João Carlos Marchesan: cinco décadas entre a indústria de máquinas e a transformação do campo
Trajetória que acompanha a evolução do agro
Foto: Divulgação
Mais de cinco décadas entre máquinas agrícolas, entidades industriais e discussões sobre o futuro do campo ajudam a explicar por que João Carlos Marchesan passou a ocupar um espaço que vai além dos limites da indústria de Matão, no interior paulista. Presidente da Agrishow, ex-presidente do Conselho de Administração da ABIMAQ e integrante do Conselho de Administração da Marchesan S.A., o empresário foi incluído entre as lideranças do agronegócio mapeadas pelo estudo nacional Pulso 2026/2027.
O reconhecimento funciona como um retrato do momento atual de uma trajetória iniciada muito antes de temas como agricultura de precisão, inteligência artificial e conectividade entrarem definitivamente no vocabulário do produtor rural. A carreira de Marchesan acompanhou justamente uma das maiores transformações do campo brasileiro: a passagem para uma agricultura cada vez mais mecanizada, produtiva e dependente de tecnologia.
A ligação começa em casa. João Carlos é filho de Luiz Marchesan, um dos fundadores da empresa que deu origem à atual Marchesan. Em 1946, Luiz e o irmão Armando Marchesan, descendentes de imigrantes italianos, iniciaram em Matão a Oficina Brasil. O negócio começou com a fabricação de carroças e charretes e, posteriormente, avançou para implementos agrícolas. Décadas depois, aquela oficina se transformaria em uma fabricante de máquinas e implementos ligada diretamente à expansão da mecanização agrícola brasileira.
Essa transformação empresarial acabaria se confundindo com a própria trajetória profissional de João Carlos. Formado em Administração de Empresas, ele assumiu funções de direção na companhia familiar ainda na década de 1970. Registros de sua trajetória apontam que foi diretor-superintendente da Marchesan Implementos e Máquinas Agrícolas Tatu entre 1972 e 2014 e que, a partir daquele ano, passou a integrar o Conselho de Administração da empresa.
Foram décadas acompanhando as mudanças no perfil do produtor, a expansão de novas fronteiras agrícolas e a evolução das máquinas utilizadas no campo. Em entrevista concedida à própria Agrishow ao relembrar a história da companhia, Marchesan resumiu essa relação em uma frase: “A história da Tatu Marchesan é um reflexo da própria evolução do agronegócio brasileiro.”
A partir dos anos 1980, Marchesan ampliou a participação em entidades ligadas ao setor produtivo. Entre as funções exercidas está a vice-presidência da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da ABIMAQ, atividade iniciada em 1987. Também passou por diferentes posições na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, e no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, o Ciesp.
Na ABIMAQ, uma das principais entidades representativas da indústria brasileira de máquinas e equipamentos, chegou à presidência do Conselho de Administração. Foram seis anos à frente da entidade, de 2016 a 2022, período em que a indústria atravessou mudanças econômicas, uma crise prolongada e, posteriormente, os impactos da pandemia sobre produção, investimentos e cadeias de suprimentos.
Essa experiência também colocou Marchesan em discussões que ultrapassavam os portões das fábricas. Financiamento para aquisição de máquinas, políticas industriais, modernização do parque produtivo, crédito rural, inovação e competitividade passaram a fazer parte de sua atuação como representante do setor.
O material que originou esta reportagem associa justamente sua trajetória à defesa da inovação tecnológica, da competitividade industrial e da modernização da agricultura mecanizada brasileira. Também destaca sua participação ao longo de mais de cinco décadas em debates relacionados a políticas industriais e ao fortalecimento do setor produtivo nacional.
Em 2023, outro capítulo aproximou ainda mais essa trajetória do produtor rural: João Carlos Marchesan assumiu a presidência da Agrishow, em Ribeirão Preto. A feira reúne fabricantes de máquinas, empresas de tecnologia, produtores, entidades representativas e autoridades em torno das principais transformações do agronegócio. Há também uma ligação histórica entre sua família empresarial e o evento. A Marchesan esteve entre as empresas envolvidas na criação da feira e participa da Agrishow desde a primeira edição, realizada em 1994. Mais de três décadas depois, João Carlos chegou à presidência de um evento cuja origem está diretamente ligada ao setor no qual construiu sua carreira.
A dimensão alcançada pela feira ajuda a mostrar como também mudou o ambiente em que Marchesan atua. Na edição de 2025, a Agrishow registrou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios e recebeu 197 mil visitantes. Mais do que uma exposição de equipamentos, tornou-se uma vitrine para tecnologias que vão da mecanização convencional à digitalização das operações agrícolas.
Em 2026, ao abrir a 31ª edição, Marchesan voltou sua mensagem justamente para essa capacidade de adaptação do setor. “A Agrishow é o maior testemunho de resiliência”, afirmou durante a cerimônia. Na mesma ocasião, colocou inteligência artificial, dados, sustentabilidade e eficiência entre os temas que passam a moldar a agricultura contemporânea.
O discurso ajuda a ligar duas pontas de uma mesma história. De um lado está uma empresa que nasceu produzindo implementos simples em uma oficina de Matão. Do outro, uma agricultura que hoje discute inteligência artificial e transformação de dados em decisões cada vez mais precisas. O reconhecimento no estudo Pulso 2026/2027 surge agora como mais um capítulo dessa caminhada. Elaborado pela DECK em parceria com a Nexus, ambas ligadas à FSB Holding, o levantamento analisou mais de 2 mil nomes de 21 setores da economia brasileira. A coleta foi realizada entre março e junho de 2026 e resultou na seleção de 630 nomes, com 30 representantes em cada segmento analisado. A metodologia buscou ir além do número de seguidores nas redes sociais. Autoridade técnica, reputação, afinidade com o setor e capacidade de influenciar debates e decisões entraram na avaliação. Segundo a Nexus, 42% das vozes identificadas no levantamento são executivos da alta liderança, sinalizando o peso crescente da chamada influência institucional.
Na categoria Agronegócio,João Carlos Marchesan está entre os profissionais selecionados e relaciona sua presença no levantamento à atuação em inovação tecnológica, competitividade industrial e agricultura mecanizada. O resultado também devolve parte dessa projeção nacional a Matão. É no município paulista que a Marchesan mantém suas raízes desde 1946 e de onde a empresa acompanhou diferentes fases da agricultura brasileira.
Mas a atuação de Marchesan não ficou limitada à indústria de máquinas. Sua trajetória registra ainda participação em iniciativas locais, especialmente na área da saúde. Na década de 1980, esteve entre os envolvidos na criação do Grupo Empresarial de Matão, movimento formado para apoiar a reforma e ampliação do Hospital Carlos Fernando Malzoni. Posteriormente, passou a presidir o Conselho de Administração da instituição. Em 2022, também foi homenageado como patrono de uma escola do Sesi em Matão.
Sua carreira reúne diferentes papéis: empresário de uma companhia familiar ligada à mecanização do campo, representante da indústria, dirigente de entidades empresariais e, mais recentemente, presidente de uma das principais vitrines de tecnologia agrícola da América Latina.