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Mato na cana: por que os primeiros meses do canavial definem toda a safra

Período entre a brotação e o fechamento das entrelinhas é o mais sensível


Foto: Canva

Período entre a brotação e o fechamento das entrelinhas é o mais sensível à competição com plantas daninhas, e defendem que decisões de manejo tomadas cedo evitam perdas que só aparecem lá na frente, no corte.

O período de crescimento vegetativo da cana-de-açúcar, que vai da brotação até o fechamento das entrelinhas, é apontado por pesquisadores como a fase mais crítica para o controle de plantas daninhas em regiões canavieiras de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo, entre dezembro de 2025 e dezembro de 2026. É nesse intervalo que a cultura ainda não formou dossel fechado e disputa espaço, água e nutrientes com um número expressivo de espécies invasoras.

Segundo estudo de Victória Filho e colaboradores, publicado na revista científica Planta Daninha, a cana-de-açúcar não tolera bem a presença de altas infestações de mato justamente nesse começo de ciclo, seja após o plantio, seja após o corte na cana-soca. Os pesquisadores descrevem esse intervalo como o período crítico de interferência, uma janela em que a convivência com plantas daninhas pode derrubar a produtividade em dezenas de pontos percentuais e ainda comprometer os cortes seguintes, ao facilitar a instalação de espécies perenes de controle mais difícil.

A identificação das espécies que mais incomodam os canaviais nessa fase segue, em grande parte, a classificação usada por Bianco e Pitelli em obra de referência sobre plantas daninhas em cana-de-açúcar, complementada pelo manual de identificação de Harri Lorenzi. Os grupos mais citados são as gramíneas — caso do capim-amargoso e do capim-massambará, ambos perenes e de multiplicação agressiva por rizomas —, as folhas largas, entre elas as trepadeiras corda-de-viola e Merremia, que se enroscam nos colmos e atrapalham a colheita mecanizada, e a tiririca, uma cipersácea que se reproduz por tubérculos profundos e costuma rebrotar mesmo depois de roçadas ou gradagens superficiais. Cada um desses grupos exige uma lógica diferente de combate, o que torna a etapa de reconhecimento da área o primeiro passo de qualquer estratégia.

É justamente por essa diversidade que não existe fórmula pronta de manejo para todos os talhões, como descreve a obra organizada por Azania e colaboradores sobre manejo de plantas daninhas na cultura da cana, publicada pela ESALQ/USP. Antes de decidir qual produto ou técnica usar, o produtor precisa olhar para o histórico da área — quais espécies predominam, onde estão as reboleiras de perenes e se já houve sinais de falha em safras anteriores — e cruzar essa informação com a situação da própria lavoura, como o estágio de desenvolvimento da cana e o sistema de plantio adotado. As condições de solo e clima completam essa leitura, já que chuva e umidade influenciam diretamente a eficácia dos herbicidas, e o tamanho das plantas daninhas no momento da aplicação pode ser a diferença entre um controle barato e eficiente ou uma intervenção cara e parcial.

O papel dos herbicidas nesse cenário é tratado com detalhe na publicação organizada por Procópio, Silva e Vargas, produzida pela Universidade Federal de Viçosa. A obra alerta que repetir os mesmos produtos, com o mesmo mecanismo de ação, ano após ano, é um dos principais caminhos para o surgimento de plantas daninhas resistentes — um problema que, uma vez instalado, é difícil e caro de reverter. A recomendação dos pesquisadores é alternar os grupos químicos utilizados ao longo dos cortes, associar diferentes estratégias de controle e evitar tratar o herbicida como solução isolada e definitiva, já que nenhuma aplicação sozinha costuma sustentar a lavoura limpa durante todo o crescimento vegetativo.

O regime de chuvas, que costuma se intensificar justamente durante essa fase de crescimento mais acelerado da cana, tem impacto direto sobre esse equilíbrio. A ativação dos herbicidas aplicados no solo depende de umidade para funcionar corretamente, e a resposta das próprias plantas daninhas ao controle químico também varia de acordo com o quanto o solo está hidratado. Isso significa que qualquer mudança nos padrões de precipitação ao longo dos próximos ciclos tende a exigir do produtor mais atenção ao timing das aplicações, com janelas de chuva previstas orientando o planejamento em vez de calendários fixos repetidos de safra para safra.

Olhando para os próximos ciclos, estudos convergem para um ponto: monitoramento frequente e intervenção precoce tendem a custar menos e resolver mais do que ações corretivas tardias, quando as plantas daninhas já estão grandes ou em fase reprodutiva. Reboleiras de espécies perenes, quando identificadas cedo, podem ser tratadas de forma pontual, sem exigir reaplicações extensas na área toda. Da mesma forma, aproveitar os momentos de reforma do canavial para intercalar culturas como soja, amendoim, milho ou crotalárias aparece como estratégia para diversificar o controle e reduzir o banco de sementes de plantas daninhas no solo, diminuindo a pressão de infestação nos ciclos seguintes.

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