Folhas avermelhadas preocupam cotonicultores
Produtores tem dificuldade na identificação do problema
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Sintoma associado a estresse hídrico, nutricional e problemas radiculares pode comprometer produtividade e qualidade da fibra quando aparece nas fases mais sensíveis do algodoeiro, segundo referências técnicas do setor.
O vermelhão no algodão tem preocupado produtores em diferentes regiões produtoras do país, ao se manifestar como folhas avermelhadas, plantas com menor vigor e lavouras com desenvolvimento desigual entre dezembro de 2025 e novembro de 2026. Segundo publicações técnicas de referência sobre a cultura, o problema não corresponde a uma doença única, mas a um conjunto de sintomas ligado a diferentes tipos de estresse enfrentados pela planta ao longo do ciclo.
Conforme descreve a publicação sobre o agronegócio do algodão no Brasil, organizada por Beltrão e Azevedo, o vermelhão surge quando a planta, sob limitação de água, desequilíbrio nutricional ou dano nas raízes, antecipa o envelhecimento das folhas. Com isso, pigmentos que normalmente ficam mascarados pela clorofila passam a aparecer, dando às folhas a coloração avermelhada ou arroxeada característica do problema. No campo, o produtor costuma identificar esse quadro em faixas ou manchas dentro da lavoura, geralmente concentradas no terço médio e superior das plantas, que também apresentam menor porte, raízes pouco desenvolvidas e maçãs menores que o esperado.
O impacto do vermelhão sobre a produtividade está diretamente relacionado ao momento em que ele aparece na lavoura. Segundo dados da Embrapa Algodão, o problema tende a causar maior prejuízo quando ocorre entre o crescimento vegetativo e o início da frutificação, fase em que o algodoeiro mais depende de folhas saudáveis para sustentar a formação de botões, flores e maçãs. Ao perder área foliar de forma antecipada nesse período, a planta reduz sua capacidade de nutrir os frutos em formação, o que se traduz em menos maçãs por planta, frutos mais leves e um tempo menor de enchimento. Já quando o vermelhão aparece mais perto da colheita, o potencial de recuperação é praticamente nulo, e o desafio passa a ser mais operacional, ligado à uniformidade de maturação e ao momento certo de aplicar desfolhantes.
Um dos pontos mais destacados é a confusão que muitos produtores fazem entre o vermelhão e outros problemas mais simples, como uma deficiência nutricional isolada ou até mesmo a maturação natural da planta. Esse tipo de diagnóstico equivocado tende a atrasar decisões importantes de manejo, já que, segundo a literatura técnica, o vermelhão raramente tem uma causa única. Tratar o sintoma como se fosse apenas falta de um nutriente específico, aplicando adubação foliar sem investigar o que realmente está acontecendo no solo e nas raízes, tende a trazer pouco resultado prático quando a origem do problema está em outro lugar, como compactação do solo ou presença de patógenos radiculares.
Justamente por reunir múltiplas causas possíveis, identificar o que está por trás do vermelhão em cada lavoura costuma ser o maior desafio enfrentado por produtores e técnicos. Conforme descrito em publicações da Abrapa sobre o cultivo de algodão no Cerrado, o mesmo sintoma de folhas avermelhadas pode estar associado a estresse hídrico, solo compactado, desequilíbrio de potássio e magnésio ou problemas causados por nematoides e patógenos de raiz — muitas vezes com mais de um desses fatores atuando ao mesmo tempo na mesma área. Essa sobreposição de causas exige um diagnóstico que vá além da observação da parte aérea da planta, envolvendo análise de solo, avaliação foliar e, quando necessário, inspeção direta do sistema radicular para entender o que efetivamente está limitando o desenvolvimento do algodoeiro.
Com o ciclo do algodão avançando, o planejamento da próxima safra ganha peso justamente porque intervenções corretivas aplicadas tarde no ciclo têm retorno limitado. Diante disso, medidas preventivas tendem a ganhar prioridade, como o uso de plantas de cobertura com raízes mais profundas para melhorar a estrutura do solo, a correção da acidez e do alumínio em profundidade e o cuidado para evitar o tráfego de máquinas sobre solo úmido, que agrava a compactação. A rotação de culturas também aparece como estratégia relevante para reduzir a presença de patógenos e nematoides associados ao problema, assim como o planejamento da adubação com base em análises de solo, garantindo oferta adequada de potássio e magnésio nos momentos em que a planta mais precisa desses nutrientes.
Além do impacto direto sobre a produtividade, o vermelhão também é apontado pela literatura técnica como fator que pode comprometer atributos importantes da fibra do algodão, como comprimento, resistência e uniformidade. Isso acontece porque o estresse que provoca o avermelhamento das folhas também reduz o tempo e a qualidade do enchimento das maçãs, período em que a fibra se desenvolve. Fibras mais curtas, menos resistentes e com maior variação entre si tendem a ser penalizadas nos processos de classificação utilizados pela indústria têxtil, o que pode se refletir em menor competitividade do algodão brasileiro nos próximos ciclos, especialmente em um mercado que valoriza cada vez mais a consistência de qualidade entre fardos. Por isso, segundo as referências consultadas, cuidar do vermelhão não é apenas uma questão de produtividade em toneladas, mas também de preservar o padrão de qualidade que sustenta a posição do país entre os grandes fornecedores de fibra do mundo.