Peso de carcaça gera conflito entre criadores e frigoríficos
Relação comercial entre as duas partes sempre foi complicada; erros no peso nos EUA abrem discussão no Brasil
A relação comercial entre criadores de gado e frigoríficos sempre foi complicada. De um lado os produtores afirmam que são ludibriados no peso das carcaças; já a indústria nega os rumores. Um caso registrado no início deste mês nos Estados Unidos praticamente não causou repercussões no Brasil. A JBS-Swift, empresa do grupo brasileiro JBS-Friboi, foi acusada pela Administração de Inspeção de Grãos, Frigoríficos e Currais (Grain Inspection, PackersStockyards), órgão ligado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), de registrar pesos errados das carcaças e pagar os criadores de acordo com esses pesos.
No Paraná, a Federação da Agricultura (Faep) lançou o programa ""Pese Bem"" em setembro do ano passado para tentar acabar com o problema. Na ocasião, foram instaladas três balanças nos próprios frigoríficos para pesagem do gado: em Paiçandu, Nova Londrina e Umuarama. No entanto, duas já foram desativadas por falta de interesse do próprio criador, restando apenas o equipamento de Umuarama. O programa monitora a pesagem dos animais em paralelo a do frigorífico com uma balança instalada antes do equipamento industrial. Os criadores tinham que arcar com um custo de R$ 1 por animal pesado, empregado na manutenção do próprio equipamento e dos custos com funcionários.
Segundo Fabrício Amorim Monteiro, médico veterinário do Departamento Técnico e Econômico da Faep, a iniciativa do programa foi por sugestão do Frigorífico Mercosul (que tem sede no Rio Grande do Sul) e da Comissão Técnica de Corte da Faep. ""O Pese Bem foi idealizado para ser um canal de comunicação entre a comunidade pecuária e os frigoríficos. As diferenças de peso (apuradas entre os criadores e as indústrias) ocorrem, há registros e são grandes. Tentamos amenizar esta relação e torná-la mais amigável"", comenta. No entanto, ele afirma que deve haver mais comprometimento dos produtores de gado que se inscreveram no programa e logo depois abandonaram porque foram poucas as diferenças apuradas entre as balanças.
Já o presidente do Sindicato da Indústria da Carne (Sindicarnes-PR), Péricles Salazar, afirma que ""de vez em quando aparece uma ou outra reclamação"" e as queixas são recíprocas: vêm de criadores e dos frigoríficos. ""Não tenho conhecimento de que nos últimos anos tenha ocorrido alguma situação grave"", salienta. Segundo ele, a indústria tem atuação transparente, com a permissão, inclusive, do acompanhamento dos criadores na pesagem e no abate. ""A relação entre criadores e frigoríficos sempre foi complicada e há muitos boatos. Todos pertencem à mesma cadeia produtiva e acredito que os dois lados não devam ter interesse em enganar um ou outro"", observa.
O presidente da Associação Nacional de Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), André Carioba, afirma que a diferença de pesagem pode ocorrer e, por isso, a sugestão é que os produtores negociem o peso vivo com rendimento pré-estabelecido da carcaça. ""A diferença de peso pode nem ser culpa dos frigoríficos, mas até de algum funcionário"", diz. O diretor de Pecuária da Sociedade Rural do Paraná, Moacir Sgarioni, afirma que tem 15 anos de experiência no ramo e que administra o abate de 8 mil a 10 mil cabeças por ano. ""Neste período todo a diferença de peso entre a propriedade e o frigorífico não chegou a 0,5%"", observa. Tanto que ele diz que nunca foi preciso acompanhar a pesagem e o abate dos animais.
Ele acrescenta que há uma tabela de rendimento por quilo da carcaça e que é preciso fazer ajustes. ""Se o frigorífico tenta sonegar peso perde o cliente. Na prática há o prestígio do vendedor com o frigorífico e, este, não quer perder o bom fornecedor. Se o criador oferecer qualidade e tiver conhecimento não será enganado"", comenta. O rendimento da carcaça varia conforme a idade do animal, o tipo de produto e o acabamento. De acordo com ele, alguns frigoríficos prezam pela qualidade, tanto que já há a idéia da classificação da carcaça e do pagamento de um prêmio pela qualidade. ""Desta forma, há o incentivo para melhoria da genética, do manejo e da alimentação dos animais"", afirma.
A reportagem procurou o grupo JBS-Friboi para comentar o assunto, mas a assessoria de imprensa não retornou até o fechamento desta edição.