Fósforo no centro do debate: soluções biológicas avançam, mas exigem manejo integrado no campo
Palestra no Summit de Nutrição Vegetal Inteligente detalha mecanismos
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A eficiência no uso do fósforo — um dos principais gargalos da agricultura tropical — será tema central do Summit de Nutrição Vegetal Inteligente, promovido pela Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Abisolo), nos dias 09 e 10 de junho, no Pecege, em Piracicaba (SP).
No dia 09 de junho, às 10h, a pesquisadora da Embrapa, Christiane Abreu de Oliveira Paiva, vai ministrar a palestra “Inoculantes para fósforo: solubilizadores de fosfato e promotores de crescimento vegetal”, com uma abordagem sobre os mecanismos biológicos que podem ampliar a disponibilidade do nutriente no solo.
No Brasil, a baixa eficiência do fósforo está diretamente relacionada às características dos solos tropicais altamente intemperizados. Mesmo após a adubação, grande parte do nutriente é rapidamente fixada pelas argilas, tornando-se indisponível para as plantas.
“Em muitos casos, de 100 kg de fertilizante fosfatado aplicado, apenas cerca de 20% são efetivamente aproveitados pelas plantas”, explica Christiane. “Os microrganismos solubilizadores atuam justamente nesse ponto, tornando esse fósforo mais disponível na região da raiz por meio de mecanismos biológicos”, detalha a pesquisadora.
Durante a apresentação, ela descreverá esses mecanismos — como a produção de ácidos orgânicos e enzimas — além de caracterizar os principais grupos de microrganismos envolvidos, incluindo bactérias e fungos. A palestra também trará os resultados de uma linha de pesquisa conduzida ao longo de cerca de 20 anos, que culminou no desenvolvimento do primeiro inoculante brasileiro para solubilização biológica de fósforo, lançado em 2019. A tecnologia foi validada em diferentes regiões agrícolas do país e apresenta impactos relevantes em produtividade.
“Os ensaios mostram ganhos superiores a 13 sacas por hectare no milho, de quatro a cinco sacas na soja e aumentos acima de 15% na cana-de-açúcar, além de maior eficiência na absorção e acúmulo de fósforo pelas plantas”, afirma a pesquisadora, que inclusive liderou o estudo.
Além do desempenho agronômico, Christiane contextualiza o tema sob a ótica da dependência externa. Atualmente, mais de 80% do fósforo utilizado no Brasil é importado, o que torna o insumo sensível a oscilações geopolíticas e logísticas. Nesse cenário, os inoculantes surgem como uma ferramenta para otimizar o uso do fertilizante aplicado, reduzindo perdas e aumentando a eficiência do sistema produtivo.
Outro ponto abordado será a evolução do mercado, que já conta com mais de uma dezena de soluções biológicas voltadas ao fósforo. Tecnologias desenvolvidas no Brasil também estão conquistando mercado no exterior, com uso em países da Europa, América do Norte, América do Sul e África.
Apesar dos avanços, Christiane reforça que os inoculantes não substituem a adubação convencional de forma isolada. Segundo ela, essas soluções devem ser inseridas em um sistema integrado de manejo. “O desempenho dessas tecnologias depende diretamente de fatores como tipo de solo, cultura, condições ambientais e práticas de manejo. É fundamental adotar boas práticas de inoculação e integrar o uso de biológicos com estratégias como adubação equilibrada, plantio direto e aumento da matéria orgânica do solo”, destaca.
Para Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo, o tema da palestra reflete um dos principais desafios agronômicos do país. “A baixa eficiência do fósforo nos solos tropicais é uma questão estrutural da nossa agricultura. Tecnologias como os inoculantes contribuem para melhorar o aproveitamento desse nutriente. Por isso, é fundamental que essas soluções sejam utilizadas de forma integrada, considerando as características do solo, da cultura e do sistema produtivo”, resume.