Pronaf 2026: taxas, limites e quanto vale um crédito a 2%
Pronaf Custeio: quatro faixas de juros, não uma
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O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 destinou R$ 85,2 bilhões às linhas de crédito do Pronaf, cerca de 9% acima do ciclo anterior. O número que apareceu em quase todas as manchetes foi o juro de 2% ao ano no custeio. Ele existe, mas não vale para tudo o que se planta, e essa é a informação que decide o custo real da sua operação.
Este texto reúne as condições de cada linha conforme o resumo oficial publicado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, e explica no fim por que uma taxa de 2% ao ano é possível num país com Selic a 14%.
Quem pode acessar e o que é o CAF
O acesso ao Pronaf depende do enquadramento como agricultor familiar, comprovado pelo Cadastro Nacional da Agricultura Familiar, o CAF, que substituiu a antiga Declaração de Aptidão ao Pronaf, a dap.
Os critérios seguem a Lei 11.326/2006: explorar área de até quatro módulos fiscais, usar predominantemente mão de obra da própria família, ter na atividade a principal fonte de renda e residir na propriedade ou em município próximo. O teto de renda bruta anual de enquadramento para a maioria das linhas é de R$ 500 mil, e várias modalidades trabalham com faixas menores, de R$ 150 mil ou de R$ 60 mil, que dão acesso a condições mais favorecidas.
A contratação é feita por instituições financeiras autorizadas a operar as linhas, e o governo disponibilizou o Simulador de Crédito do Pronaf, que pede dados de renda e produção para indicar quais modalidades se aplicam ao seu perfil antes da conversa com o banco ou a cooperativa.
Pronaf Custeio: quatro faixas de juros, não uma
Esta é a linha principal e onde mora a informação mais importante do plano. Famílias com renda bruta anual de enquadramento de até R$ 500 mil podem contratar até R$ 250 mil, com prazo de reembolso de 11 meses a 3 anos. A taxa, porém, muda conforme o que você produz.
A Faixa I paga 2% ao ano e reúne arroz, feijão, feijão caupi, mandioca, trigo, amendoim, alho, tomate, cebola, inhame, cará, batata-doce, batata-inglesa, abacaxi, banana, açaí cultivado, cacau cultivado, laranja, tangerina, olerícolas e ervas medicinais, aromáticas e condimentares. No lado pecuário, entram apicultura, bovinocultura de leite, avicultura de postura, aquicultura e pesca, ovinocultura, caprinocultura e exploração extrativista ecologicamente sustentável. O milho também entra na Faixa I, mas com uma trava específica: as operações somadas podem atingir até R$ 20 mil por mutuário em cada ano agrícola.
A Faixa III paga 1% ao ano, a menor taxa do custeio, e Cobre produtos da sociobiodiversidade, sistemas orgânicos de produção e sistemas de base agroecológica ou em transição para eles. A lista de produtos da sociobiodiversidade é extensa e inclui açaí extrativo, babaçu, baru, castanha-do-brasil, cupuaçu, erva-mate, guaraná, juçara, licuri, macaúba, mangaba, pequi, pinhão, pirarucu de manejo, umbu e meliponicultura, entre dezenas de outros.
A Faixa II paga 5,5% ao ano e abrange os demais produtos e criações não listados nas outras faixas.
A Faixa IV paga 7,5% ao ano e reúne soja, algodão e bovinocultura de corte.
A diferença entre plantar trigo e plantar soja dentro da mesma linha de crédito é de 5,5 pontos percentuais ao ano. Isso não é um detalhe operacional, é política de preço embutida na política de crédito: o governo cobra menos de quem produz alimento básico e mais de quem produz commodity de exportação.
Pronaf B: microcrédito rural
O Pronaf B atende famílias com renda bruta anual de enquadramento de até R$ 60 mil, teto que subiu de R$ 50 mil nesta safra. A taxa é de 0,5% ao ano, com bônus de adimplência de 25% ou 40%.
Nos limites, o investimento chega a R$ 12 mil por família quando a operação é feita com o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, o PNMPO, e a R$ 4 mil sem ele. O prazo é de 3 anos para investimento e 2 anos para custeio.
Duas novidades ampliam o alcance da linha. A construção ou reforma de moradias e instalações sanitárias passou a ser financiável em até R$ 10 mil por família, com prazo de 5 anos. E a modalidade Pronaf B Agroecologia e Quintais Produtivos financia até R$ 20 mil por família com PNMPO, em 3 anos, para sistemas de base agroecológica, sistemas orgânicos e quintais produtivos para mulheres rurais.
Pronaf A e A/C: assentados e comunidades tradicionais
Voltada a beneficiários do Programa Nacional de Reforma Agrária, do Programa Nacional de Crédito Fundiário e do Programa Cadastro de Terras e Regularização Fundiária, além de povos indígenas e comunidades quilombolas.
O investimento na atividade produtiva chega a R$ 55 mil, com juros de 0,5% ao ano, prazo de 10 anos, carência de 3 anos e bônus de adimplência de 40%. O custeio agrícola, pecuário e para agroindústria vai até R$ 22 mil, com juros de 1,5% ao ano e prazo de 1 a 2 anos.
Cooperativas da agricultura familiar podem acessar até R$ 1 milhão a 3% ao ano, desde que tenham receita operacional bruta anual de até R$ 10 milhões, no mínimo 75% de sócios com CAF enquadrado no Pronaf, 90% dos sócios beneficiados pelo projeto com CAF nos grupos A e A/C, e participem do Programa Mais Gestão ou do Coopera Mais Brasil.
Pronaf Mais Alimentos: a linha de investimento
Atende famílias com renda bruta anual de enquadramento de até R$ 500 mil e trabalha com taxas diferenciadas por item financiado, o que exige atenção na montagem do projeto.
Tratores, colheitadeiras e implementos agrícolas ficaram em 5% ao ano, com prazo de 7 anos e carência de 1 ano. Demais finalidades aparecem com limite de R$ 100 mil a 2% ao ano, prazo de 10 anos e carência de 3 anos. Máquinas, equipamentos e implementos, incluindo sistemas de irrigação, conectividade no campo e equipamentos adaptados a pessoas com deficiência, são financiáveis em até R$ 120 mil a 1,5% ao ano para famílias com renda bruta anual de enquadramento menor que R$ 150 mil, limite que subiu de R$ 100 mil nesta safra.
Nos limites por atividade, suinocultura, avicultura, aquicultura, carcinicultura e fruticultura chegam a R$ 450 mil. A regularização fundiária do imóvel rural tem teto de R$ 40 mil. Moradias rurais têm limite de R$ 100 mil a 5% ao ano para famílias com renda igual ou menor que R$ 150 mil, e de R$ 150 mil para as demais.
Itens como cultivo protegido, armazenagem, ordenhadeiras, tanques de resfriamento, pesca e aquicultura, avicultura de postura não integrada, caprinocultura e ovinocultura têm prazo de 10 anos com carência de 3 anos. Sêmen, óvulos e embriões para melhoramento genético aparecem com 2% ao ano.
Linhas para públicos específicos
Pronaf Mulher. Mulheres com renda familiar bruta anual de enquadramento de até R$ 500 mil podem contratar investimento de até R$ 250 mil. Para renda menor que R$ 150 mil, o limite para máquinas, equipamentos e implementos é de R$ 120 mil, valor que subiu de R$ 100 mil. Foi criada uma linha adicional de custeio de até R$ 8 mil, com prazo de 2 anos. Mulheres com renda familiar bruta anual de até R$ 60 mil acessam nas condições do Pronaf B, a 0,5% ao ano, com R$ 15 mil com PNMPO ou R$ 4 mil sem, e até R$ 20 mil com PNMPO na modalidade de agroecologia e quintais produtivos.
Pronaf Jovem. Para jovens entre 16 e 29 anos que cumpram os requisitos do MCR 10-10, com as mesmas finalidades do Pronaf Mais Alimentos. O limite é de R$ 50 mil, dependendo da capacidade de pagamento, a 2% ao ano, com prazo de 10 anos e carência de 3 anos. Jovens inseridos em unidade familiar com renda bruta anual de até R$ 60 mil acessam nas condições do Pronaf B, a 0,5% ao ano, com R$ 16 mil com PNMPO ou R$ 4 mil sem.
Linhas ambientais e regionais
Pronaf Agroecologia. Para famílias com renda de até R$ 500 mil que tenham certificação orgânica ou cujo projeto técnico não inclua fertilizantes sintéticos de alta solubilidade, agrotóxicos (exceto biológicos e produtos aprovados para uso na agricultura orgânica), reguladores de crescimento, aditivos sintéticos na alimentação animal e organismos geneticamente modificados. Os limites são de R$ 250 mil ou R$ 450 mil, a 2% ao ano, com prazo de 5 a 10 anos e carência de 1 a 3 anos.
Pronaf Floresta. Sistemas agroflorestais chegam a R$ 110 mil, com prazo de 20 anos e carência de 12 anos, o prazo mais longo do programa. Exploração extrativista sustentável, recomposição e manutenção de áreas de preservação permanente e reserva legal, recuperação de áreas degradadas e implantação de árvores frutíferas nativas do bioma têm limite de R$ 45 mil.
Pronaf Bioeconomia. Para famílias com renda de até R$ 500 mil, financia tecnologias de energia renovável, exploração extrativista e de produtos da sociobiodiversidade, adequação à legislação ambiental, viveiros de mudas, turismo rural, unidades de produção de bioinsumos e biofertilizantes, práticas conservacionistas de solo e água e irrigação, com limite de R$ 250 mil, prazo de 10 anos e carência de 5 anos.
Pronaf Adaptação Climática e Convivência com o Semiárido. Beneficiários dos grupos A, A/C e B acessam até R$ 25 mil para todas as finalidades da linha. Famílias com renda menor que R$ 150 mil, fora daqueles grupos, chegam a R$ 60 mil para máquinas, equipamentos e implementos. Investimentos em projetos de convivência com o Semiárido têm limite de R$ 45 mil.
Pronaf Produtivo Orientado. Para famílias com renda de até R$ 500 mil cujo empreendimento esteja nas regiões de atuação dos Fundos Constitucionais do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste. O financiamento vai de R$ 25 mil a R$ 60 mil, a 2% ao ano, prazo de 10 anos e carência de 3 anos, com assistência técnica incluída.
Quanto vale, em termos econômicos, um juro de 2% ao ano
Aqui entra a parte que raramente aparece nas matérias de serviço, e que muda a forma de olhar para essas taxas.
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano na reunião de 4 e 5 de agosto de 2026, no quarto corte consecutivo do ciclo, em decisão unânime. Mesmo depois de quatro cortes, o Banco Central classifica o patamar como restritivo. O Boletim Focus de 24 de agosto projeta a taxa em 13,75% ao fim do ano.
Compare a escada de juros disponível hoje na economia brasileira. O Pronaf cobra de 0,5% a 7,5% ao ano, conforme a linha e a finalidade. O Plano Safra da agricultura empresarial ficou entre 9% e 12,5% ao ano, segundo o Mapa, depois de reduções que levaram a linha de 14% para 12,5% e a de 10% para 9%. E a taxa básica da economia está em 14%.
Agora vamos calcular o juro real, que é o que sobra depois da inflação. O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,44% em julho de 2026, segundo o IBGE. Um custeio de Faixa I a 2% ao ano, dividido por essa inflação, resulta em uma taxa real negativa de aproximadamente 2,3% ao ano. Usando a projeção de IPCA do Focus para 2026, de 5,02%, o juro real fica em torno de 2,9% negativos.
Um juro real negativo significa que o valor devolvido ao banco, em poder de compra, é menor do que o valor tomado. O agricultor que contrata custeio de Faixa I e paga em dia devolve menos do que pegou, medido em mercadoria.
Por que uma taxa abaixo da Selic é possível
Bancos e cooperativas não emprestam a 2% porque captam a 2%. O crédito rural subsidiado se sustenta em dois mecanismos.
O primeiro é a equalização de taxas de juros, em que o Tesouro Nacional Cobre a diferença entre o custo de captação da instituição financeira e a taxa cobrada do produtor. É despesa orçamentária explícita, e o seu tamanho cresce quando a Selic sobe, motivo pelo qual o volume anunciado no Plano Safra está sempre condicionado ao espaço fiscal do ano.
O segundo é o direcionamento obrigatório de recursos, sobretudo da poupança rural e dos fundos constitucionais, em que uma fração dos depósitos precisa ser aplicada em crédito rural a taxas controladas. Nesse caso o custo não aparece no Orçamento, mas se distribui entre quem poupa e a alocação de crédito no restante da economia.
É por isso que a taxa que você paga não depende só da sua garantia e do seu histórico, mas do desenho da política e do resultado fiscal do ano.