CI

Especialistas veem cautela, crédito seletivo e risco elevado após anúncio do Plano Safra 2026/2027

Em edição especial do A Voz do Mercado, analisaram os impactos do Plano Safra


Foto: Arquivo

O talk show A Voz do Mercado realizou, na manhã desta quarta-feira, 1º de julho, às 10h, uma edição especial para analisar o Plano Safra 2026/2027, anunciado na terça-feira, 30 de junho, pelo Governo Federal, em Brasília. Transmitido ao vivo pelo YouTube do Portal Agrolink, o programa teve mediação de Ivan Wedekin e Suelen Farias e reuniu especialistas para discutir crédito rural, juros, investimentos, endividamento e os impactos do novo plano para o agronegócio brasileiro.

O programa discutiu os principais pontos do Plano Safra 2026/2027, que previu R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, valor R$ 9 bilhões superior ao disponibilizado no ciclo anterior. O destaque da edição foi a redução das taxas de juros, apontada como uma das medidas centrais para aliviar o custo financeiro de médios e grandes produtores em um cenário de expectativa de queda gradual dos juros, mas ainda marcado pelo peso da Selic elevada.

Participaram do debate Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil; Ademiro Vian, diretor da IBDAGRO e Advisory de Empresas; e Mário Tenerelli, conselheiro O grupo fez uma análise técnica e estratégica dos efeitos do plano para produtores, cooperativas, indústria, instituições financeiras e demais agentes da cadeia do agronegócio.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o corte nas taxas máximas de juros atingiu praticamente todas as principais linhas de crédito. O Pronamp, voltado aos médios produtores, passou a ter teto de 9% ao ano. O RenovAgro e o PCA ficaram em 9,5% ao ano, enquanto o PCA para volumes de até 12 mil toneladas teve taxa de 8% ao ano. O Custeio Empresarial e o Moderfrota permaneceram em 12,5% ao ano, e o Inovagro ficou em 11,5% ao ano.

Clique aqui e assista a edição na íntegra.

Ao comentar a redução dos juros, Gilson Bittencourt afirmou que, de forma geral, houve queda nas taxas. Segundo ele, para os pequenos produtores, o percentual caiu de 10% para 9%. Já em algumas condições voltadas aos médios produtores, houve redução de 14% para 12,5%, além de diminuição nas principais linhas de investimento. O executivo ponderou, porém, que a queda ficou abaixo do desejado em razão do comportamento da Selic. Conforme Bittencourt, há alguns meses a expectativa era de que a taxa básica encerrasse o ano entre 12% e 12,5%, mas a sinalização mais recente do Comitê de Política Monetária apontava para um fechamento próximo de 14%, fator que limitou uma redução mais expressiva dos juros do crédito rural.

Sobre o volume de recursos, Bittencourt destacou que era necessário observar quanto do montante anunciado seria efetivamente aplicado. Ao tratar do crédito rural de forma ampla, ele mencionou um total de R$ 593 bilhões, com expectativa de aplicação efetiva entre R$ 560 bilhões e R$ 570 bilhões, número que ainda dependeria do fechamento dos dados de junho. O executivo explicou que esse total considerava todo o crédito rural, incluindo operações de Cédula de Produto Rural, recursos antecipados por tradings, financiamentos concedidos por instituições financeiras com recursos da poupança rural e outras modalidades, como a Letra de Crédito do Agronegócio, que teve forte participação nas concessões realizadas em junho.

Bittencourt também observou que, nas últimas safras, houve aumento da participação das instituições financeiras na oferta de crédito ao setor agropecuário. A expectativa, segundo ele, era de que esse movimento se mantivesse, permitindo que o volume total de recursos disponibilizados ao produtor rural ficasse próximo ao registrado na safra passada.

Em relação às linhas de investimento, o executivo afirmou que o setor passava por um processo de modernização tecnológica nos sistemas do Banco Central, com expectativa de que os dados passassem a ser disponibilizados de forma mais eficiente a partir deste mês. Ele destacou que, embora tenha havido redução nas aplicações destinadas a investimento no ciclo anterior, o novo plano contava com dois programas de juros mais baixos. Para Bittencourt, mais importante do que o volume de recursos era observar as condições oferecidas ao produtor, especialmente as taxas de financiamento.

Segundo o vice-presidente do Banco do Brasil, houve redução nas taxas de juros para aquisição de máquinas agrícolas, e uma nova resolução sobre crédito rural havia sido publicada. Com isso, o Banco Central faria as adaptações necessárias em seus sistemas para operacionalizar essas linhas. As normas operacionais da Finame deveriam ser publicadas entre quarta e quinta-feira, com taxas inferiores a 12% ao ano, uma das principais demandas do setor, tanto de produtores rurais quanto de fabricantes de máquinas agrícolas.

Bittencourt citou ainda o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira como instrumento voltado à recuperação da capacidade de investimento do produtor. Segundo ele, esses recursos seriam importantes não apenas para ampliar a produção, mas também para reduzir riscos, aumentar a eficiência e diminuir os custos da atividade. O executivo informou que o Banco do Brasil, que havia deixado de operar a Finame em determinado momento, voltou a se credenciar junto à linha após o anúncio do governo.

Questionado se as novas linhas de investimento, com juros mais baixos, seriam suficientes para retomar a demanda por máquinas agrícolas e outros investimentos, Bittencourt recomendou cautela. Segundo ele, a principal orientação aos produtores era fazer uma análise cuidadosa antes de contratar novos financiamentos. Em muitos casos, produtores foram obrigados a adiar investimentos por causa do aumento dos custos financeiros. Com a redução das taxas, especialmente em linhas voltadas a máquinas e equipamentos, o produtor precisaria avaliar se o investimento realmente traria retorno econômico à propriedade.

O executivo também fez um esclarecimento sobre o projeto de renegociação das dívidas rurais em tramitação no Congresso. Segundo ele, o texto aprovado na Câmara dos Deputados contemplava apenas débitos vencidos até 30 de junho de 2025. Já a versão aprovada pelo Senado ampliava esse prazo para dívidas vencidas até 30 de abril de 2026. Isso significava que produtores com dívidas vencidas após essas datas não seriam contemplados pelas regras em discussão. Por isso, Bittencourt alertou que deixar de pagar compromissos na expectativa de uma futura renegociação poderia ser um erro e recomendou que os produtores procurassem suas instituições financeiras para buscar alternativas de negociação.

Do total anunciado para a agricultura empresarial, R$ 384,9 bilhões foram destinados a custeio e comercialização, recursos usados para compra de insumos, condução das lavouras, manejo de rebanhos e venda da produção. Outros R$ 140,2 bilhões foram direcionados a investimentos, como modernização produtiva, armazenagem, irrigação, inovação tecnológica e renovação de máquinas e equipamentos.

Ao avaliar o plano, Ademiro Vian fez uma distinção entre o Pronaf e o Plano Safra Empresarial. Segundo ele, o Plano Safra voltado ao Pronaf pareceu bastante ajustado à realidade do mercado, não apenas pelo volume total de recursos, mas também pelos limites individuais destinados aos produtores, que passaram por atualizações importantes. O programa, segundo Vian, manteve salvaguardas, contemplou mecanismos de comercialização voltados aos agricultores familiares e contou com boa destinação de recursos para o seguro.

Já em relação ao Plano Safra Empresarial, a avaliação de Vian foi mais crítica. O diretor da IBDAGRO considerou a divulgação fraca, porque, diferentemente do Pronaf, apresentado com limites de crédito, taxas de juros, valores por beneficiário e demais condições, o plano empresarial foi anunciado sem o mesmo nível de transparência. Segundo ele, muitas informações ficaram para ser divulgadas posteriormente, o que dificultou uma análise mais completa.

Vian também ponderou que o volume total de recursos não deveria ser o principal critério de avaliação, já que esse número dependia do momento econômico e da demanda por investimentos. Ele alertou que o setor enfrentava elevado nível de endividamento, especialmente fora do Sistema Nacional de Crédito Rural, o que tornava o cenário mais complexo. O executivo afirmou ainda que o montante anunciado reunia recursos controlados, recursos livres, depósitos da poupança rural, Letras de Crédito do Agronegócio e fontes privadas, como operações com Cédulas de Produto Rural. Para ele, somar tudo em um único valor poderia transmitir uma percepção que não representava exatamente a estrutura do crédito disponível.

O principal ponto de preocupação de Vian foi a ausência de uma proposta consistente para o seguro rural no Plano Safra Empresarial. Segundo ele, o plano disponibilizou recursos para contratação de crédito em condições de mercado, mas produtores e instituições financeiras precisavam de instrumentos capazes de reduzir os riscos da atividade. O executivo defendeu que o setor iniciasse a construção de um modelo de seguro rural capaz de atingir maturidade nos próximos quatro ou cinco anos, tema considerado estratégico para fortalecer o sistema de financiamento do agronegócio brasileiro.

Sobre as perspectivas para a próxima safra, Vian afirmou que o crédito continuaria direcionado principalmente ao custeio da produção, e não aos investimentos. Na avaliação dele, aquele não era um momento favorável para grandes investimentos ou para aquisição de máquinas, salvo em situações muito específicas. A prioridade, segundo o diretor da IBDAGRO, seria manter a atividade produtiva funcionando.

Vian também avaliou que o crédito bancário continuaria disponível, mas com critérios mais rigorosos. Segundo ele, isso ocorreria em razão do aumento dos riscos, dos processos de recuperação judicial, das dificuldades enfrentadas por parte dos produtores e de outros fatores que impactavam a concessão de financiamentos. Para o executivo, o crédito seguiria existindo, porém de forma mais seletiva, e o desafio seria garantir que os produtores tivessem condições de acessar esses recursos sem que o setor voltasse a enfrentar os problemas observados nos últimos anos.

Ao comentar o cenário de juros, Vian afirmou que havia expectativa de queda da Selic, impulsionada por um ambiente de desaceleração da atividade econômica no Brasil e no exterior. Essa, segundo ele, era uma das premissas consideradas pelo Comitê de Política Monetária para promover a redução das taxas de juros em algumas linhas de crédito. Ainda assim, o diretor da IBDAGRO ponderou que o movimento deveria ser gradual e exigiria cautela. Para ele, mais do que observar apenas a taxa de juros, o produtor deveria analisar todos os custos envolvidos e avaliar se o investimento faria sentido para a realidade da propriedade.

O programa também abordou o reforço das linhas voltadas à sustentabilidade. Produtores com Cadastro Ambiental Rural regularizado poderiam obter desconto de até 0,5 ponto percentual na taxa de juros do custeio. O benefício poderia chegar a 1 ponto percentual quando combinado com a adoção de práticas agropecuárias sustentáveis.

A gestão de risco também esteve entre os temas discutidos. De acordo com o Mapa, a renegociação de operações de custeio agrícola passou a depender da existência de cobertura por Proagro ou seguro rural, medida que tendia a estimular o uso de mecanismos de proteção contra perdas no campo.

Mário Tenerelli descreveu o momento do agronegócio como um ciclo bastante desafiador, resultado de uma “tempestade perfeita” que começou a se formar em 2023 e cujos efeitos ainda persistiam. Segundo o conselheiro, esse cenário coincidiu com o aumento do uso de capital privado no financiamento da atividade agrícola. Produtores passaram a recorrer com mais frequência a operações financeiras estruturadas para custear o início da safra, mas, em muitos casos, esses recursos acabaram sendo usados para quitar dívidas acumuladas de anos anteriores, e não para financiar a nova produção.

Tenerelli afirmou que o ambiente de juros elevados agravou a situação financeira do setor. Na avaliação dele, a inadimplência na agricultura girava em torno de 6% a 7% no sistema formal. O conselheiro também apontou a existência de uma inadimplência informal, que não aparecia nas estatísticas oficiais, envolvendo produtores, revendedores de insumos, distribuidoras e indústrias fornecedoras. Segundo ele, esse passivo se espalhava por toda a cadeia do agronegócio.

Para Tenerelli, muitos produtores aguardavam a aprovação do projeto de lei de renegociação das dívidas para conseguir voltar a acessar o crédito do Plano Safra. Ele afirmou que quem financiava capital de giro no mercado privado pagava taxas como CDI mais 3% ou CDI mais 4%, o que representava custo próximo de 18% a 20% ao ano. Em contrapartida, o Plano Safra oferecia linhas com juros entre 8% e 9%, uma diferença considerada bastante significativa.

O conselheiro ponderou que havia pontos do Plano Safra que poderiam ser aperfeiçoados, mas avaliou que o principal problema estava na realidade enfrentada pelo produtor. Segundo ele, muitos agricultores não conseguiam acessar as linhas oficiais justamente porque estavam inadimplentes. Tenerelli afirmou que o projeto de renegociação previa carência de dois ou três anos, prazo de até sete anos para pagamento e juros entre 3% e 7%. Mesmo assim, um grande número de produtores permanecia fora do sistema de crédito oficial por causa dos passivos acumulados nos últimos anos.

Tenerelli também destacou o lado positivo do cenário. Segundo ele, cerca de 85% a 90% dos produtores rurais honravam seus compromissos, pagavam suas obrigações em dia e mantinham suas atividades de forma saudável. Para esse grupo, afirmou, o Plano Safra estava direcionado em grande medida.

Com mais de 30 anos de atuação direta no setor, o conselheiro afirmou que ainda havia necessidade de maior disciplina na concessão de crédito e na alocação de capital, tanto por parte das empresas que financiam os produtores quanto dos próprios produtores rurais. Segundo ele, nos últimos anos houve uma entrada expressiva de capital privado no agronegócio por meio de operações estruturadas, fundos de investimento e outras modalidades de financiamento. Esse movimento foi importante para ampliar a oferta de crédito, mas, em alguns casos, faltou disciplina na aplicação dos recursos.

Na avaliação de Tenerelli, parte desse capital foi direcionada para aquisição de terras, retenção de estoques, expansão patrimonial ou investimentos que não geraram o retorno esperado. Isso ocorreu principalmente no período de forte expansão vivido até 2022 e contribuiu para parte das dificuldades financeiras observadas a partir de 2023. Segundo ele, esse problema atingiu uma parcela relativamente pequena do setor, entre 10% e 15%. A grande maioria dos produtores, afirmou, utilizou o crédito de forma adequada, investiu em tecnologia, aumentou a eficiência, reduziu custos de produção e continuou financeiramente equilibrada.

O conselheiro também afirmou enxergar um processo crescente de profissionalização do crédito privado no agronegócio. Segundo ele, havia cada vez mais investidores, inclusive internacionais, interessados em financiar o setor por meio de instrumentos como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, Certificados de Recebíveis do Agronegócio e outras operações estruturadas. No entanto, Tenerelli ressaltou que esse capital precisava vir acompanhado de critérios rigorosos de utilização. Recursos captados para financiar a produção não poderiam ser usados para quitar dívidas antigas ou para finalidades diferentes daquelas previstas na operação.

Ao fim da edição, o A Voz do Mercado consolidou uma leitura de cautela para a próxima temporada. O Plano Safra 2026/2027 trouxe redução em algumas taxas e ampliou recursos para investimentos, mas o endividamento, a seletividade do crédito, a necessidade de renegociação de passivos, a gestão de risco e a construção de um seguro rural mais robusto seguiram como desafios centrais para produtores e financiadores. Para os especialistas, o acesso ao crédito dependeria cada vez mais de planejamento, análise de retorno, disciplina financeira e capacidade de gestão dentro e fora da porteira.
 

Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7