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Por que as recuperações judiciais dispararam no agro?

Produção recorde não evita crise financeira no agro


Foto: Divulgação

O número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro atingiu o maior patamar da série histórica da Serasa Experian em 2025, mesmo diante da perspectiva de uma safra recorde de grãos. Foram registrados 1.990 pedidos ao longo do ano, alta de 56,4% em relação aos 1.272 processos contabilizados em 2024. O volume também representa quase quatro vezes o registrado em 2023, quando houve 534 solicitações.

O cenário evidencia o contraste entre o desempenho da produção agrícola e a situação financeira de parte do setor. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento estima que a safra brasileira de grãos 2025/26 alcance cerca de 360 milhões de toneladas, muitos produtores enfrentam dificuldades para converter produtividade em rentabilidade. Custos elevados, juros altos, crédito mais restrito e oscilações nas cotações das commodities vêm reduzindo as margens e ampliando o endividamento.

Até julho de 2026, os números consolidados das recuperações judiciais referentes ao primeiro semestre ainda não haviam sido divulgados. Mesmo assim, especialistas avaliam que o ambiente financeiro permanece desafiador, sem sinais de mudança estrutural no curto prazo.

Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a principal dificuldade enfrentada atualmente está na estrutura financeira das propriedades e empresas do setor. "O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, juros elevados e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida", afirma.

Segundo Barroso, a manutenção da taxa básica de juros em níveis elevados alterou o funcionamento do financiamento rural. O aumento do custo do crédito e a maior exigência de garantias por parte das instituições financeiras reduziram o acesso a novos recursos e dificultaram a manutenção do capital de giro.

"O custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando. Com crédito mais caro e mais seletivo, muitos passaram a enfrentar dificuldades para manter o capital de giro e financiar novas safras", afirma o especialista.

Na avaliação do advogado, os efeitos da restrição ao crédito se estendem para além das propriedades rurais e alcançam diversos segmentos ligados ao agronegócio. "Quando o crédito desacelera no agronegócio, toda a cadeia produtiva sente os impactos. Cooperativas, distribuidores de insumos, tradings, transportadoras, fabricantes de máquinas e até instituições financeiras regionais acabam sendo afetados pela redução da circulação de recursos."

Os indicadores de inadimplência também mostram esse cenário. Conforme levantamento da Serasa Experian, 8,2% dos produtores rurais apresentavam atrasos superiores a 180 dias em seus compromissos financeiros, indicando que a pressão sobre o caixa permanece elevada.

Embora o agronegócio siga entre os principais setores da economia brasileira, especialistas alertam que o bom desempenho produtivo já não garante equilíbrio financeiro diante do atual cenário de crédito.

"A competitividade do produtor brasileiro continua elevada sob o ponto de vista produtivo. O problema é que eficiência operacional não garante sustentabilidade financeira quando o custo do capital cresce de forma significativa. Hoje muitos produtores conseguem colher boas safras, mas encontram dificuldades para preservar margem e gerar caixa", afirma Denis Barroso.

Segundo ele, parte das dificuldades atuais decorre do ciclo de expansão do crédito observado nos últimos anos. "Houve um período em que o financiamento era mais abundante e diversas decisões de investimento foram tomadas considerando condições que mudaram completamente. Com juros mais elevados, redução da liquidez e maior cautela das instituições financeiras, muitos produtores passaram a carregar uma estrutura de endividamento incompatível com a geração atual de caixa."

O especialista afirma que o comportamento das instituições financeiras também mudou diante desse contexto. "Os bancos estão mais criteriosos na análise de risco. Além de reduzir a oferta de crédito em algumas modalidades, passaram a exigir garantias mais robustas e cobrar custos maiores nas operações. Isso limita novos investimentos e dificulta a renovação do capital de giro das empresas", complementa.

Na prática, segundo Barroso, a redução da oferta de crédito afeta diversos segmentos ligados ao setor. "Quando o crédito diminui, os investimentos são adiados. Isso reduz a compra de máquinas, equipamentos, insumos e serviços, afetando fornecedores e toda a cadeia produtiva."

Especialistas atribuem o crescimento das recuperações judiciais à combinação de juros elevados, aumento dos custos de produção, maior volatilidade dos preços das commodities, menor liquidez no crédito rural, maior rigor na concessão de financiamentos e elevado nível de endividamento acumulado nos últimos anos. Esse conjunto de fatores tem levado empresas produtivas a enfrentar dificuldades para manter o fluxo de caixa, mesmo registrando bom desempenho operacional.

O movimento também se estende aos demais setores da economia. Conforme a Serasa Experian, 2.273 empresas de diferentes segmentos recorreram à recuperação judicial em 2025, o maior número da série histórica, em um ambiente marcado pelo crédito mais caro, desaceleração econômica e maior seletividade das instituições financeiras.

Para Denis Barroso, esse crescimento reflete um cenário macroeconômico que vai além do agronegócio. "Estamos diante de um cenário em que praticamente todos os segmentos convivem com crédito mais caro, maior seletividade dos bancos e custos financeiros elevados. O agronegócio chama atenção pelos números, mas essa pressão está presente em praticamente toda a economia."

O advogado ressalta que a recuperação judicial não deve ser encarada como a primeira alternativa diante das dificuldades financeiras. "A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, ela tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente."

Segundo Barroso, muitas empresas adiam decisões importantes até que a situação financeira se torne mais delicada. "O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial."

Antes de qualquer medida, acrescenta o especialista, é necessário compreender a real situação financeira da empresa. "Antes de qualquer decisão, é preciso compreender o nível de endividamento, a capacidade real de geração de caixa e quais passivos efetivamente comprometem a continuidade do negócio. Sem esse diagnóstico, qualquer medida acaba sendo tomada por tentativa e erro."

Para Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial e especialista em reestruturação de empresas, o momento exige uma nova forma de administrar capital e endividamento.

"O ambiente econômico ficou muito mais exigente. Empresas que antes conseguiam administrar passivos apenas renovando operações de crédito hoje precisam trabalhar com planejamento financeiro permanente, gestão de caixa e avaliação constante da estrutura de capital."

Segundo Benito Pedro, a recuperação judicial deve ser considerada somente após a análise de outras alternativas. "Antes de recorrer ao Judiciário, é fundamental avaliar alternativas como renegociação com credores, reestruturação operacional, revisão de custos, venda de ativos e até a entrada de novos investidores. A recuperação judicial pode ser necessária em alguns casos, mas deve fazer parte de uma estratégia estruturada e não representar a primeira reação diante das dificuldades."

O especialista destaca que a gestão financeira precisa assumir papel estratégico nas empresas. "Hoje o empresário precisa acompanhar indicadores financeiros com a mesma atenção dedicada à produção e às vendas. O desafio deixou de ser apenas crescer; passou a ser crescer de forma sustentável, preservando liquidez e capacidade de investimento."

Mesmo com perspectivas favoráveis para a produção agrícola, especialistas avaliam que o restante de 2026 continuará exigindo cautela dos produtores e empresas do setor. A evolução das taxas de juros, o comportamento das commodities e a oferta de crédito serão fatores decisivos para a retomada da capacidade de investimento.

Enquanto esse cenário permanece, planejamento financeiro, gestão de riscos e reestruturação preventiva ganham importância para evitar que dificuldades temporárias avancem para situações de insolvência.

"O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. O desafio, agora, é fortalecer também a estrutura financeira das empresas. Quem conseguir antecipar riscos, reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar esse período de maior pressão", conclui Denis Barroso.

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