CI

Gilberto Cunha explica o El Niño confirmado e os riscos da desinformação climática

Nem toda intensidade forte significa um desastre


Foto: Aline Merladete

Em coluna publicada recentemente, o engenheiro agrônomo Gilberto Cunha analisa a confirmação do fenômeno El Niño para o período 2026-2027 e discute os riscos da desinformação sobre o tema. A seguir, os principais pontos abordados pelo autor.

O fenômeno já está configurado, não é mais previsão

Cunha destaca que a atualização mais recente do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (Climate Prediction Center/NCEP/NOAA), divulgada em 27 de julho de 2026, reitera que o El Niño não é mais uma perspectiva: ele está configurado. Segundo o artigo, as águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial já estão acima da média nas porções central e leste, e as anomalias de circulação atmosférica observadas são consistentes com o padrão do fenômeno.

O autor usa esse dado para rebater um argumento comum entre negacionistas da ciência do clima, que costumavam alegar que o acoplamento oceano-atmosfera — elemento que caracteriza tecnicamente o El Niño-Oscilação Sul (ENOS) — ainda seria uma incógnita.

Intensidade "muito forte" é a mais provável

O artigo cita as projeções do centro americano: 97% de chance de o El Niño permanecer ativo até o outono brasileiro de 2027, e 81% de probabilidade de que, no trimestre de outubro a dezembro, o fenômeno atinja intensidade "muito forte". Cunha traduz esse número de forma didática: a chance de o El Niño ficar abaixo dessa categoria é de apenas uma em cinco.

Nem toda intensidade forte significa desastre certo — mas o histórico preocupa

O autor pondera que a intensidade do El Niño não assegura, por si, que anomalias climáticas extremas vão ocorrer. Ainda assim, ele lembra que, em anos de El Niño forte e muito forte, eventos extremos são historicamente mais frequentes. Como exemplo, cita os El Niños marcantes desde o início dos anos 1970 — 1972/73, 1982/83, 1991/92, 1997/98, 2015/16 e 2023/24 —, dos quais todos, exceto o mais recente, atingiram a categoria "muito forte" e deixaram marcas no Sul do Brasil.

Efeitos esperados no clima do país

Segundo o artigo, o padrão típico do El Niño no Brasil envolve chuvas acima da média no Sul, chuvas abaixo da média no Norte e Nordeste, irregularidades no início e durante a estação chuvosa, e maior frequência de ondas de calor no Centro do país.

Elogio às estruturas de prevenção e crítica às redes sociais

Cunha valoriza as iniciativas públicas em curso nas esferas municipal, estadual e federal, com a criação de Salas de Situação, como sinal de que a sociedade está mais preparada para enfrentar o fenômeno, reconhecendo o papel da Defesa Civil. Ele recomenda o portal do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) como fonte de informação qualificada e elogia a atuação responsável dos serviços privados de meteorologia e dos veículos de comunicação.

Por outro lado, o autor aponta as redes sociais como o principal território onde prosperam o negacionismo e a desinformação sobre o tema.

Uma reflexão sobre incerteza, com ajuda da literatura

Para tratar da relação entre previsão e incerteza, Cunha recorre ao causo "Cabeça de Ovelha", de Luiz Coronel, história do tio Djalma que, mesmo enganado por um pedinte, reage com alívio ao descobrir que a mentira contada não era tão grave quanto parecia. O autor usa a fábula para defender que saber lidar com a incerteza — e não reagir com indignação caso uma previsão não se confirme integralmente — é o que permite colocar em prática planos de gestão de risco.

O artigo termina com uma frase de efeito: "que bom que El Niño não venha dar o ar da sua costumeira graça (espalhando desgraças) em 2026. E, se vier, que estejamos preparados para enfrentá-lo", seguida do alerta final: "devagar com o andor que o santo [...] é de barro".

Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7