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Pulgão-da-folha-do-trigo: quando iniciar o monitoramento após a emergência

Monitoramento deve começar logo nas primeiras folhas


Foto: Canva

Por Aline Merladete, com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo.

Os trigais, poderão ser atacados por diversos gêneros de pulgões em diferentes estádios de desenvolvimento, pulgão verde dos cereais (Schizaphis), Pulgão das folhas (Metopolophium e Rhopalosiphum) e Pulgão das espigas (Sitobion). Avaliações desde os estádios iniciais ajudam a identificar as primeiras colônias e dão ao produtor mais informações para decidir quando e como realizar o manejo das pragas.

Segundo Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, o pulgão-da-folha-do-trigo (Metopolophium dirhodum), causa maiores danos à cultura e deve ser monitorado poucos dias depois da emergência da cultura, quando as plantas apresentarem de uma a duas folhas completamente expandidas. A recomendação é não esperar o aparecimento de sintomas visíveis, como amarelecimento ou perda de vigor, para iniciar as avaliações na lavoura. 

A atenção desde cedo é importante porque o inseto pode colonizar o trigo ainda nos primeiros estádios. Nas principais áreas produtoras do Sul do Brasil, o período entre abril e dezembro compreende grande parte do ciclo da cultura, da emergência ao enchimento dos grãos.

Temperaturas amenas, muitas vezes entre 10 °C e 20 °C, e a presença de hospedeiros alternativos podem favorecer a multiplicação dos pulgões. Embora o pulgão-da-folha seja encontrado com frequência nas folhas superiores em fases mais avançadas, ele também pode ocupar folhas mais baixas e intermediárias quando a planta ainda está em desenvolvimento.

Sucção de seiva pode comprometer a planta

O pulgão-da-folha-do-trigo se alimenta da seiva do floema, tecido responsável pelo transporte de substâncias produzidas pela planta. Ao sugar essa seiva, o inseto retira compostos que seriam destinados ao desenvolvimento vegetativo e, posteriormente, ao enchimento dos grãos.

Em infestações intensas, podem ocorrer perda de vigor, amarelecimento, enrolamento e secamento das folhas. Nas fases iniciais, esse estresse pode prejudicar o estabelecimento das plantas e o perfilhamento.

Os danos também ganham importância nos estádios mais avançados. Quando folhas superiores e a folha bandeira são afetadas, há redução da área foliar funcional justamente no período de enchimento dos grãos.

Outro efeito da infestação é a produção de honeydew, um exsudato açucarado eliminado pelos pulgões. A substância pode favorecer o desenvolvimento de fumagina, formada por fungos escuros que recobrem a superfície das folhas e prejudicam ainda mais a área utilizada na fotossíntese.

Os pulgões também podem participar da transmissão de viroses. Destaque importante para o VENAC (vírus do nanismo amarelo da cevada), podendo reduzir os rendimentos de grãos em até 20%, caso os manejos e controles forem inadequados. O risco específico varia conforme a região, mas a presença dos insetos nos primeiros estádios aumenta a preocupação, que com uso de variedades suscetíveis poderá chegar a perdas de 80%.

Infestação precoce amplia os riscos

O tamanho dos prejuízos depende de diferentes fatores, como o estádio da cultura no início da infestação, a quantidade de pulgões, a duração do ataque, o vigor das plantas, as condições climáticas e a presença de inimigos naturais.

Quando a infestação começa logo após a emergência, as plantas podem apresentar menor número de perfilhos férteis e menor capacidade de enfrentar outros estresses, como déficit hídrico e doenças foliares.

A ocorrência precoce também aumenta a vulnerabilidade às viroses transmitidas por pulgões.

Já infestações elevadas entre o perfilhamento e o enchimento dos grãos podem afetar produtividade e qualidade, principalmente quando chegam à folha bandeira. Não há indicação de um percentual único de perda de produtividade provocado pela praga.

Frequência das avaliações muda ao longo do ciclo

Da emergência ao início do perfilhamento, inspeções semanais normalmente são adequadas em condições comuns de outono e inverno. Quando as temperaturas estão mais elevadas que o habitual ou existe histórico de alta pressão de pulgões, o intervalo pode ser reduzido para quatro a cinco dias. 

Do perfilhamento ao início do alongamento do colmo, a orientação é manter o acompanhamento semanal e ampliar a quantidade de plantas avaliadas conforme cresce a área foliar.

O engenheiro agrônomo, Ubirajara Fontoura, salienta que entre o emborrachamento e o início do enchimento dos grãos, as inspeções podem ser feitas a cada cinco a sete dias. A atenção nessa fase é importante para preservar as folhas superiores e a folha bandeira. Esses cuidados deverão ser intensificados em lavouras de regiões mais quentes, norte e oeste do Paraná, sul de Mato Grosso do Sul e no Brasil Central, onde as temperaturas médias nos estádios vegetativos, são mais altas.

O objetivo é acompanhar a evolução da população antes que os danos se tornem visíveis na lavoura.

Avaliação precisa representar o talhão

Para gerar informações úteis à tomada de decisão, o monitoramento precisa representar as condições da área.

A recomendação é dividir a propriedade em talhões relativamente homogêneos, considerando fatores como cultivar, data de semeadura, histórico de manejo e fertilidade. Em cada área, o caminhamento pode ser feito em zigue-zague ou em formato de “W”.

Avaliar somente as bordaduras deve ser evitado, já que a pressão de pulgões pode ser diferente no interior da lavoura.

As plantas observadas precisam estar distribuídas pelo talhão. A avaliação de dezenas de plantas é citada como referência técnica, mas não existe um número único definido para todas as situações. O importante é manter um padrão entre as avaliações e aumentar a amostragem quando houver maior variação dentro da área.

Nas fases iniciais, as folhas mais novas e próximas ao ápice merecem maior atenção. Com o desenvolvimento do trigo, a avaliação passa a se concentrar nas folhas superiores e na folha bandeira, sem abandonar as folhas intermediárias.

Também é recomendado registrar a porcentagem de plantas infestadas, a intensidade da infestação e a localização dos insetos na planta. Comparar os registros entre diferentes datas permite acompanhar se a população está aumentando ou diminuindo.

Encontrar pulgões não significa aplicar inseticida

A presença de alguns pulgões na lavoura não determina automaticamente a necessidade de controle químico.

Fontoura diz que, a decisão envolve uma combinação de fatores, entre eles o estádio de desenvolvimento do trigo, a densidade dos insetos, as condições climáticas, a presença de inimigos naturais e o histórico de viroses na área, ou seja, considerando-se as premissas básicas do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que reduzira despesas (economia), danos  ao ambiente (ambiental) e prejuízos à saúde humana (social).

A população pode ser medida pelo número de pulgões por planta ou folha ou pelo percentual de plantas infestadas. Os referenciais utilizados para orientar uma intervenção podem variar de uma região para outra.

Não existe uma indicação única de quantidade de pulgões por planta ou percentual de infestação aplicável a todas as situações. Por isso, a avaliação deve ser combinada às recomendações técnicas regionais e à assistência agronômica.

Inimigos naturais ajudam no controle

O acompanhamento da lavoura também deve observar a presença de organismos capazes de controlar naturalmente a praga. Joaninhas, crisopídeos, sirfídeos, parasitoides como Aphidius spp. e fungos entomopatogênicos podem reduzir o crescimento das populações de pulgões.

Quando esses agentes apresentam elevada atividade, podem retardar o avanço da infestação e, em algumas situações, até dispensar a necessidade de controle químico.

A preservação desses organismos é uma das razões para evitar aplicações indiscriminadas de inseticidas de amplo espectro. Além de eliminar os pulgões, esses produtos podem atingir agentes de controle biológico e favorecer o ressurgimento da praga.

Manejo começa antes da aplicação

O monitoramento é uma das etapas do manejo integrado do pulgão-da-folha-do-trigo. Outras medidas podem contribuir para diminuir a pressão da praga ao longo do ciclo.

Uma delas é utilizar cultivares adaptadas e vigorosas. Plantas com bom desenvolvimento inicial e nutrição adequada apresentam maior capacidade de tolerar ataques moderados.

A adubação nitrogenada também exige atenção. O excesso de nitrogênio pode favorecer o aumento da população de pulgões ao elevar a presença de compostos nitrogenados na seiva. A adubação deve seguir critérios técnicos, análise de solo e a meta de produtividade estabelecida para a lavoura.

Outro cuidado é controlar plantas voluntárias de trigo, conhecidas como tigueras, e outras gramíneas espontâneas. Elas podem atuar como uma “ponte verde”,

Respeitar a época recomendada de semeadura e preservar inimigos naturais são outras medidas que ajudam a compor a estratégia de manejo.

Controle químico exige critério e segurança

Quando as avaliações indicarem necessidade de intervenção, devem ser utilizados somente produtos registrados no MAPA para trigo e para o controle de pulgões, sempre respeitando as informações de rótulo e bula. Utilizar Inseticidas de baixo efeito tóxico aos inimigos naturais, entre eles, as larvas e adultos de joaninhas, microvespas, larvas de moscas e diversas espécies de fungos. Os fungos, são favorecidos por temperaturas e umidade relativa do ar elevadas.

Também é necessário observar o intervalo de segurança, as condições climáticas durante a aplicação e as técnicas corretas de volume de calda e cobertura, com atenção especial às folhas superiores.

A alternância de ingredientes ativos com diferentes modos de ação ao longo das safras, conforme orientação técnica, contribui para reduzir o risco de seleção de populações resistentes.

O controle químico não deve ser adotado como única estratégia. A aplicação precisa estar integrada ao monitoramento e às demais práticas de manejo.

A segurança também faz parte do processo. O uso de equipamentos de proteção individual é necessário durante o preparo da calda, a aplicação e a lavagem dos equipamentos. Produtos fitossanitários devem ser armazenados de maneira segura e as embalagens vazias precisam receber destinação adequada.

Começar as avaliações quando o trigo apresenta uma a duas folhas completamente expandidas permite acompanhar a presença dos pulgões desde os primeiros estádios da cultura.

Ao longo do ciclo, o produtor pode registrar a evolução da população, observar a presença de inimigos naturais e considerar as condições climáticas antes de definir qualquer intervenção.

O acompanhamento, é premissa obrigatória do MIP, pois ajuda a evitar dois extremos: agir somente depois que os danos já ocorreram ou realizar aplicações químicas sem necessidade.

Integrado às demais práticas de manejo e à orientação de um engenheiro agrônomo, o monitoramento funciona como ferramenta para ajustar a estratégia fitossanitária às condições observadas em cada lavoura.
 

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