Tratamento de sementes reduz doenças nas lavouras
Sementes saudáveis começam antes do plantio
Foto: USDA
A sanidade das sementes tem ganhado espaço entre os principais fatores que determinam o desempenho das lavouras, ao lado das qualidades genética, física e fisiológica. Embora pouco conhecida fora do meio técnico, essa característica é considerada decisiva para evitar a disseminação de patógenos que podem comprometer o desenvolvimento das plantas e reduzir a produtividade das culturas.
Segundo o presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), engenheiro agrônomo e professor sênior da ESALQ-USP, José Otávio Menten, a semente é a forma mais eficiente de transporte de agentes causadores de doenças. "Não existe maneira mais eficiente de um patógeno ser transportado e depois transmitido para a planta do que pela semente. Ele pode vir pelo vento, pela água ou por vetores, mas na semente ele já está junto com seu hospedeiro."
O pesquisador explica que o controle dos patógenos ainda na fase da semente reduz o risco de prejuízos durante todo o ciclo da cultura. De acordo com Menten, quando a infecção ocorre logo no início do desenvolvimento da planta, os impactos tendem a ser maiores devido à multiplicação contínua do agente causador da doença.
"Quanto mais cedo uma doença aparece, maior dano vai ter, porque vão ter mais ciclos daquele patógeno. Além disso, patógenos associados às sementes podem matar a semente ou causar tombamento ou “damping-off” que reduzem a população de plantas. Também podem debilitar as plantas através de podridão das raízes e lesões nas hastes. Por isso a sanidade deve receber a mesma atenção dedicada às qualidades genética, física e fisiológica das sementes. O tratamento de sementes é uma tecnologia extremamente importante porque permite controlar tanto patógenos associados à própria semente quanto aqueles presentes no solo, reduzindo o inóculo inicial e diminuindo a necessidade de aplicações posteriores durante a safra", afirma.
Apesar de os métodos tradicionais de análise continuarem amplamente utilizados, o avanço da biologia molecular, da inteligência artificial e das ferramentas de análise de dados deve ampliar a capacidade de monitoramento da sanidade das sementes. Essas tecnologias prometem tornar os diagnósticos mais rápidos, precisos e acessíveis aos produtores.
Na avaliação de Menten, um dos principais desafios da pesquisa será integrar essas novas ferramentas para identificar com maior precisão os patógenos de maior relevância para cada cultura. "Com essas técnicas de inteligência artificial, de bancos de dados bem organizados, isso vai nos auxiliar bastante a termos maior clareza de quais são as principais limitações."
O especialista acredita que o cruzamento de grandes volumes de informações permitirá avaliar de forma mais consistente os riscos fitossanitários e mensurar o impacto econômico da presença de diferentes patógenos nas sementes.
O aumento do potencial produtivo das cultivares também elevou a importância da sanidade das sementes. Com materiais genéticos mais exigentes, o manejo precisa ser mais preciso desde o estabelecimento da lavoura para preservar o potencial produtivo das plantas.
Nesse cenário, Menten destaca que o tratamento biológico de sementes, associado aos produtos químicos, desponta como uma das principais linhas de pesquisa na agricultura. "Nós estamos numa época que eu gostaria de estar me formando agora. Agora nós estamos numa agricultura muito mais refinada. Hoje nós temos materiais e tecnologias que exigem que o profissional entenda com muito mais precisão e possa tomar decisões muito mais baseadas em ciência e tecnologia."