Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
Planejamento busca evitar que espigamento e florescimento coincidam com períodos quentes e úmidos favoráveis à doença
A definição da época de semeadura pode ajudar a reduzir o risco de brusone nas lavouras de trigo. A doença, causada principalmente pelo fungo Pyricularia grisea (Magnaporthe oryzae patótipo Triticum) => classificação antiga), encontra condições favoráveis quando o espigamento e o florescimento coincidem com períodos de elevada umidade e temperaturas amenas a quentes.
O risco aumenta especialmente quando há espigas expostas, presença do fungo e temperaturas entre cerca de 18 °C e 30 °C, associadas a chuva, neblina ou molhamento prolongado, superior a dez horas. Por isso, a data de plantio interfere diretamente na janela climática em que a cultura atingirá sua fase mais sensível.
O principal sintoma da lavoura de trigo atacada pelo fungo da Brusone é o branqueamento precoce das espigas, devido ao fungo atacar o raque da espiga, causando interrupção do transporte da seiva, mostrando espigas totalmente brancas ou parte delas. Culminando com chochamento dos grãos.
O posicionamento da semeadura deve ocorrer sempre dentro das janelas recomendadas pelo zoneamento agrícola (ZARC), se possível evitar semeaduras muito precoces. A semeadura em época que propicie espigamento em condições de temperaturas mais baixas é uma estratégia preventiva. Para tomar essas decisões precisa considerar o ciclo da cultivar, o histórico climático e a possibilidade de o florescimento ocorrer em períodos de maior chuva e temperatura.
Cultivares precoces, médias e tardias apresentam diferenças no tempo necessário para chegar ao espigamento. O uso de ciclos distintos pode distribuir o período de florescimento e evitar que toda a lavoura fique exposta ao mesmo momento de maior risco climático.
O histórico de cada região também deve entrar no planejamento. Na região sul, entre agosto e outubro, semanas com maior frequência de chuva, umidade elevada e temperaturas mais altas podem representar maior risco. O objetivo é posicionar o florescimento fora desses períodos, sem antecipar excessivamente e expor a cultura a geadas.
A atenção deve ser maior em áreas com grande presença de gramíneas hospedeiras ou palhada onde o fungo possa sobreviver. Nessas situações, a pressão de inóculo pode ser maior, aumentando a importância do ajuste da semeadura.
A estratégia não substitui outras práticas de manejo. Rotação de culturas, escolha de cultivares menos suscetíveis, manejo da palhada, acompanhamento das condições climáticas e uso criterioso de fungicidas continuam fazendo parte do controle integrado.
Também é necessário evitar extremos. Semeaduras muito antecipadas podem aumentar a exposição a geadas, enquanto plantios muito tardios podem levar o espigamento para períodos mais quentes e chuvosos. A definição da melhor época deve equilibrar o risco de brusone com os demais riscos climáticos.
Para o produtor, a principal orientação é planejar a semeadura dentro do zoneamento, conhecer o ciclo das cultivares e acompanhar o comportamento climático da região. A combinação dessas informações ajuda a reduzir a exposição da cultura às condições mais favoráveis à doença. Deve-se destacar os principais efeitos negativos a lavoura atacada pelo fungo P. grisea: baixo peso do hectolitro (PH), reduzindo o valor comercial; perda no rendimento de extração de farinha e instabilidade na força de glúten(W) e na absorção de água, prejudicando a padronização industrial.