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Peptídeos são estudados para combater Salmonella

Salmonella é uma bactéria capaz de causar doenças em humanos e animais


Foto: Canva

Compostos formados por aminoácidos são pesquisados para atuar contra bactérias e biofilmes, reduzir riscos de contaminação dos alimentos e diminuir a dependência do uso de antibióticos.

A Salmonella continua sendo uma preocupação quando o assunto é segurança dos alimentos, especialmente na produção animal. A bactéria pode causar doenças em humanos e animais e chegar aos alimentos por diferentes formas de contaminação. Entre as alternativas estudadas para ampliar o controle estão os peptídeos antimicrobianos, compostos formados por aminoácidos que podem atuar contra bactérias e também sobre biofilmes presentes em equipamentos e superfícies.

Segundo o engenheiro agrônomo Juarez Morbini Lopes, existem mais de 2.500 sorotipos de Salmonella. Sorotipos são diferentes variações de um mesmo grupo de bactéria. Entre os mais comuns em aves, ele destaca a Salmonella enteritidis e a Salmonella typhimurium.

Lopes também cita a existência de Salmonella enterica e Salmonella bongori entre os tipos da bactéria mencionados durante a entrevista.

Em humanos, a infecção pode provocar quadros de diarreia que, segundo o engenheiro agrônomo, podem durar até uma semana. Ele explica que, nesses casos citados por ele, a preocupação principal é manter a hidratação do paciente.

Na cadeia de produção de alimentos, um dos pontos de atenção está no contato com materiais contaminados por fezes dos animais. Na avicultura, ovos e carnes aparecem entre os alimentos que exigem cuidados.

A higiene ao longo de todo o processo, desde a criação dos animais até a manipulação dos alimentos, é apontada por Lopes como uma das principais medidas de prevenção.

O engenheiro agrônomo lembra, como observação pessoal, de episódios registrados anos atrás em festas de pequenas comunidades rurais, quando eram relatadas intoxicações associadas ao consumo de salada de batata com maionese preparada com ovos caseiros.

Segundo ele, o risco estava relacionado principalmente às condições de higiene durante o preparo. Ovos produzidos por aves sem controle sanitário poderiam apresentar fezes na casca. Ao quebrar esses ovos e continuar o preparo sem uma higienização adequada das mãos, poderia ocorrer a transferência da contaminação para a maionese e para outros alimentos.

Lopes ressalta que se trata de uma lembrança pessoal e afirma não ter ouvido, há muitos anos, relatos semelhantes nesse tipo de situação. Para ele, o exemplo reforça a importância dos cuidados de higiene com os animais, com os alimentos e também com as pessoas responsáveis pela manipulação.

Peptídeos são pesquisados para atuar contra bactérias e biofilmes

Dentro da busca por novas ferramentas de controle, os peptídeos antimicrobianos aparecem como uma das alternativas em estudo.

De acordo com Lopes, os peptídeos são pequenas estruturas compostas por aminoácidos e podem apresentar ação antimicrobiana. As pesquisas avaliam a possibilidade de utilizá-los na eliminação ou no controle de bactérias, entre elas a Salmonella.

Um dos objetivos é encontrar formas de aumentar a segurança dos alimentos sem depender exclusivamente do uso de antibióticos.

Outro ponto destacado pelo engenheiro agrônomo é a possibilidade de atuação sobre os biofilmes.

Lopes faz questão de corrigir o termo utilizado inicialmente durante sua explicação. Em vez de “filmes bacterianos”, o mais adequado, segundo ele, é falar em biofilmes, porque essas formações podem conter outros micro-organismos, como vírus e fungos, além de bactérias.

Os biofilmes podem ficar aderidos a diferentes equipamentos, utensílios e superfícies utilizados na produção e na industrialização dos alimentos.

Na produção de aves, Lopes cita como exemplos comedouros e bebedouros. Já na indústria, essas formações podem estar presentes em sistemas de armazenamento, ferramentas utilizadas no processamento, recipientes, contêineres e bandejas.

Quando a limpeza não é realizada de forma adequada, micro-organismos podem permanecer aderidos a esses materiais. Por isso, a capacidade dos peptídeos de atuar nesses locais é um dos pontos de interesse das pesquisas.

A preocupação não se limita à presença visível de sujeira. Conforme a explicação do entrevistado, os micro-organismos podem permanecer protegidos e aderidos aos materiais utilizados ao longo do processo produtivo, o que aumenta a necessidade de estratégias eficientes de higienização e controle.

É nesse cenário que os peptídeos vêm sendo avaliados como uma alternativa adicional para reduzir o risco de contaminação dos alimentos.

Resistência aos antibióticos aumenta interesse por novas alternativas

Outro fator que ajuda a explicar o interesse pelos peptídeos antimicrobianos é a resistência bacteriana aos antibióticos.

Segundo Lopes, o uso indiscriminado desses medicamentos pode contribuir para que determinadas bactérias desenvolvam resistência. Quando isso ocorre, o antibiótico pode deixar de produzir o efeito esperado, tornando o controle mais difícil.

Os peptídeos apresentam, segundo o engenheiro agrônomo, uma forma de atuação diferente daquela dos antibióticos. Essa característica faz com que sejam pesquisados como uma possibilidade de reduzir a dependência desses medicamentos.

A proposta não significa que os peptídeos já possam substituir os métodos utilizados atualmente. O próprio entrevistado ressalta que os estudos ainda estão em andamento e que o uso desses compostos permanece limitado.

A possível vantagem econômica também está entre os pontos avaliados. Lopes afirma que os antibióticos são produtos relativamente caros e considera que os peptídeos poderão apresentar custo menor no futuro, o que poderia representar uma vantagem para a produção de alimentos.

Essa possibilidade, entretanto, ainda depende da capacidade de produzir os peptídeos em maior escala. Morbini diz que, ainda não existe uma utilização ampla desses produtos quando comparada ao emprego de antibióticos. Algumas empresas realizam estudos e apenas alguns produtos estão disponíveis.

Para que os peptídeos antimicrobianos avancem na indústria alimentícia, será necessário superar diferentes etapas. Uma delas é garantir que os produtos colocados no mercado apresentem efetividade comprovada.

Outro desafio é aumentar a produção. A disponibilidade em larga escala será determinante para que os peptídeos possam ser incorporados de forma mais ampla às estratégias de controle de contaminação.

O custo também terá peso nessa decisão. Para Lopes, os peptídeos precisam conseguir competir economicamente com os antibióticos para ampliar sua utilização. O engenheiro agrônomo aponta ainda uma tendência de redução da antibioticoterapia, ou seja, do uso de antibióticos, o que aumenta o interesse pela busca de alternativas.

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