Ferrugem do colmo: onde procurar os primeiros sintomas na lavoura de trigo
Inspeção precisa ir além das folhas
Foto: Seane Lennon
Olhar apenas para as folhas superiores do trigo pode não ser suficiente para identificar a ferrugem do colmo em seus estágios iniciais. Causada por Puccinia graminis f. sp. tritici, a doença pode começar em regiões menos visíveis, principalmente nos colmos, bainhas das folhas e partes inferiores do dossel. Quando os sintomas já aparecem claramente a distância, o problema pode estar em estágio mais avançado.
O cuidado ganha importância entre julho e outubro, período em que muitas lavouras de trigo do Sul do Brasil, incluindo Paraná e Rio Grande do Sul, passam por estádios que vão do perfilhamento ao enchimento de grãos. Condições de umidade frequente e temperaturas amenas a moderadas podem favorecer a infecção e a multiplicação das ferrugens.
A ferrugem do colmo é reconhecida principalmente pelas pústulas, estruturas que liberam os esporos do fungo. Elas são alongadas e salientes, com coloração que varia de marrom-avermelhada a marrom-escura.
As lesões aparecem principalmente sobre o colmo e as bainhas das folhas. Com o avanço da doença, também podem atingir folhas, pedúnculo e glumas. As pústulas rompem a superfície do tecido vegetal, expondo uma massa de esporos que se assemelha a um pó ferruginoso.
Inspeção precisa ir além das folhas
Um dos pontos centrais do monitoramento é saber onde procurar os primeiros sinais. Na região mediana e inferior do colmo, pequenas fissuras podem indicar o início da formação das pústulas. Nas fases iniciais, podem existir poucas lesões por planta, o que dificulta a identificação em uma observação superficial.
As bainhas das folhas mais velhas também precisam ser inspecionadas. Remover cuidadosamente algumas delas nas plantas amostradas pode revelar pústulas ainda discretas em regiões internas.
Embora o colmo seja o principal ponto de atenção, folhas intermediárias também podem apresentar sintomas quando a pressão da doença aumenta. O formato mais alongado das pústulas ajuda na diferenciação em relação a outras ferrugens.
Em casos mais avançados, as lesões podem atingir o pedúnculo, região do colmo que fica logo abaixo da espiga, e até as glumas. A identificação precoce é importante para evitar que a doença chegue a esse estágio.
Monitoramento deve ocorrer dentro do talhão
A inspeção da lavoura não deve se limitar à observação feita pelas bordas. O produtor precisa entrar nos talhões e avaliar diferentes pontos.
Bordaduras e cabeceiras, baixadas, locais mais úmidos ou com menor circulação de ar e áreas com histórico de ferrugens merecem atenção especial. Também é importante procurar focos localizados, já que, no início da epidemia, poucas plantas podem apresentar sintomas mais fortes.
Durante a avaliação das plantas, uma prática simples é segurar o colmo e girá-lo lentamente para procurar pequenas pústulas. Algumas bainhas de folhas mais velhas também podem ser retiradas para inspeção da parte interna.
Frequência muda durante o ciclo
A frequência de monitoramento depende do estádio de desenvolvimento do trigo e das condições do tempo. Não existe um intervalo único válido para todas as lavouras.
Do perfilhamento ao alongamento, as inspeções podem ocorrer, em geral, a cada sete dias. A atenção deve ser maior em talhões com histórico da doença e quando as condições climáticas favorecem seu desenvolvimento.
Entre o emborrachamento e o espigamento, o intervalo pode precisar ser reduzido. Em períodos com chuva e temperaturas amenas, podem ser consideradas vistorias a cada quatro ou cinco dias, avaliando diferentes pontos do talhão.
Durante o enchimento de grãos, o acompanhamento deve continuar. Nessa etapa, além dos colmos e bainhas, a vistoria deve incluir o pedúnculo e a região próxima à espiga.
A presença da doença nessa fase pode comprometer o transporte de água e nutrientes e afetar o peso dos grãos.
Clima pode aumentar necessidade de vigilância
Umidade recorrente e temperaturas moderadas estão entre as condições relacionadas ao avanço da ferrugem do colmo. Sequências de dias com molhamento prolongado das plantas, provocado por chuva ou orvalho intenso, representam uma situação em que o monitoramento deve ser intensificado.
A ausência de geadas fortes em determinados estádios e a ocorrência de ferrugem em lavouras vizinhas também justificam maior atenção. O acompanhamento de boletins técnicos e alertas fitossanitários pode ajudar a identificar relatos regionais da doença.
Diferenças ajudam no diagnóstico
A correta identificação é importante para não atrasar o manejo. Na ferrugem do colmo, as pústulas são mais alongadas, rompem a epiderme e se concentram principalmente nos colmos e bainhas.
A ferrugem da folha apresenta pústulas menores, de formato mais circular ou ovalado, principalmente na superfície superior das folhas.
Nas manchas foliares, como mancha amarela e mancha marrom, as lesões são geralmente necróticas e irregulares e não apresentam a liberação de pó de esporos típica das ferrugens. Quando houver dúvida, folhas e colmos com sintomas podem ser encaminhados para diagnóstico especializado.
Decisão deve considerar diferentes fatores
A decisão de manejo precisa considerar a intensidade e a distribuição dos sintomas, o estádio da cultura, as partes da planta afetadas, o histórico de aplicações de fungicidas, a presença de outras doenças e as condições climáticas atuais e previstas.
Entre as situações associadas ao atraso estão realizar a primeira intervenção somente quando grande parte dos colmos e folhas intermediárias já apresenta sintomas e encontrar ferrugem próxima às espigas ou no pedúnculo.
A procura ativa pelas primeiras pústulas em colmos e bainhas é importante para identificar a doença antes que ela avance para estruturas próximas às espigas.
Não há indicação de um nível numérico de doença que determine a aplicação de fungicidas, nem especificação de produtos, doses ou princípios ativos. Caso uma intervenção química seja necessária, o uso deve respeitar a bula dos produtos registrados para trigo, a legislação vigente e a prescrição de profissional habilitado.
Na prática, o monitoramento deve ser direcionado às partes da planta onde a doença pode permanecer pouco visível. Entrar nos talhões, examinar colmos e bainhas e ajustar a frequência das inspeções ao estádio da cultura e ao clima pode ajudar a identificar os primeiros focos antes que a ferrugem avance e aumente o risco de prejuízos ao enchimento dos grãos.