Potencial do trigo tropical é apresentado a técnicos de cooperativas de SP e do Sul do Brasil na Embrapa Cerrados
Participantes da capacitação visitaram experimentos com trigo na Unidade
Foto: Divulgação
O trigo tropical brasileiro tem se mostrado uma alternativa para os sistemas produtivos do Brasil Central, seja pelos benefícios agronômicos, seja pelas diversas possibilidades de uso pela indústria. Para aprofundarem conhecimentos sobre a triticultura tropical, técnicos de 13 cooperativas dos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estiveram na Embrapa Cerrados (DF), no dia 14 de julho, para interagirem com pesquisadores da Unidade e da Embrapa Trigo (RS), que apresentaram palestras sobre cenário, manejos e melhoramento genético, além de experimentos de campo.
A visita fez parte de um dos módulos da capacitação “Trigo 360: do Sul ao Cerrado”, promovida pela Embrapa e o Sistema OCB. Durante três dias, foram abordadas as bases técnicas para o avanço da triticultura tropical. Além da Embrapa Cerrados, os técnicos conheceram as experiências da Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) e da Fazenda Vargem, em Vianópolis (GO), com a cultura. Os outros três módulos são realizados em Passo Fundo (RS) e tratam de questões técnicas do trigo subtropical.
Jorge Lemainski (foto), da Embrapa Trigo, apresentou o panorama e oportunidades da triticultura no Brasil Central, região onde a luminosidade, as altitudes acima de 600 metros e as temperaturas noturnas amenas favorecem a produção de farinha de qualidade para a indústria de panificação.
A triticultura brasileira registra demanda nacional de cerca de 12,5 milhões de toneladas anuais, com forte dependência de importações. Conforme informado encontro, para assegurar o suprimento, é necessária competitividade em relação ao mercado internacional, envolvendo aspectos produtivos e de negociação. No Brasil Central, a área plantada aumentou de 222 mil para 438 mil hectares entre 2021 e 2023, enquanto a produção passou de 600 mil para 1,3 milhão de toneladas, o que representou 16% do total nacional no período.
Enquanto os três estados do Sul do País formam a região produtora tradicional, respondendo por 90% da produção nacional, as sete unidades da federação do Brasil Central (São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia) constituem a área de expansão da cultura, produzindo os 10% restantes. Na região, há 6,7 milhões de hectares de áreas com altitudes acima de 800 metros e outros 7,2 milhões de hectares entre 600 e 800 metros de altitude com condições favoráveis à cultura. Esse potencial é apontado pela pesquisa como uma oportunidade para reduzir a concentração do suprimento nacional e mitigar riscos – atualmente, 17 microrregiões concentram 50% da produção, e apenas sete respondem por 25% do total.
Paralelamente, o Sul do País enfrenta desafios climáticos pelo aumento das chuvas ao longo dos anos, o que eleva os riscos com a giberela (principal doença da cultura na região) e a ocorrência de precipitações no florescimento e na colheita em anos de El Niño. Por outro lado, no Cerrado do Brasil Central, que observa redução de chuvas nas últimas décadas e dificuldades no plantio do milho de segunda safra, a triticultura surge como alternativa de cultivo.
Ao analisar cultivares de trigo tropical desenvolvidas pela Embrapa, a equipe técnica indicou que o alcance da resistência à doença fúngica brusone representa o principal desafio para a expansão no Cerrado. Os períodos de semeadura funcionam como escape à doença, mas a solução definitiva reside no avanço genético, visto que a resistência à brusone tende a ampliar a competitividade pelo manejo do risco e ganho de qualidade do cereal.
Diante da diminuição pluviométrica na região, o manejo adequado do perfil do solo é recomendado para reduzir riscos climáticos na segunda safra. O trigo, a exemplo do milho, do sorgo e da braquiária, contribui para o aporte de matéria orgânica e carbono no solo, além de permitir a diversificação de renda e o uso eficiente do solo no inverno, com integração às indústrias moageira e de proteína animal.
A projeção técnica para os próximos anos indica potencial para a área de trigo no Brasil Central alcançar 800 mil hectares, ampliando a participação no suprimento nacional e favorecendo a balança comercial pela redução de importações. Para consolidação desse cenário, a pesquisa elencou cinco pilares fundamentais: genética e sanidade (cultivares resistentes à brusone e adaptadas à seca e ao calor); sistemas de produção de sequeiro e irrigado (integração com soja e milho); oferta de sementes em escala e qualidade; transferência de tecnologia (unidades demonstrativas, assistência técnica e capacitações); Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), crédito e seguro rurais.
A inovação focada em soluções genéticas, manejo da brusone, qualidade industrial (panificação e biscoitos) e estabilidade produtiva é apontada como a base para a competitividade do trigo tropical. Foram mostradas, ainda, as avaliações de resistência à brusone da espiga em nove regiões tritícolas e as características das cultivares BRS Savana e BRS Cracker, desenvolvidas para atender às demandas da indústria de moagem.
A expansão da triticultura nacional com eficiência tende a ocorrer prioritariamente nos estados do Brasil Central, de forma integrada aos sistemas produtivos locais e tendo o trigo irrigado como elemento central. A ampliação da moagem no Cerrado e a integração com as indústrias de alimentos e de ração animal visam promover a agregação de valor. Para o ganho de escala na região, são indicadas medidas como a expansão do Zarc, orientação do crédito rural, adequação do seguro agrícola e articulação interinstitucional.
Para mais informações sobre a cadeia produtiva do trigo no País, acesse a Plataforma Trigo no Brasil, que reúne dados técnicos sobre produção, cenários de expansão, comércio exterior, industrialização e economia da cultura.
No Brasil Central, o trigo pode ser cultivado sob dois sistemas. O sistema de sequeiro ou safrinha pode ser adotado em altitudes acima de 700 metros e em solos preferencialmente com teor de argila superior a 35%; o trigo é semeado principalmente após a safra de verão de soja (ou de milho, em Minas Gerais), sem irrigação. Já no sistema irrigado, o trigo é cultivado no período seco do ano (inverno), sob irrigação por pivô central, em regiões com altitudes acima de 500 metros em Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e na Bahia.
Jorge Chagas (foto), também da Embrapa Trigo, apontou benefícios da cultura do trigo tropical no Cerrado, como a sustentabilidade de sistemas, contribuindo para maior produtividade de culturas subsequentes como soja, feijão e hortifrútis; opção para a rotação de culturas, com quebra do ciclo de pragas e doenças do solo, além de eficiência no controle de plantas daninhas e tigueras (voluntárias); cobertura do solo, com aporte de carbono; otimização de maquinário e mão de obra; renda com a venda a bons preços, já que é o primeiro trigo colhido no ano no Brasil, em época seca, e pela qualidade dos grãos; oportunidade de ganhos de rendimento com variedades de soja de ciclos mais tardios devido ao sinergismo entre as culturas; além de otimizar a janela de plantio da soja, sendo uma alternativa ao milho na segunda safra caso o produtor opte por plantar soja de ciclo médio ou tardio.
Por outro lado, a triticultura na região apresenta riscos e gargalos, mas há práticas para mitigá-los. No caso do trigo sequeiro, os principais problemas são o déficit hídrico causado por veranicos e chuvas irregulares, sobretudo nos meses de março e abril, e o manejo de doenças. “É preciso conciliar o rendimento e a qualidade dos grãos nesse período desafiador. Existe a possibilidade de seca, e na fase de enchimento dos grãos ela é certa, porque no final de abril e em maio praticamente não chove”, explicou Chagas, acrescentando que as variedades adaptadas ao Cerrado enchem os grãos utilizando a água do solo, sendo essenciais as práticas de correção e fertilidade do solo. “O trigo sequeiro aqui tem que ter custo baixo porque o risco pode ser muito alto. Ele é plantado em março e não se tem certeza sobre o quanto vai chover”, completou.
Para amenizar esses riscos e garantir um custo baixo de produção, o pesquisador elencou um conjunto de práticas de manejo. Primeiro, deve-se planejar a escolha da cultivar, observando a população ideal de plantas, a época ideal de semeadura e a tolerância a doenças, seca e calor; a aquisição de insumos; o cultivo da soja no verão nos talhões onde será plantado o trigo, compatibilizando os ciclos das culturas; a segregação de sementes; e a comercialização dos grãos, em sintonia com a demanda dos moinhos. O manejo deve ser progressivo, sempre em função das chuvas, para proteger o potencial de rendimento da cultura, que é atrelado ao custo.
Outra medida é o escalonamento da semeadura, semeando-se mais de uma cultivar ou utilizando diferentes épocas de semeadura da mesma variedade, dentro da janela de plantio indicada, para escape da brusone e mitigação dos riscos de déficit hídrico, obtendo-se talhões em fases distintas, como florescimento e enchimento de grãos. É fundamental observar a época de semeadura indicada pelo Zarc para a região: plantios mais próximos do início da janela devem utilizar cultivares mais tolerantes a doenças como brusone e manchas foliares devido às chuvas, enquanto plantios mais tardios requerem materiais com maior tolerância à seca.
Nesse sentido, o período de semeadura sugerido pela pesquisa para melhor exploração do potencial do trigo sequeiro no DF e em Goiás, por exemplo, é entre os dias 5 e 25 de março. “A condição climática aqui é muito variável, mas essa é uma janela em que o trigo tem ido bem na média dos anos”, justificou o pesquisador.
A população de plantas deve ser a recomendada pelo obtentor da cultivar, sendo calculada a partir do peso de mil sementes (PMS), da taxa de germinação e do índice de sobrevivência de plantas no campo. Segundo Chagas, uma população elevada de plantas representa maior custo e menor qualidade de grãos, além de favorecer doenças.
Para maximizar o rendimento de grãos, preconiza-se o plantio com máquina semeadora, que conserva o plantio direto e seus benefícios, uniformiza o arranjo de plantas e confere maior eficiência no uso de fertilizantes. A semeadura a lanço, apesar de mais simples e rápida, demanda mais sementes e proporciona menor rendimento, sendo mais indicada quando o objetivo é usar o trigo como planta de serviço. O pesquisador orientou, ainda, sobre a correção, adubação e descompactação do solo, o uso de boro (principal micronutriente) e o manejo do adubo nitrogenado.
Já o sistema irrigado apresenta grande diversidade, variando conforme o objetivo do produtor com o trigo (alto rendimento de grãos ou uso na rotação de culturas), o nível de investimento e as demais culturas utilizadas na área. Os principais problemas são o acamamento, o manejo de doenças e operações, além de interações de aplicações de produtos. Como se trata de um sistema que busca o alto rendimento de grãos, o manejo pode ser programado antecipadamente, conforme as características da área do pivô, a fim de se ter maior controle do ambiente de cultivo.
Chagas comentou sobre as principais práticas de manejo que impactam o cultivo do trigo irrigado. O planejamento envolve a escolha da cultivar, considerando ciclo (que envolve o consumo de eletricidade e água) e rendimento; o uso de insumos (herbicidas e regulador de crescimento); o ajuste dos ciclos das culturas anteriores para evitar que o pivô fique parado; e o planejamento das operações de modo a serem realizadas no momento certo, evitando o acúmulo, em determinadas fases da cultura, de aplicações de diferentes produtos (adubos, herbicidas e defensivos).
Assim como no trigo sequeiro, a população de plantas deve ser a recomendada pelo obtentor da cultivar, considerando o PMS, a taxa de germinação e o índice de sobrevivência de plantas no campo, não podendo ser nem baixa (compromete o rendimento), nem muito alta (favorece o acamamento e doenças).
A janela de semeadura para o trigo irrigado no Planalto Central indicada pelo Zarc é de 11 de abril a 10 de junho, sendo o período entre os dias 5 e 20 de maio o mais recomendado pela pesquisa para a exploração do potencial de rendimento de grãos. A semeadura precoce pode sujeitar a lavoura à brusone e ao calor, requerendo cultivares mais tolerantes a essa e outras doenças; já o trigal semeado tardiamente pode sofrer com o calor na fase de enchimento de grãos e chuvas na colheita, demandando materiais com maior tolerância à germinação dos grãos na espiga.
“Tudo depende do objetivo. Há produtores que plantam em abril sabendo que vão colher menos porque pretendem semear, posteriormente, outra cultura já programada. O importante é que eles tomem os cuidados para que o trigo não acame e tenham custo mais baixo”, observou o pesquisador.
Além de falar sobre as recomendações para a correção e adubação, o equilíbrio de nutrientes e o manejo do nitrogênio no solo, Chagas chamou a atenção para o uso do regulador de crescimento, orientando sobre a dose e o momento de aplicação adequados, bem como os cuidados com outras operações que podem afetar seus efeitos. Utilizado apenas no sistema irrigado, o produto atua no metabolismo das plantas, regulando o crescimento sem paralisar o desenvolvimento. No trigo, ele promove a redução do porte e o fortalecimento da planta, diminuindo o risco de acamamento, uma das principais causas de perdas em rendimento de grãos no sistema irrigado quando ocorre antes da fase final de enchimento de grãos.
O manejo da irrigação é o último recurso para controlar o acamamento, e deve ser conciliado com a genética da cultivar, a densidade do plantio, a adubação nitrogenada e o regulador de crescimento. A recomendação é ter cuidado com irrigações pesadas no enchimento dos grãos e em noites com vento no final de julho e em agosto.
“Ao irrigar à noite, é preciso ficar observando o trigo, pois há o risco de acamamento se começar a ventar e o pivô jogar a água no mesmo sentido do vento. Nesse caso, é preciso desligar o pivô, avançá-lo um pouco e voltar a irrigar, verificando se o trigo vai acamando ou não. Ou, então, desligue o pivô e espere parar de ventar. Se não parar, volte a ligar o pivô só no dia seguinte. É melhor fazer isso que deixar acamar lavoura inteira”, orientou Chagas.