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Plano Safra 2026/2027: o que o agro exige do governo para não travar a produção

"Plano Safra atual não cobre nem um quarto do que promete", diz Tereza Cristina


Foto: Divulgação

O agronegócio brasileiro chega ao segundo semestre de 2026 carregando um peso: inadimplência rural no nível mais alto já registrado e um passivo que supera R$ 800 bilhões. Diante desse cenário, produtores e entidades do setor cobram do governo Lula uma reformulação  no Plano Safra 2026/2027, cuja divulgação está prevista para junho. Sem mudanças estruturais no financiamento agrícola, a produção nacional pode encolher.

O dinheiro anunciado não chega ao campo

Os números do ciclo anterior expõem a fragilidade do modelo atual. No Plano Safra 2025/2026, o governo federal prometeu R$ 516,2 bilhões para a agropecuária. Na prática, o Tesouro Nacional conseguiu bancar a equalização de juros — mecanismo que cobre a diferença entre a taxa de mercado e a taxa subsidiada paga pelo produtor — em apenas R$ 113,8 bilhões do total. Ou seja, mais de três quartos dos recursos anunciados ficaram no papel. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura e Pecuária, foi direta ao avaliar o quadro: o Plano Safra, na sua concepção atual, não tem mais capacidade de responder às demandas de uma agricultura do tamanho da brasileira.

A "tempestade perfeita" que sufoca o produtor rural

A senadora elencou três fatores que se combinam para agravar a crise no campo: problemas climáticos, restrição de crédito e queda nos preços agrícolas. Somam-se a isso conflitos internacionais que perturbaram o fornecimento de fertilizantes, defensivos e a logística global, elevando os custos de produção.

A valorização do real frente ao dólar e os juros elevados no Brasil completam o quadro adverso — com taxas entre 18% e 22% no mercado financeiro privado. "Pegar dinheiro nessas condições é uma insanidade", declarou Tereza Cristina. Segundo ela, muitos agricultores já não conseguem honrar seus compromissos financeiros diante da combinação de custos elevados, preços achatados e perdas climáticas registradas em diferentes estados produtores.

O endividamento do setor já alcança cerca de R$ 170 bilhões, sendo que apenas um terço está concentrado nos bancos. O restante envolve fornecedores, revendas e operações privadas que não foram renegociadas, mesmo após medidas provisórias voltadas ao alongamento das dívidas. Um outro entrave apontado pela senadora é a dificuldade na apresentação de garantias para novas operações de crédito. Muitos produtores já não possuem patrimônio disponível para oferecer aos bancos, especialmente diante dos riscos crescentes da atividade agrícola. Para Tereza Cristina, esse se tornou um dos principais gargalos do setor neste momento.

CNA apresenta 10 propostas para o próximo Plano Safra

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estruturou um conjunto de dez propostas para o Plano Safra 2026/2027. A entidade critica o modelo atual, em que os planos são apresentados como compromissos para todo o ciclo da safra, mas executados com lógica anual, fragmentada e sujeita a contingenciamentos ao longo do período produtivo. Para a CNA, o novo modelo deve ser orientado por previsibilidade, plurianualidade e continuidade de execução.

As propostas entregues ao governo são:

1. Novo modelo plurianual — Construção de um Plano Agrícola e Pecuário Plurianual, com direcionamentos para programas prioritários, garantindo previsibilidade e continuidade de execução.
2. Seguro rural robusto — Garantir R$ 4 bilhões no orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e aprovar o PL nº 2.951/2024, que prevê a modernização do seguro rural.
3. R$ 623 bilhões efetivos — Assegurar esse montante no Plano Agrícola e Pecuário 2026/2027, sendo R$ 104,9 bilhões para a agricultura familiar e R$ 518,2 bilhões para a agricultura empresarial, com recursos exclusivos do crédito rural tradicional.
4. Saúde financeira do produtor — Promover medidas de apoio ao produtor endividado e apoiar a aprovação do PL nº 5.122/2023, que trata da reestruturação das dívidas rurais.
5. Atualização dos limites de enquadramento — Ampliar os limites de Renda Bruta Agropecuária (RBA) para enquadramento no Pronaf, no Pronamp e nas demais categorias de produtores.
6. Lei do Agro 3 — Apoiar e assegurar a aprovação da proposta que moderniza os instrumentos de crédito e financiamento para o setor agropecuário.
7. Menos burocracia no crédito rural — Promover ajustes no ambiente de negócios, reduzindo burocracias, eliminando extrapolações infralegais e fortalecendo o combate à venda casada.
8. Prioridade aos programas de investimento — Nos programas de investimento agropecuário, priorizar o RenovAgro, o PCA e o Proirriga.
9. Fundos garantidores — Ampliar os fundos garantidores para operações de custeio e investimento agropecuário, reduzindo o gargalo das garantias exigidas pelos bancos.
10. Financiamento privado — Ampliar os mecanismos de financiamento do agro no mercado de capitais, corrigindo uma distorção histórica: o setor representa quase um quarto do PIB nacional, mas ocupa apenas 3% do mercado de capitais brasileiro.

 

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