Produtores propõem debate sobre voto para quem vive na estrada
Trabalhadores da estrada enfrentam desafios para votar longe de casa
Foto: Canva
Trabalhadores que enfrentam mudanças de rota e viagens inesperadas apontam dificuldades para definir antecipadamente o local de votação em trânsito e sugerem discussão sobre alternativas para o futuro
Uma carga que surge de última hora, uma mudança inesperada de rota ou um serviço que precisa ser realizado em outra cidade podem alterar completamente a programação de quem trabalha na estrada. Em períodos eleitorais, essa rotina também pode significar estar distante do domicílio eleitoral justamente no dia da votação.
Diante dessa realidade, produtores rurais sugerem que seja debatida a possibilidade de criar, no futuro, alternativas de votação voltadas a trabalhadores itinerantes, especialmente aqueles que não conseguem prever com antecedência onde estarão na data da eleição.
A proposta não prevê a substituição do atual sistema de voto em trânsito, mas busca estimular uma discussão sobre mecanismos que possam oferecer maior flexibilidade aos profissionais cuja atividade exige deslocamentos constantes.
Entre os produtores que vêm levantando o tema está a agricultora Vanesa Peres, de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul. Segundo ela, o assunto surgiu durante uma conversa em um grupo do qual é administradora. O debate chamou sua atenção justamente pela realidade de pessoas que trabalham viajando e que, muitas vezes, podem estar longe da cidade onde votam no dia da eleição. “A ideia surgiu a partir de um comentário e de uma conversa em um grupo do qual sou administradora. O assunto chamou minha atenção e comecei a pensar na realidade de quem trabalha viajando e pode estar longe do seu domicílio eleitoral no dia da eleição”, relata.
Após a conversa, Vanesa buscou informações sobre o funcionamento do voto em trânsito e passou a questionar se, no futuro, o sistema poderia contemplar de maneira diferente profissionais que mantêm uma rotina de deslocamentos. “Não estou dizendo que tenho uma solução pronta. Estou trazendo uma questão para ser discutida e estudada”, afirma.
Segundo ela, um dos pontos centrais é considerar situações em que o trabalhador recebe uma carga, precisa mudar de rota ou assume um compromisso profissional em outra cidade ou Estado poucos dias antes da eleição.
“Os caminhoneiros são um exemplo bastante claro, mas não penso somente neles. Também penso em produtores e em outros trabalhadores que precisam se deslocar a trabalho e que nem sempre conseguem prever com antecedência onde estarão no dia da eleição”, explica.
VOTO EM TRÂNSITO
O voto em trânsito é uma modalidade prevista pela Justiça Eleitoral que permite ao eleitor votar temporariamente fora de seu domicílio eleitoral.
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas Eleições Gerais de 2026, o voto em trânsito ocorre nas capitais e nos municípios com mais de 100 mil eleitores. Para utilizar a modalidade, o eleitor precisa estar com a situação regular no Cadastro Eleitoral e solicitar previamente a transferência temporária de sua seção, indicando o município e o turno em que pretende votar.
Nas eleições deste ano, o período de habilitação ocorreu entre 20 de julho e 20 de agosto.
As possibilidades de votação também variam conforme o local onde o eleitor estiver. Quem votar em trânsito dentro do mesmo Estado de seu domicílio eleitoral poderá votar para presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Já o eleitor que estiver em outro Estado poderá votar apenas para presidente da República.
Na prática, isso significa que o trabalhador que souber com antecedência onde estará no dia da eleição poderá utilizar o mecanismo, desde que faça a habilitação dentro do prazo e escolha um dos locais disponibilizados pela Justiça Eleitoral.
Para profissionais que vivem em constante deslocamento, porém, há uma dificuldade prática: a necessidade de definir antecipadamente onde pretendem votar.
Atualmente, não existe uma modalidade específica de voto em trânsito destinada a caminhoneiros, produtores rurais ou outros profissionais itinerantes.
O Código Eleitoral prevê regras específicas para militares, integrantes dos órgãos de segurança pública e guardas municipais que estejam em serviço durante as eleições, permitindo o voto em trânsito independentemente do número de eleitores do município. Essa previsão, no entanto, não foi estendida aos demais trabalhadores que estejam viajando a serviço.
O que fazer se estiver viajando no dia da eleição?
Para quem já sabe que estará fora de seu domicílio eleitoral, a orientação da Justiça Eleitoral é verificar previamente a possibilidade de utilizar o voto em trânsito e realizar a habilitação dentro do prazo estabelecido.
Também é importante consultar antecipadamente o local escolhido para a votação. O TSE informa que os locais destinados ao voto em trânsito são divulgados pelos Tribunais Regionais Eleitorais.
O eleitor habilitado para votar em trânsito que não conseguir comparecer ao local escolhido não poderá simplesmente retornar à sua seção eleitoral de origem para votar. Nesse caso, será necessário justificar a ausência.
Quem não estiver habilitado para o voto em trânsito e estiver fora de seu domicílio eleitoral no dia da votação também poderá justificar a ausência por meio do aplicativo e-Título ou do Requerimento de Justificativa Eleitoral.
A justificativa pode ser apresentada no próprio dia da eleição ou posteriormente, dentro do prazo estabelecido pela Justiça Eleitoral. Quando realizada após a votação, poderá ser necessário apresentar documentação que comprove o motivo da ausência.
Nas Eleições Gerais de 2026, o primeiro turno foi realizado em 4 de outubro. Um eventual segundo turno está previsto para 25 de outubro.
E se o eleitor não souber onde estará?
Esse é justamente um dos principais pontos levantados por quem trabalha constantemente na estrada.
Para utilizar o voto em trânsito, o eleitor precisa se habilitar previamente e indicar o local onde pretende votar. O sistema, portanto, não permite que uma pessoa em viagem simplesmente procure qualquer seção eleitoral no dia da eleição para registrar seu voto.
A regulamentação das Eleições 2026 estabelece que os Tribunais Regionais Eleitorais podem utilizar locais de votação já existentes ou criar pontos específicos para receber os eleitores habilitados ao voto em trânsito. Esses locais, no entanto, precisam ser previamente definidos pela Justiça Eleitoral.
Para a advogada Rayane Correa, o voto em trânsito representa uma alternativa para quem estará fora de seu domicílio eleitoral, mas depende de planejamento prévio. “Para quem trabalha na estrada e não consegue prever com antecedência onde estará no dia da eleição, essa exigência pode representar uma dificuldade prática para o exercício do voto. A recomendação é que o trabalhador procure se organizar antecipadamente, verifique as possibilidades oferecidas pela Justiça Eleitoral e, caso não consiga votar, fique atento aos prazos para justificar a ausência”, explica Rayane.
Vanesa destaca que a principal questão levantada na discussão está justamente na necessidade de definir previamente o município em que o eleitor pretende votar.
“Para quem consegue organizar a viagem com antecedência, esse sistema pode atender à necessidade. Já para trabalhadores sujeitos a mudanças de rota e a compromissos profissionais inesperados, essa definição antecipada pode ser mais difícil”, afirma.
Segundo a produtora, a intenção é estimular uma discussão sobre o tema, para que eventuais alternativas possam ser analisadas tecnicamente pela Justiça Eleitoral, considerando tanto a possibilidade de ampliar o acesso ao voto quanto a necessidade de preservar a segurança do processo eleitoral.
“Se uma pessoa está trabalhando longe de casa no dia da eleição, será que não podemos encontrar uma forma segura, regulamentada e viável para que ela também possa exercer o direito de votar?”, questiona Vanesa.
Para os produtores que levantam o tema, esse é o ponto de partida da discussão: avaliar se a legislação e os mecanismos eleitorais poderão, no futuro, considerar com maior flexibilidade a realidade de quem precisa continuar trabalhando e viajando durante o período eleitoral.