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Presença de pulgões pode comprometer o potencial produtivo do trigo

Monitoramento no início do ciclo ajuda a evitar perdas no trigo


Foto: Seane Lennon

A presença de pulgões nas lavouras de trigo durante a fase vegetativa exige atenção desde as primeiras folhas. Além de retirar seiva das plantas, esses insetos podem transmitir viroses capazes de provocar mosaico, amarelecimento, nanismo e redução do número de perfilhos, espigas e grãos. O risco é maior quando a infecção ocorre em plantas jovens.

O crescimento vegetativo compreende o período entre a emergência e o final do perfilhamento, com início do alongamento do colmo. É nessa fase que o trigo desenvolve folhas, raízes e perfilhos, também chamados de afilhos, que têm participação direta na formação do potencial produtivo da cultura.

Entre as espécies mais comuns estão o pulgão-verde-dos-cereais (Schizaphis graminum), o pulgão-da-espiga (Sitobion avenae) e o pulgão-preto-dos-cereais (Rhopalosiphum padi). A alimentação desses insetos pode provocar perda de vigor, murcha localizada, enrolamento das folhas, manchas amareladas e redução do perfilhamento.

O maior alerta, porém, está relacionado à transmissão de vírus. Entre eles está o Barley yellow dwarf virus (BYDV), além de outros agentes associados a mosaicos e nanismo. Os pulgões podem adquirir o vírus ao se alimentar de uma planta infectada e transmiti-lo posteriormente para plantas sadias.

Nem todos os pulgões são portadores de vírus, mas a presença de uma parcela de insetos infectivos pode ser suficiente para disseminar a doença pelo talhão. Quando a infecção ocorre em plântulas ou plantas jovens, os efeitos tendem a ser mais severos, com nanismo, mosaico e forte redução do número de perfilhos. Infecções mais tardias podem apresentar sintomas mais leves e menor impacto sobre a produtividade.

Atenção redobrada nas plantas jovens

O período entre duas e seis folhas e o perfilhamento ativo é considerado um dos mais críticos. Nessa etapa, uma infecção viral precoce pode comprometer de forma mais intensa o desenvolvimento das plantas e o potencial de rendimento da lavoura.

As perdas variam conforme o momento da infestação, a intensidade do ataque e a presença de vírus na área. Infestações moderadas, sem ocorrência significativa de viroses, podem provocar perdas de pequena a média intensidade, principalmente pela redução do número de perfilhos produtivos e do peso dos grãos.

Quando há infecção viral nas fases iniciais, o prejuízo pode ser maior. Plantas nanicas, folhas amarelas ou avermelhadas e baixo número de espigas estão entre os sinais observados. Em cenários de alta pressão de vírus, associados à presença de pulgões vetores desde as primeiras folhas, grande parte do potencial produtivo pode ser comprometida.

Monitoramento deve começar após a emergência

A principal estratégia para identificar o problema antes que ele avance é iniciar as inspeções logo após a emergência do trigo, a partir de duas folhas verdadeiras. O acompanhamento deve seguir até o final do perfilhamento e o início do alongamento do colmo.

Em áreas com baixa pressão histórica de pulgões e condições climáticas menos favoráveis aos insetos, como temperaturas mais baixas e períodos prolongados de chuva, a vistoria semanal geralmente é suficiente. Já em anos mais quentes e secos, ou em propriedades com histórico de viroses e presença de cereais voluntários, conhecidos como tigueras, as avaliações devem ocorrer a cada três ou quatro dias.

A amostragem precisa representar diferentes pontos da lavoura. O percurso pode ser feito em zigue-zague ou por transectos, evitando concentrar as observações apenas nas bordaduras próximas a estradas e cercas. Talhões com diferenças de cultivar, época de semeadura ou histórico de manejo devem ser avaliados separadamente.

Durante a inspeção, é importante observar a parte inferior das folhas, as bainhas e o cartucho das plantas em perfilhamento, locais onde os pulgões costumam se abrigar. A avaliação pode considerar o número de insetos por planta ou a porcentagem de plantas infestadas.

Inimigos naturais também entram na avaliação

A presença de joaninhas, crisopídeos, sirfídeos, parasitoides e fungos entomopatogênicos deve ser registrada durante as vistorias. Esses organismos ajudam a reduzir naturalmente as populações de pulgões e precisam ser considerados antes da decisão por uma intervenção.

Por esse motivo, aplicações desnecessárias de inseticidas devem ser evitadas, já que podem reduzir a população desses inimigos naturais. A atividade desses organismos pode, em determinadas situações, ajudar a conter o avanço da infestação.

Também é recomendado registrar em cada vistoria a data, o estádio de desenvolvimento do trigo, a espécie predominante de pulgão, quando possível, a quantidade de insetos ou o percentual de plantas infestadas, a presença de inimigos naturais e possíveis sintomas de viroses.

Decisão de controle depende das condições da lavoura

A presença de pulgões, por si só, não determina automaticamente a necessidade de controle químico. A decisão deve considerar o chamado nível de ação, uma referência utilizada para definir quando a intervenção passa a ser agronômica e economicamente indicada.

Esse nível varia conforme o estádio do trigo, o histórico de viroses, a presença de inimigos naturais e as condições climáticas. Em plantas jovens e áreas com histórico da doença, populações menores de pulgões podem justificar uma intervenção, principalmente quando há poucos inimigos naturais.

Já em lavouras em pleno perfilhamento, sem histórico de virose e com presença significativa de organismos benéficos, uma população maior pode ser tolerada quando apresenta crescimento lento. Se o número de pulgões aumentar rapidamente entre duas avaliações, o risco de danos e transmissão de viroses cresce e pode antecipar a necessidade de controle.

Não há um número único de pulgões por planta ou um percentual fixo de infestação aplicável a todas as situações. A definição deve considerar as recomendações técnicas regionais e as condições de cada safra e localidade.

Prevenção começa antes da infestação

O manejo de pulgões e viroses também depende de medidas adotadas antes e no início da safra. Uma delas é a eliminação de plantas voluntárias de trigo, cevada, aveia e outros cereais durante a entressafra. Essas plantas podem servir como hospedeiras para pulgões e vírus.

A semeadura na época recomendada também é importante, já que plantios muito antecipados ou tardios podem expor o trigo a condições mais favoráveis aos pulgões em fases sensíveis. A escolha de cultivares adaptadas e o equilíbrio da adubação nitrogenada completam as ações preventivas apresentadas.

Quando o controle químico for necessário, devem ser utilizados produtos registrados para a cultura do trigo e para as espécies de pulgões-alvo, sempre de acordo com rótulo, bula e receituário agronômico. Volume de calda, pontas de pulverização e condições climáticas também precisam ser adequados para garantir boa cobertura das plantas. Depois da aplicação, o monitoramento deve continuar. A nova avaliação permite verificar a eficiência do controle e identificar se existe ou não necessidade de outra intervenção.

Sintomas no campo servem de alerta

Além da presença dos pulgões, alguns sinais nas plantas podem indicar a ocorrência de viroses. Entre eles estão mosaicos com áreas verde-claras e verde-escuras nas folhas, amarelecimento ou avermelhamento, nanismo e reboleiras com plantas afetadas ao lado de plantas aparentemente sadias.Quando esses sintomas aparecem em áreas com histórico de pulgões, a ocorrência deve ser registrada. Sempre que possível, a confirmação do agente causal deve ser feita por diagnóstico laboratorial, com apoio da assistência técnica e de instituições de pesquisa. A identificação correta pode ajudar no planejamento do manejo das safras seguintes.

Na prática, o manejo eficiente depende da combinação de prevenção, monitoramento frequente, conservação dos inimigos naturais e intervenção apenas quando necessária. A rotação de culturas, o controle de plantas daninhas e o manejo de plantas voluntárias também ajudam a reduzir a continuidade do ciclo dos pulgões e dos vírus na área.

 

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