O que acontece no solo pode mudar a agricultura
Solos cultivados têm, em média, 47% menos hifas do que áreas não cultivadas
Solos cultivados têm, em média, 47% menos hifas do que áreas não cultivadas - Foto: Pixabay
Uma rede subterrânea de fungos sustenta a vegetação terrestre e atua na nutrição das plantas e no armazenamento de carbono. Segundo Leandro Simões Azevedo Gonçalves, professor da Universidade Estadual de Londrina, cerca de 70% das plantas terrestres vivem em parceria com fungos micorrízicos arbusculares, ligados às raízes por hifas que ampliam o sistema radicular.
Em troca de açúcares e lipídios da fotossíntese, esses fungos fornecem água e nutrientes, respondendo por até 80% do fósforo e 20% do nitrogênio absorvidos. Estudo publicado na Science por Stewart et al. (2026), com dados de 322 trabalhos e mais de 16 mil amostras, usou machine learning para estimar a dimensão global dessa malha.
A pesquisa calculou 110 quatrilhões de quilômetros de hifas vivas nos primeiros 15 centímetros do solo, quase 50 vezes o comprimento das raízes finas. Mesmo microscópicas, elas reúnem cerca de 300 megatoneladas de carbono, de quatro a seis vezes a biomassa de toda a humanidade. As pastagens concentram 40% desse total.
A densidade varia conforme a planta hospedeira e o gênero do fungo. Gramíneas silvestres sustentam redes mais densas, enquanto árvores cultivadas aparecem no extremo oposto. Em vasos, o gênero mais produtivo gerou quase o dobro de hifas do menos produtivo.
Solos cultivados têm, em média, 47% menos hifas do que áreas não cultivadas. O excesso de fósforo e nitrogênio reduz o envio de carbono da planta ao fungo, e fungicidas também afetam a rede. As maiores perdas aparecem em regiões secas e florestas tropicais. A renovação das hifas transforma fungos mortos em matéria orgânica capaz de permanecer no solo por milhares de anos. Faltam dados de solos profundos, regiões pouco amostradas e da velocidade desse processo, lacunas para proteger essa infraestrutura invisível.