Falta de diretrizes para emissões na aquicultura mobiliza projeto internacional com liderança da Embrapa
Iniciativa irá propor métricas inéditas para emissões da aquicultura ao IPCC
Foto: Arquivo Embrapa
Sem metodologia oficial do IPCC, iniciativa articula especialistas de vários países para preencher lacuna crítica na contabilidade climática do setor
A ausência de diretrizes específicas para medir emissões (GEE) na aquicultura nos inventários nacionais de emissões e remoções de gases de efeito estufa motivou a criação de um projeto internacional, liderado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e sob coordenação da Embrapa Meio Ambiente. A iniciativa pretende desenvolver e propor ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) uma metodologia inédita para mensurar emissões e remoções no setor aquícola, permitindo que os países que produzem alimentos aquáticos reportem suas emissões e remoções.
“Hoje, um dos principais gargalos da aquicultura sustentável é a falta de métricas confiáveis para emissões e remoções de gases de efeito estufa. Sem isso, fica difícil orientar políticas públicas ou avaliar o impacto real das tecnologias adotadas no campo”, afirma a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Fernanda Sampaio, que coordena o projeto.
Atualmente, as nações signatárias da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima contam com guias detalhados do IPCC para reportar as emissões e remoções de atividades como a pecuária e a agricultura. No entanto, mesmo em países onde a aquicultura tem peso crescente — como Brasil e China — não há orientações padronizadas para este cálculo. Na prática, isso dificulta a elaboração de inventários nacionais consistentes e limita a inserção da atividade em políticas climáticas e mecanismos de financiamento internacional.
A demanda por uma metodologia específica ganha urgência diante da expansão acelerada da aquicultura. Dados do relatório “O Estado Mundial da Pesca e da Aquicultura” (SOFIA), da FAO, mostram que o setor ultrapassou, pela primeira vez, a pesca de captura na produção global de animais aquáticos, atingindo 130,9 milhões de toneladas em 2022 — o equivalente a 51% do total. O avanço reforça o papel estratégico da atividade na segurança alimentar, mas expõe a fragilidade das métricas ambientais disponíveis.
“Sem diretrizes consolidadas, sistemas produtivos como piscicultura em viveiros escavados e cultivo de bivalves — como ostras e mexilhões — seguem à margem das metodologias internacionais. Isso impede estimativas precisas de emissões e remoções de GEE de serem reportadas oficialmente, criando um vazio técnico que compromete a comparabilidade” afirma Sampaio . Os inventários são cruciais para garantir dados consistentes ao longo do tempo e tecnicamente robustos, servindo de base para políticas, metas e acesso a mercados. Além disso, permite comparações entre cadeias de proteínas de origem animal (peixes vs. bovinos, aves etc.).
Para enfrentar esse desafio, a Embrapa coordena um grupo de especialistas brasileiros e estrangeiros, que reúne atualmente pesquisadores do Brasil, China, Estados Unidos, Uruguai e Zimbabue. O objetivo é elaborar uma proposta técnica robusta que padronize um método claro, incluindo proposta de mensuração de dados de atividade, fatores de emissão disponíveis na literatura global, incertezas e reprodutibilidade das estimativas na aquicultura em escala global.
As diretrizes serão específicas para produções em viveiros escavados, como peixes e camarões e de bivalves, como ostras e mexilhões. Tecnologias como sensoriamento remoto e modelagem preditiva devem ser utilizadas para suprir lacunas, especialmente em regiões com baixa disponibilidade de informações.
Unidades da Embrapa terão papel estratégico nesse processo
A Embrapa Cerrados e a Embrapa Agropecuária Oeste atuarão na caracterização de viveiros escavados em diferentes regiões do mundo, enquanto a Embrapa Territorial apoiará o monitoramento global desses sistemas. A Assessoria de Relações Internacionais da empresa também participará, coordenando a elaboração das diretrizes nos moldes do IPCC.
Lucíola Magalhães, chefe de pesquisa na Embrapa Territorial, destaca que a instituição já coordena, em parceria com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), um projeto nacional voltado ao mapeamento de tanques escavados para a aquicultura no Brasil. Segundo ela, a iniciativa internacional tem grande potencial para gerar indicadores consistentes e aplicáveis em escala nacional, fortalecendo a gestão do setor. “Ao avançarmos na padronização das métricas, criamos uma base sólida não apenas para políticas públicas, mas também para ações de Transferência de Tecnologia junto aos produtores, contribuindo para sistemas mais eficientes e com menor pegada ambiental”, ressalta.
Como etapa final, o projeto prevê a realização de um workshop internacional no Brasil para apresentar, discutir e validar as metodologias propostas antes da submissão ao IPCC. A expectativa é ampliar o consenso científico e político em torno da inclusão da aquicultura nas diretrizes climáticas globais.
Ao preencher uma lacuna histórica na contabilidade de emissões, a iniciativa busca não apenas dar transparência ao impacto ambiental da aquicultura, mas também posicionar o setor de forma mais estratégica nas políticas de mitigação das mudanças climáticas.