Práticas no campo aceleram a resistência das lagartas ao controle
A resistência surge de um processo natural, mas acelerado por más prática
Foto: Canva
Especialistas em manejo integrado de pragas apontam que decisões tomadas nesta safra sobre rotação de produtos, monitoramento e uso da tecnologia Bt vão determinar se inseticidas e cultivares resistentes continuarão funcionando nos próximos ciclos do algodão.
As lagartas-das-maçãs, entre elas Helicoverpa armigera e Helicoverpa zea, estão entre as pragas que mais preocupam produtores de algodão em regiões de cultivo intensivo, especialmente no período de maior pressão, entre fevereiro e setembro. Segundo recomendaçõesda Embrapa, o risco não está apenas no dano direto causado pelas lagartas às estruturas reprodutivas da planta, mas também no efeito cumulativo do uso repetido de Inseticidas e da tecnologia Bt, que vem aumentando a pressão de seleção sobre essas populações e ameaça reduzir a eficácia das ferramentas de controle ao longo do tempo.
O motivo pelo qual essas lagartas exigem atenção redobrada está diretamente ligado ao hábito de atacar justamente as estruturas que definem a produção do algodoeiro: botões florais, flores e maçãs. Quando o controle falha ou chega tarde, o resultado é perda direta de potencial produtivo, já que essas estruturas comprometidas dificilmente são recuperadas pela planta. Some-se a isso o fato de que a praga não se limita ao algodão, circulando também por soja, milho e plantas daninhas hospedeiras ao longo do ano, o que mantém populações ativas mesmo fora da safra da cultura e amplia o desafio de controle.
A resistência surge de um processo natural, mas acelerado por más práticas de manejo. Dentro de uma população de lagartas, alguns indivíduos já nascem com maior tolerância a determinado inseticida ou à proteína Bt. Quando a mesma forma de controle é usada repetidamente, esses indivíduos sobrevivem com mais frequência, se reproduzem e, ao longo de gerações, passam a dominar a população. Esse processo é intensificado por um conjunto específico de práticas: uso contínuo do mesmo modo de ação ao longo da safra, aplicações em doses abaixo do recomendado ou com tecnologia de pulverização deficiente, controle realizado quando as lagartas já estão grandes e, portanto, mais difíceis de eliminar, além da falha em manter áreas de refúgio em cultivares Bt, que são essenciais para preservar insetos suscetíveis na paisagem.
É justamente para evitar decisões tardias ou desnecessárias que o monitoramento constante da lavoura é apontado como decisivo. Em vez de seguir um calendário fixo de aplicações, o manejo recomendado se baseia em amostragens semanais, que avaliam a presença de ovos e lagartas pequenas nas estruturas reprodutivas da planta, complementadas pelo uso de armadilhas com feromônio para indicar picos de voo dos adultos. Esse acompanhamento permite que o controle seja feito no momento em que é mais eficiente, quando as lagartas ainda estão em fases iniciais de desenvolvimento, evitando tanto aplicações desnecessárias, que elevam custo e pressão de seleção, quanto intervenções tardias, que tendem a falhar e favorecer justamente os indivíduos mais tolerantes.
O equilíbrio entre inseticidas químicos, controle biológico e tecnologia Bt aparece como um dos pontos centrais do manejo recomendado para conter o avanço da resistência. A rotação de modos de ação, orientada por classificações técnicas como a do IRAC (Comitê de Ação à Resistência de Inseticidas), deve evitar sequências longas com o mesmo mecanismo, ainda que sejam usados produtos de marcas diferentes. Paralelamente, o fortalecimento do controle biológico, seja preservando inimigos naturais já presentes na lavoura, seja por meio de liberações e bioinseticidas, reduz a dependência de aplicações químicas frequentes. Já em relação ao algodão Bt, a recomendação é clara: respeitar as áreas de refúgio, que garantem a presença de insetos suscetíveis na paisagem, e evitar complementação química desnecessária quando a tecnologia já está controlando adequadamente a praga, já que essa sobreposição pode acelerar a seleção de resistência múltipla.
Como as lagartas-das-maçãs não reconhecem limites de propriedade e transitam entre diferentes culturas hospedeiras ao longo do ano, a cooperação entre produtores de uma mesma região tende a ganhar peso crescente nas próximas safras. A resistência é resultado da exposição da praga a toda a paisagem agrícola, e não a uma lavoura isolada, o que torna estratégias coordenadas entre propriedades, muitas vezes articuladas por associações de produtores e instituições de pesquisa, mais eficazes do que ações pontuais e isoladas. Isso inclui alinhar o uso de modos de ação entre vizinhos, manejar plantas daninhas hospedeiras e restevas de culturas para reduzir a sobrevivência da praga entre safras, e compor um mosaico equilibrado entre áreas Bt e não-Bt na região.