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Lodo de esgoto pode ser aliado da agricultura

Lodo pode se tornar fertilizante rico em nutrientes para plantações


A crescente demanda da sociedade pela manutenção e melhoria das condições ambientais tem exigido das autoridades e das empresas de diversos setores atividades capazes de compatibilizar o desenvolvimento às limitações da exploração dos recursos naturais.

Dentre os recursos, os hídricos, que até a geração passada eram considerados fartos, tornaram-se limitantes e comprometidos, em virtude da alta poluição em algumas regiões, necessitando, portanto, de rápida recuperação.

Apesar do baixo índice, o tratamento de esgoto de menos de 40% da população urbana brasileira produz, anualmente, mais de 200 mil toneladas de matéria seca de Lodo de Esgoto (LE) (SNIS, 2012), cuja destinação final pode promover sérios impactos ao ambiente. Com o aumento do número de cidades com tratamento adequado de resíduos, existe uma real possibilidade de aumento de produção desse resíduo sólido com potencial poluidor. 

A partir desse quadro, a pesquisadora Dânia Elisa Christofoletti Mazeo Morales, doutora em ciências biológicas pela Unesp, elaborou um projeto para avaliar a eficiência de um processo de baixo custo na descontaminação do lodo de esgoto e, dessa forma, possibilitar o seu uso na agricultura. Segundo ela, o projeto busca propor um destino mais sustentável e ambientalmente correto para o material, e uma alternativa mais viável para o gerenciamento desse resíduo.

Conforme Morales, em alguns países da Europa, nos EUA e Austrália, essa é uma prática comum, que consome de 30 a 50% do total de lodo gerado.

O trabalho de Dânia foi premiado no prestigiado Green Talents - Fórum Internacional para Grandes Talentos em Desenvolvimento Sustentável, realizado na Alemanha, de 28 de outubro a 9 de novembro.

Para ela, o uso em larga escala pelos produtores depende da implantação de sistemas de tratamentos adequados do LE, que permitissem a eliminação das substâncias potencialmente tóxicas e a presença de agentes patogênicos. “Acredito que em um futuro próximo, este material possa constituir um recondicionante de solo de baixo custo e de satisfatória eficácia, a ser oferecido aos produtores como uma alternativa mais sustentável, comparada aos produtos tradicionais”, afirmou.

 Leia a entrevista de Dânia para o portal da Sociedade Rural Brasileira:

- Qual expectativa de tempo para uso em larga escala do lodo na agricultura?

Dânia Morales: O lodo de esgoto (LE), por ser rico em matéria orgânica, é um resíduo com grande potencial para ser utilizado na agricultura. Em alguns países da Europa, nos EUA e Austrália, essa já é uma prática comum, que consome de 30 a 50% do total de lodo gerado.  No entanto, para que o LE possa ser utilizado de forma segura, isto é, sem comprometer a saúde pública e o meio ambiente, ele precisa, além de ser muito bem caracterizado, ser pré-tratado, para que sejam removidas tanto a sua carga tóxica como patogênica. Em nossos estudos, observamos que a utilização do LE in natura recém produzido, pode ser altamente prejudicial aos organismos expostos. Dessa forma, a utilização em larga escala do LE na agricultura pode ser, em curto prazo, uma realidade em nosso país. Porém, para que isso se efetive, seria necessária a implantação de sistemas de tratamentos adequados do LE, que permitissem a eliminação das substâncias potencialmente tóxicas e a presença de agentes patogênicos. Nossos estudos já mostraram que há uma possibilidade de uso do LE como recondicionante de solos, após 6 a 12 meses de atenuação natural de uma mistura de 1:1 de LE bruto e solo, dependendo do tipo de LE utilizado. Nosso próximo investimento será buscar meios para diminuir este tempo de atenuação.

- Como os produtores do Brasil poderão ter acesso ao material para uso nas lavouras?

Dânia Morales: No momento, os produtores ainda não têm acesso a este fertilizante obtido de LE, pois, embora ele tenha sido avaliado quanto à sua isenção de toxicidade, ele ainda deverá ser avaliado quanto ao seu potencial agronômico. Esta avaliação deverá ser realizada por meio de testes de efetividade de produção agrícola. Após este processo, aí sim ele poderá então  ser disponibilizado para a comercialização. No entanto, acredito que em um futuro próximo, este material possa constituir um recondicionante de solo de baixo custo e de satisfatória eficácia, a ser oferecido aos produtores como uma alternativa mais sustentável, comparada aos produtos sintéticos disponíveis no mercado e tradicionalmente utilizados como fertilizantes de solos agricultáveis.

- Há parceiros interessados neste projeto? Empresas?

Dânia Morales:
Este processo foi desenvolvido em parceria com a empresa responsável pelo processo de tratamento de esgoto urbano de uma cidade do interior do estado de São Paulo, com a finalidade de um possível aproveitamento futuro do lodo gerado por esta ETE. No entanto, ainda não temos previsão de quando estaremos comercializando esse produto, uma vez que existe a necessidade de realização dos testes anteriormente citados (testes em campo) e a aprovação de utilização deste material na agricultura pelos órgãos ambientais competentes. Contudo, como o processo de descontaminação desenvolvido nesse estudo apresentou uma alta eficácia e baixos custos, acredito que novos parceiros poderão se interessar pelo projeto e, assim, agilizar o processo de comercialização do LE recondicionado.

- Como governos e entidades da agropecuária podem auxiliar na disseminação do uso?

Dânia Morales:
Em um primeiro momento, essas instituições e agências podem incentivar pesquisas na área para promover um maior desenvolvimento desse setor e possibilitar a reciclagem do lodo de esgoto de forma mais efetiva e rápida. Uma alternativa interessante seria também que os órgãos ambientais e a sociedade civil promovessem e incentivassem discussões sobre o assunto, baseados nos dados científicos até então obtidos que comprovem a eficácia do processo, para favorecer o uso seguro e a aceitação deste material como recondicionante de solos agrícolas, o que, consequentemente, acarretaria em uma ação de responsabilidade ambiental, pois, além de reciclar matéria orgânica disponível e ainda não utilizável, estaria também diminuindo os impactos que este resíduo (LE) promove no ambiente. Na realidade, essas instituições devem atuar conjuntamente para a divulgação de que o lodo de esgoto, após tratamento correto, caracteriza-se em um biossólido eficiente para ser utilizado na agricultura, além de ser uma alternativa de baixo custo e ambientalmente sustentável.
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