O Estado ainda consegue responder às crises atuais?
Um dos principais limites apontados é a restrição fiscal
Um dos principais limites apontados é a restrição fiscal - Foto: Pixabay
A discussão sobre o papel do Estado ganha relevância diante de sociedades mais rápidas, complexas e fragmentadas. O tema envolve a dificuldade crescente das instituições públicas de acompanhar mudanças econômicas, tecnológicas e sociais profundas, em um ambiente marcado por crises simultâneas, aumento de demandas e menor capacidade de coordenação política.
Na avaliação de Antônio Márcio Buainain, membro do Conselho Científico Agro Sustentável, professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do CEA/IE/Unicamp e do INCT/PPED, o Estado contemporâneo foi desenhado para uma realidade mais estável, com fronteiras mais claras entre economia, política e vida social. Esse modelo perdeu aderência diante de transformações aceleradas, redes digitais, envelhecimento populacional, novas formas de trabalho e maior pressão por direitos, proteção e reconhecimento.
Um dos principais limites apontados é a restrição fiscal. O problema, segundo a análise, não se resume ao tamanho da arrecadação ou do déficit público, mas à dificuldade de organizar receitas e gastos de forma coerente com prioridades coletivas. O envelhecimento amplia despesas previdenciárias, de saúde e cuidado, enquanto mudanças tecnológicas pressionam educação e qualificação. Eventos climáticos extremos também exigem mais investimentos em adaptação, infraestrutura e mitigação de riscos.
A restrição política aparece como outro ponto central. Democracias fragmentadas, com partidos e formas tradicionais de mediação social enfraquecidos, enfrentam maior dificuldade para construir consensos duradouros. Nesse contexto, governar passa a significar administrar pressões simultâneas, muitas vezes em meio à polarização e à lógica de enfrentamento permanente.
A análise também destaca a dificuldade do Estado em lidar com problemas que ultrapassam divisões administrativas tradicionais, como mudanças climáticas, inteligência artificial, segurança alimentar, migrações, pandemias e transição energética. Esses temas exigem coordenação entre diferentes níveis de governo, instituições públicas e privadas e conhecimento técnico especializado.
O desafio, portanto, não estaria apenas em discutir mais ou menos Estado, mas em reconstruir capacidades de priorização, coordenação, legitimidade e visão de longo prazo. O futuro das instituições públicas dependerá de sua capacidade de organizar escolhas coletivas em sociedades marcadas por urgência permanente e perda de referências compartilhadas. As informações são de Antônio Márcio Buainain, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).