Por que o Sul do Brasil vive temporada histórica de tornados em 2026
Brasil já contabilizou 81 tornados até o final de julho de 2026
Foto: Sheila Flores
O Brasil já contabilizou 81 tornados até o final de julho de 2026, número que se aproxima do recorde de 92 casos registrado em 2025. De acordo com dados levantados através da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots), a Região Sul, que historicamente responde por cerca de 70% dos tornados do país, concentrou a maior parte dos episódios recentes, entre eles em Giruá (RS) no fim de julho. Por trás do fenômeno está a combinação entre a geografia do Sul do Brasil e um El Niño forte que, segundo boletim do NOAA/CPC de agosto de 2026, deve atingir seu pico entre outubro e dezembro deste ano.
A sequência de temporais severos no Rio Grande do Sul, com episódios de chuva intensa, vendavais, tornados e atuação frequente de ciclones e frentes frias, tem uma explicação que começa pela própria localização do estado. Segundo Gabriel Rodrigues, meteorologista do Portal Agrolink, o território gaúcho está inserido em um dos corredores de tempestades mais ativos do planeta, onde diferentes componentes da atmosfera se encontram com uma frequência rara em outras regiões do mundo.
Essa faixa de maior atividade se estende desde o norte da Argentina e do Paraguai até o oeste do Rio Grande do Sul. De acordo com Rodrigues, dados de satélite mostram que algumas das tempestades mais profundas e vigorosas da Terra se desenvolvem justamente nessa região da América do Sul e no centro dos Estados Unidos. Não há, portanto, um único responsável pelos eventos que atingem o estado. A intensidade das tempestades resulta da combinação entre elevada disponibilidade de umidade, influência dos Andes, ventos fortes em diferentes níveis da atmosfera e a passagem constante de frentes frias e ciclones.
Um dos principais componentes é uma corrente de ar quente e úmido proveniente da Amazônia. Esse fluxo se desloca em baixos níveis da atmosfera, próximo aos Andes, e transporta grande quantidade de umidade em direção ao Sul do Brasil. Rodrigues explica que essa corrente costuma se intensificar durante a noite. A característica ajuda a entender por que tantos temporais de grande intensidade avançam sobre o Rio Grande do Sul durante a madrugada.
Os Andes exercem outro papel importante na formação dessas tempestades. O ar que atravessa a cordilheira pode descer mais seco e quente do lado leste e formar uma espécie de barreira sobre a camada de ar quente e úmido próxima à superfície. Com isso, a energia atmosférica pode permanecer acumulada durante horas. Quando uma frente fria ou outro sistema consegue romper essa condição, a energia é liberada rapidamente e favorece o desenvolvimento de tempestades intensas.
Um outro ponto destacado pelo meteorologista é o comportamento dos ventos em diferentes níveis da atmosfera. Quando a velocidade e a direção do vento mudam significativamente com a altitude, fenômeno conhecido como cisalhamento, as tempestades encontram condições para se organizar e durar mais. Em vez de uma célula de chuva se formar e desaparecer em poucos minutos, ela pode evoluir para estruturas mais organizadas, como supercélulas e linhas de instabilidade. São sistemas capazes de produzir chuva intensa, granizo, rajadas fortes de vento e, em determinadas situações, tornados.
A passagem frequente de frentes frias e ciclones completa essa combinação. Esses sistemas funcionam como o gatilho necessário para aproveitar toda a energia e umidade disponíveis na atmosfera.
A própria trajetória das tempestades ajuda a explicar a recorrência dos episódios no estado. Segundo Rodrigues, grandes complexos de tempestades podem começar a se organizar durante a tarde sobre o Paraguai e o norte da Argentina. Depois, avançam em direção ao Rio Grande do Sul e muitas vezes chegam ao território gaúcho durante a madrugada já em estágio maduro.
Quando isso acontece, grandes volumes de chuva podem cair em intervalos curtos. Em algumas situações, diferentes sistemas atingem repetidamente uma mesma região ou bacia hidrográfica, aumentando o risco de alagamentos, enxurradas e cheias.
A sequência recente de eventos, entretanto, exige uma diferenciação importante. Rodrigues afirma que as evidências de aumento não são iguais para todos os tipos de fenômeno meteorológico.
No caso da chuva extrema, existe um sinal mais consistente. Segundo o meteorologista, séries entre 1981 e 2018 para a bacia do Prata mostram aumento no volume de precipitação nos dias chuvosos e também no número de dias com chuva forte, principalmente durante a primavera. Ele destaca que o IPCC trata essa tendência com alta confiança.
A mesma conclusão não pode ser automaticamente aplicada a granizo, vendavais e tornados. Rodrigues cita um levantamento de registros oficiais dos três estados do Sul entre 1991 e 2021 que contabilizou 1.934 ocorrências de granizo destrutivo, com média de 62 casos por ano e pico em 1998, mas sem uma tendência clara de aumento ao longo do período.
No caso dos tornados, existe ainda um problema de comparação histórica. A quantidade de registros aumentou à medida que novas ferramentas permitiram identificar fenômenos que antes provavelmente passariam despercebidos.
Rodrigues cita um estudo que combinou imagens de satélite de alta resolução, vídeos, notícias e publicações em redes sociais e identificou 310 ocorrências de tornado somente no Sul do Brasil, número muito superior ao registrado por bancos de dados anteriores. Isso não significa necessariamente que a quantidade de tornados tenha se multiplicado na mesma proporção. Parte da diferença está na capacidade atual de observar e documentar os eventos.
Um tornado ocorrido à noite sobre uma área de lavoura em 1985, exemplifica Rodrigues, poderia não entrar em nenhuma estatística. Atualmente, celulares, câmeras, redes sociais, radares e imagens de satélite tornam muito maior a possibilidade de identificação.
Os dados analisados pelo meteorologista também ajudam a derrubar uma percepção comum sobre a distribuição desses fenômenos. Segundo ele, a região de maior frequência de tornados está concentrada no norte do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. O período de maior ocorrência também chama atenção. O pico aparece no inverno, e não no verão. Rodrigues explica que os tornados da Região Sul dependem fortemente do cisalhamento do vento associado às frentes frias e aos ciclones, e não simplesmente de temperaturas elevadas.
Ao mesmo tempo, existem sinais que merecem acompanhamento. Uma climatologia baseada em dados de reanálise entre 1980 e 2021 encontrou redução anual de ambientes favoráveis a tempestades severas em partes da Argentina e do Brasil central, mas identificou aumento significativo durante a primavera na região da tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai.
Esse crescimento foi impulsionado principalmente pelo fortalecimento do cisalhamento dos ventos. É justamente nessa região que se formam muitos dos sistemas que posteriormente avançam em direção ao oeste do Rio Grande do Sul. As mudanças climáticas também entram nessa equação, principalmente quando o assunto é chuva. Rodrigues explica que uma atmosfera mais quente consegue armazenar aproximadamente 7% mais vapor de água a cada grau de aquecimento.
Isso significa que não é necessário haver mais tempestades para que os impactos da chuva aumentem. Um sistema semelhante aos que já ocorriam anteriormente pode encontrar mais umidade disponível e, consequentemente, produzir volumes maiores de precipitação. As simulações citadas pelo meteorologista apontam justamente para essa possibilidade, com chuva mais concentrada em cada sistema sem que necessariamente haja aumento proporcional da quantidade de tempestades.
Rodrigues lembra ainda que o estudo de atribuição realizado após a enchente de maio de 2024 concluiu que o aquecimento de 1,2 °C tornou uma chuva daquela magnitude aproximadamente duas vezes mais provável. A consequência é uma mudança na própria referência utilizada para avaliar eventos extremos. Uma chuva considerada de ocorrência muito rara pode continuar sendo excepcional, mas passar a acontecer em intervalos menores do que aqueles utilizados historicamente no planejamento.
No meio rural, esse cenário tem impacto, sistemas de drenagem e obras dimensionadas para as condições climáticas do passado podem enfrentar eventos superiores à capacidade prevista. As janelas para plantio, colheita e secagem também podem ficar mais apertadas, enquanto a proteção contra granizo e vendavais ganha importância crescente na gestão da atividade.
Outro elemento que deve influenciar os próximos meses é o El Niño. Segundo Rodrigues, o fenômeno fortalece o jato subtropical e favorece o transporte de umidade para a Região Sul, aumentando principalmente o risco associado ao excesso de chuva. O meteorologista cita um estudo com 45 anos de dados de vazão que apontou aumento superior a 120% na probabilidade de cheias na bacia do Prata durante episódios de El Niño. Na enchente de 2024, segundo ele, estimou-se que o fenômeno tenha dobrado a chance de ocorrência daquele evento.
Isso não permite concluir, porém, que o El Niño provoque automaticamente mais tornados, granizadas ou vendavais. Rodrigues afirma que não está comprovado que o fenômeno aumente a quantidade desses eventos. Existem indícios de que as tempestades possam ficar mais vigorosas quando se desenvolvem, mas não de que passem necessariamente a ocorrer em número muito maior.
Ainda assim é preciso considerar que nenhum El Niño é exatamente igual ao outro. Quando o aquecimento do Oceano Pacífico se concentra mais na região central, por exemplo, o sinal de aumento de chuva sobre o Rio Grande do Sul pode enfraquecer ou até apresentar comportamento diferente. A enchente de 2024 também mostrou que o El Niño não age sozinho. Naquele episódio, Rodrigues destaca a atuação de um bloqueio atmosférico que manteve as frentes praticamente estacionadas sobre o Rio Grande do Sul durante vários dias, contribuindo decisivamente para os acumulados excepcionais de precipitação.
Para a próxima safra, o meteorologista orienta atenção especial ao excesso de umidade. O boletim do NOAA/CPC de agosto de 2026 citado por Rodrigues mostra um El Niño estabelecido e em fortalecimento, com expectativa de pico entre outubro e dezembro. Nesse período, segundo os dados apresentados pelo meteorologista, a probabilidade de o fenômeno permanecer na categoria de El Niño muito forte fica em torno de 95%. A partir de janeiro, a tendência é de perda gradual de intensidade.
O cenário coloca a safra de verão dentro do período mais ativo do fenômeno. Para o produtor, o risco tende a se deslocar do déficit de chuva para problemas relacionados ao excesso hídrico, como encharcamento do solo, redução das janelas disponíveis para plantio e dificuldade de entrada de máquinas nas lavouras. No trigo, Rodrigues aponta uma situação particularmente delicada. O período de maior precipitação pode coincidir com enchimento de grãos e colheita. O excesso de água nessa fase pode reduzir o peso hectolítrico e o número de queda, favorecer a ocorrência de giberela e provocar germinação dos grãos ainda na espiga.
O resultado pode ser uma perda rápida de qualidade, inclusive em lavouras que apresentavam bom aspecto poucos dias antes, com risco de desclassificação de um produto inicialmente destinado à panificação. Apesar do cenário de atenção, Rodrigues reforça que não existe um cronograma fechado para o comportamento do El Niño. As probabilidades são revistas mensalmente, e um evento classificado como mais forte não significa impactos proporcionalmente maiores em todos os locais.
Para o Rio Grande do Sul, o sinal mais consistente associado ao El Niño continua sendo o aumento da chuva. Ondas de calor extremo, por outro lado, estão mais relacionadas à ocorrência de bloqueios atmosféricos, que podem aparecer independentemente da fase do fenômeno.
A combinação ajuda a entender por que o estado permanece tão exposto às tempestades. O Rio Grande do Sul ocupa uma posição geográfica onde umidade amazônica, influência dos Andes, fortes diferenças de vento na atmosfera e sucessivas frentes e ciclones se encontram repetidamente. Quando esses fatores atuam ao mesmo tempo, o resultado pode ser um ambiente altamente favorável à formação de temporais severos.
Para o produtor rural, Rodrigues destaca a necessidade de interpretar previsões sazonais como ferramenta de planejamento, e não como indicação exata de quando ocorrerá um temporal. Em primaveras de El Niño, a recomendação é aumentar a margem de segurança nas janelas de plantio e colheita, revisar seguros e avaliar as condições de drenagem antes do período mais crítico.
Veja a entrevista na íntegra
Portal Agrolink: O que explica a sequência de tornados, ciclones e chuvas intensas no Rio Grande do Sul?
Gabriel Rodrigues: Geografia. O Rio Grande do Sul está dentro de um dos corredores de tempestades mais ativos do planeta, uma faixa que se estende do norte da Argentina e do Paraguai até o oeste gaúcho. Dados de satélite mostram que algumas das tempestades mais profundas e vigorosas da Terra acontecem nessa região e no centro dos Estados Unidos.
Quatro ingredientes se encontram na região com uma frequência rara no mundo:
Uma esteira de umidade amazônica. Um rio de ar quente e úmido corre em baixa altitude, junto aos Andes, e desce até o Sul do Brasil. Esse fluxo costuma ganhar força à noite, o que ajuda a explicar tantos temporais durante a madrugada.
Os Andes. O ar que cruza a cordilheira desce seco e quente e forma uma espécie de tampa sobre o ar úmido. A energia se acumula ao longo do dia e é liberada de uma vez quando uma frente rompe essa tampa.
Ventos fortes em altitude, com mudança de direção conforme a altura. É isso que faz a tempestade girar e se organizar como uma supercélula ou uma linha de instabilidade, em vez de perder força em cerca de vinte minutos.
A passagem constante de frentes frias e ciclones, que fornece o gatilho necessário para a formação desses sistemas.
Os grandes complexos de tempestades nascem durante a tarde no Paraguai e no norte da Argentina e chegam ao Rio Grande do Sul de madrugada, já maduros. Chove muito em pouco tempo e, muitas vezes, sobre a mesma bacia.
Portal Agrolink: Esses eventos estão mesmo aumentando?
Gabriel Rodrigues: Depende do tipo de evento, e essa distinção é essencial.
Para chuva extrema, sim. Séries de 1981 a 2018 na bacia do Prata mostram aumento no volume de precipitação nos dias chuvosos e no número de dias com chuva forte, principalmente na primavera. O IPCC trata essa tendência com alta confiança.
Para granizo, vento e tornado, não é possível afirmar. Um levantamento de registros oficiais nos três estados do Sul, entre 1991 e 2021, contabilizou 1.934 casos de granizo destrutivo, uma média de 62 por ano, com pico em 1998, e não encontrou uma tendência clara de aumento.
Existe um viés estatístico relevante, e há uma demonstração concreta disso. Um levantamento recente cruzou imagens de satélite de alta resolução, vídeos, registros da imprensa e das redes sociais e chegou a 310 ocorrências de tornados somente no Sul do Brasil, contra poucas dezenas registradas nos bancos de dados anteriores.
Não foi o fenômeno que se multiplicou. O que mudou foi o método de coleta. Um tornado noturno sobre uma lavoura em 1985 não entrava em nenhuma estatística.
Esse mesmo levantamento contraria o senso comum em dois pontos. A área de maior frequência está no norte do Rio Grande do Sul, no oeste de Santa Catarina e no sudoeste do Paraná. Além disso, o pico ocorre no inverno, e não no verão. Os tornados dessa região dependem mais do cisalhamento do vento, associado a frentes e ciclones, do que do calor.
Há também um sinal regional que merece atenção. Uma climatologia baseada em dados de reanálise de 1980 a 2021 encontrou queda anual na ocorrência de ambientes favoráveis a tempestades severas em partes da Argentina e do Brasil central, mas identificou aumento significativo durante a primavera na região da tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, impulsionado por um cisalhamento mais forte.
É justamente dessa área que vêm os sistemas que atingem o oeste gaúcho. Esse é, hoje, o indício mais consistente de aumento do risco regional.
Portal Agrolink: E as mudanças climáticas?
Gabriel Rodrigues: A relação mais direta é com a água. Uma atmosfera mais quente consegue reter cerca de 7% mais vapor de água a cada grau de aquecimento. A tempestade pode ser a mesma, mas o volume de chuva despejado pode ser maior.
Simulações de clima futuro apontam exatamente nessa direção: chuvas mais concentradas por sistema, sem que necessariamente haja um aumento no número de sistemas.
O estudo de atribuição da enchente de maio de 2024 concluiu que o aquecimento de 1,2 °C tornou uma chuva daquela magnitude cerca de duas vezes mais provável.
Portal Agrolink: O excepcional vai virar comum?
Gabriel Rodrigues: O que muda é a régua. Uma chuva considerada "de 100 anos" não deixa de ser rara, mas passa a acontecer em intervalos menores.
Isso significa sistemas de drenagem e obras dimensionados para o clima do século passado, janelas de colheita e secagem mais apertadas e seguro contra granizo e vendaval sendo tratado como uma despesa recorrente, e não como um item opcional.
O que não se deve esperar é uma multiplicação uniforme de todos esses eventos, todos os anos e em todos os lugares.
Portal Agrolink: O El Niño está por trás disso?
Gabriel Rodrigues: Em parte. O El Niño fortalece o jato subtropical e a esteira de umidade, e seu efeito sobre a chuva é bem estabelecido. Um estudo com 45 anos de dados de vazão mostrou aumento de mais de 120% na probabilidade de cheias na bacia do Prata. Na enchente de 2024, estimou-se que o fenômeno dobrou a chance de ocorrência do evento.
Não está comprovado que o El Niño aumente o número de tornados, granizadas ou vendavais. Há indícios de que as tempestades fiquem mais vigorosas quando ocorrem, mas não de que passem a ocorrer em quantidade muito maior.
Nem todo El Niño é igual. Quando o aquecimento se concentra no Pacífico Central, o sinal de chuva no Rio Grande do Sul enfraquece ou até se inverte. Daí vem a impressão de que "aquele El Niño não veio".
O ano de 2024 também mostra que o El Niño não explica tudo. O que agravou o desastre foi um bloqueio atmosférico que manteve as frentes praticamente paradas sobre o estado durante vários dias.
Em primaveras de El Niño, vale elevar a vigilância, ampliando a margem nas janelas de plantio e colheita e revisando seguro e drenagem antes da estação.
Em anos de La Niña, o risco se inverte em direção à estiagem. O El Niño altera as probabilidades com meses de antecedência, mas não substitui o radar e os alertas emitidos nas 24 horas anteriores ao temporal.
Portal Agrolink: E o El Niño? Qual é a previsão até a próxima safra?
Gabriel Rodrigues: O boletim do NOAA/CPC de agosto de 2026 mostra um El Niño estabelecido e em fortalecimento. O ápice é esperado para o trimestre de outubro, novembro e dezembro de 2026, com cerca de 95% de chance de o evento estar na categoria mais alta, de El Niño muito forte.
A partir de janeiro, ele começa a perder força. A chance de permanecer muito forte cai para perto de 35% no trimestre de janeiro, fevereiro e março de 2027.
No outono de 2027, o El Niño ainda deve estar presente, porém mais fraco, já que a probabilidade de neutralidade no trimestre de março, abril e maio é de apenas cerca de 18%.
A safra de verão inteira deve transcorrer sob a fase mais intensa do evento, com o risco deslocado do déficit para o excesso hídrico. Isso inclui encharcamento, perda de janelas de plantio e dificuldade para realizar operações no campo.
Para o trigo, o cenário é mais delicado porque o pico das chuvas coincide com o enchimento dos grãos e a colheita. O excesso de água nessa fase reduz o peso hectolítrico e o número de queda, favorece a giberela e pode provocar germinação na espiga.
É a diferença entre uma safra com qualidade para panificação e uma safra desclassificada para ração, mesmo com a lavoura aparentando estar sadia até poucos dias antes.
Há três ressalvas importantes. Não existe um cronograma oficial do El Niño, mas probabilidades que são revisadas todos os meses. O próprio NOAA registra que eventos mais fortes não produzem impactos proporcionalmente maiores. Eles apenas tornam determinados impactos mais prováveis.
Além disso, o calor extremo não é uma assinatura do El Niño no Sul. O sinal mais robusto para a região é a chuva. Ondas de calor de 40 °C estão associadas a bloqueios atmosféricos, que podem ocorrer em qualquer fase do fenômeno.