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Excesso de chuva afeta qualidade da cana-de-açúcar

Umidade elevada preocupa setor sucroenergético


Foto: Canva

As condições climáticas têm alterado o ritmo da safra 2026/27 de cana-de-açúcar e imposto novos desafios ao setor sucroenergético brasileiro. Em um período normalmente caracterizado por temperaturas mais amenas e redução das chuvas, favoráveis ao acúmulo de sacarose, o ciclo atual registra precipitações acima do esperado e elevada umidade do solo. Esse cenário prolonga o crescimento vegetativo da cultura, atrasa a maturação e reduz o acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), principal indicador da qualidade da matéria-prima utilizada na produção de açúcar e etanol.

Segundo o engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, Michel Tomazela, a instabilidade climática tornou mais complexa a definição da janela ideal de colheita. "Antes era mais fácil prever como a lavoura iria evoluir. Hoje, a cada previsão de chuva, aumento da umidade ou mudança nas condições do tempo, aumenta a incerteza sobre o comportamento da maturação. Quando essa previsibilidade diminui, cresce o risco de perder parte do potencial de ATR que a cana construiu ao longo da safra. Nesse cenário, identificar o momento que entrega mais valor para a operação é fundamental. Essa decisão deve considerar o comportamento da lavoura, as condições climáticas e uma estratégia de colheita bem planejada", afirma.

As previsões climáticas para as próximas semanas indicam que esse cenário deve persistir. De acordo com informações da Rural Clima, a segunda quinzena de julho deverá marcar o retorno das chuvas em importantes regiões produtoras de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. A tendência é que esse padrão também alcance o Centro-Oeste no início de agosto, sob influência do El Niño.

Embora a disponibilidade de água seja importante para o desenvolvimento da cultura, a manutenção da umidade em um período que normalmente é mais seco retarda a concentração natural de açúcares e exige maior atenção ao planejamento da colheita.

O excesso de umidade modifica o comportamento fisiológico da planta. Em vez de direcionar energia para o acúmulo de sacarose nos colmos, a cana mantém o crescimento vegetativo, retardando a maturação. “Como consequência, a concentração de açúcar diminui justamente no período em que o setor espera obter os maiores índices de ATR, impedindo que a cana atinja o ponto ideal de colheita no tempo esperado. Se a colheita for antecipada para atender ao cronograma industrial, a matéria-prima pode chegar à usina com menor teor de sacarose e menor potencial de ATR”, explica Tomazela.

Além da redução no teor de açúcar, o encharcamento do solo compromete a oxigenação das raízes, favorece o surgimento de doenças e dificulta as operações no campo. Nessas condições, o deslocamento de máquinas torna-se mais complexo, provocando atrasos na colheita, aumento dos custos operacionais e impactos no planejamento das usinas.

Os reflexos atingem toda a cadeia produtiva. Como o ATR define a quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana, sua redução afeta diretamente a rentabilidade da produção, o rendimento industrial e a competitividade do setor.

"Produzir grande volume de cana já não é suficiente. O que determina o retorno econômico é a qualidade da matéria-prima. O ATR é o indicador que transforma produtividade em rentabilidade", explica Tomazela.

Quando a concentração de sacarose é menor, a indústria precisa processar um volume maior de cana para produzir a mesma quantidade de açúcar ou etanol. Isso eleva os custos industriais, reduz a eficiência operacional e pode comprometer os resultados econômicos tanto das usinas quanto dos produtores.

Diante desse cenário, cresce a importância de estratégias capazes de minimizar os efeitos da variabilidade climática sobre a maturação da cana e preservar o potencial de ATR.

No Centro-Sul, a maturação ocorre naturalmente entre o outono e o inverno, quando temperaturas mais baixas e menor disponibilidade hídrica favorecem o acúmulo de sacarose. Nesta safra, porém, as chuvas frequentes e a elevada umidade alteraram esse comportamento, dificultando a evolução da maturação e tornando mais complexa a definição da janela de colheita.

Para enfrentar esse desafio, o consultor da MS Fernandes Consultoria Agrícola, Dr. Michel da Silva Fernandes, afirma que o manejo da maturação deve integrar uma estratégia ampla de produção, associada ao controle de plantas daninhas, pragas e doenças, ao manejo nutricional e à escolha adequada das variedades, favorecendo o acúmulo de sacarose e preservando o potencial de ATR.

Os maturadores podem ser utilizados em diferentes momentos da safra. No início do ciclo, ajudam a reduzir o crescimento vegetativo. No meio da safra, favorecem a maturação em regiões com outono e inverno chuvosos. Já no fim do ciclo, contribuem para inibir a retomada do desenvolvimento da planta, preservando níveis elevados de sacarose por mais tempo e ampliando a flexibilidade para definir a melhor janela de colheita, mesmo em cenários de maior instabilidade climática.

Entre as tecnologias utilizadas nesse manejo está o maturador sistêmico RIPER, da IHARA, desenvolvido para auxiliar produtores e usinas no planejamento da maturação ao longo da safra. Utilizado em diferentes fases do ciclo, o produto permite maior flexibilidade na definição da janela de colheita, adequando a estratégia às condições climáticas e ao potencial de maturação dos canaviais.

Em condições favoráveis de manejo, o RIPER pode proporcionar incrementos de 4% a 8% no teor de ATR, elevando a produção de toneladas de açúcar por hectare (TAH) e a rentabilidade da operação.

Para Tomazela, diante da maior variabilidade climática, preservar a qualidade da matéria-prima tornou-se tão importante quanto alcançar elevados índices de produtividade. "Hoje, o desafio não é apenas produzir mais cana, mas colher no momento certo. O planejamento da maturação, aliado ao uso estratégico de tecnologias, permite aproveitar melhor o potencial da lavoura, aumentar o rendimento industrial e reduzir os impactos provocados pelas oscilações do clima", conclui.

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