Ramulose: como a escolha da cultivar influencia o manejo da lavoura
Resistência começa no melhoramento genético
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Resistência genética deve ser considerada junto ao histórico da área, clima, janela de plantio e outras práticas de manejo fitossanitário.
A escolha da cultivar pode definir parte importante da estratégia de prevenção da ramulose no algodoeiro. Causada pelo fungo Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides, a doença pode provocar alterações no crescimento da planta, queda de estruturas reprodutivas e redução do potencial produtivo, especialmente em condições de alta umidade e presença do patógeno.
Entre os sintomas estão encurtamento dos entrenós, superbrotamento e redução da área foliar. Em situações mais severas, também podem ocorrer redução do número de capulhos e do peso médio dessas estruturas, além de impacto sobre a qualidade da fibra.
O risco aumenta quando uma cultivar suscetível é cultivada em uma área com presença de inóculo e sob condições climáticas favoráveis, como chuva frequente, elevada umidade relativa e temperaturas amenas a moderadas.
Resistência começa no melhoramento genético
A resistência à ramulose é resultado do melhoramento genético, que busca reunir características de proteção contra a doença com atributos como produtividade, qualidade de fibra e arquitetura de planta.
Existem dois tipos principais de resistência. A qualitativa, ou vertical, envolve genes específicos e pode oferecer elevada proteção, mas sua resposta pode variar conforme os isolados do fungo.
Já a resistência quantitativa, também chamada horizontal ou parcial, envolve vários genes e reduz a intensidade da doença ao longo do tempo. Essa característica pode estar relacionada a menor severidade dos sintomas e maior estabilidade em diferentes ambientes.
As cultivares são classificadas de acordo com sua reação à doença. As categorias podem incluir suscetível, moderadamente suscetível, moderadamente resistente e resistente. Essa avaliação é realizada por meio de ensaios sob pressão de ramulose e acompanhamento da severidade dos sintomas em diferentes fases de desenvolvimento.
Cultivar suscetível aumenta o risco
Em áreas com histórico de ramulose, a escolha de uma cultivar com baixa resistência pode aumentar a severidade da doença.
Plantas mais afetadas podem apresentar encurtamento acentuado dos ramos, abortamento de estruturas reprodutivas e redução da área foliar funcional. O controle químico também pode precisar começar mais cedo, com menores intervalos entre tratamentos.
Outro efeito é o aumento da pressão de inóculo. Plantas severamente doentes podem produzir maior quantidade de estruturas do fungo, que permanecem em restos culturais e podem contribuir para a presença do patógeno em ciclos seguintes.
Por isso, a resistência genética ganha importância não apenas durante a safra atual, mas também dentro de uma estratégia de manejo contínuo da área.
Escolha não deve considerar apenas resistência
Embora a reação à ramulose seja importante, a decisão sobre a cultivar também deve considerar adaptação ao ambiente, potencial produtivo, qualidade da fibra e exigências de manejo.
Resultados obtidos em diferentes locais e safras ajudam a avaliar a estabilidade do comportamento das cultivares. Em áreas com histórico da doença ou com clima favorável, a preferência deve recair sobre aquelas classificadas como resistentes ou moderadamente resistentes.
O histórico da propriedade também entra nessa avaliação. Quando a ramulose já ocorreu com alta severidade, a resistência genética deve receber ainda mais atenção e ser combinada com rotação de culturas e manejo de restos vegetais.
Janela de plantio interfere no risco
A época de implantação da lavoura pode alterar o período de exposição da planta às condições favoráveis ao fungo.
Janelas de plantio que fazem as fases vegetativas e iniciais de desenvolvimento coincidirem com períodos mais chuvosos e úmidos aumentam a preocupação com a doença. Nessas situações, a escolha de cultivares com melhor nível de resistência ganha maior importância.
A diversificação também pode fazer parte da estratégia. Concentrar toda a propriedade em uma única cultivar aumenta a dependência de um único padrão de resistência.
Trabalhar com duas ou mais cultivares com boa reação pode diminuir o risco de uma mudança na agressividade do patógeno afetar toda a área de maneira semelhante.
Arquitetura da planta também merece atenção
O comportamento da doença não depende apenas da genética de resistência. Características da arquitetura das plantas e do sistema de cultivo também influenciam o ambiente dentro da lavoura.
Cultivares com arquitetura mais fechada, associadas a elevada densidade de plantas, podem formar um dossel com maior retenção de umidade. Esse ambiente pode favorecer a ramulose.
O planejamento deve considerar população de plantas, adubação e uso de reguladores de crescimento para evitar excesso de enfolhamento e favorecer a circulação de ar.
Resistência não substitui monitoramento
Mesmo uma cultivar classificada como resistente precisa ser acompanhada durante todo o ciclo.
A resistência genética pode contribuir para menor incidência inicial, sintomas menos intensos e avanço mais lento da doença. Com menor velocidade de desenvolvimento, pode haver maior flexibilidade no manejo e, em determinadas situações, redução da necessidade total de tratamentos com fungicidas.
Antes do plantio, a estratégia pode incluir cultivares resistentes, rotação de culturas, manejo de restos vegetais e uso de sementes certificadas com tratamento adequado.
Durante o período vegetativo, o monitoramento deve buscar sintomas iniciais. A vistoria continua durante o crescimento, florescimento e enchimento de capulhos. Mesmo quando a doença ocorre em baixa severidade, o acompanhamento permite avaliar o comportamento da resistência no campo.
Resistência tem limites
Cultivares resistentes reduzem o risco, mas não impedem completamente a ocorrência de ramulose.
Condições climáticas muito favoráveis e alta quantidade de inóculo podem provocar sintomas mesmo em plantas resistentes. Além disso, a disponibilidade de cultivares que reúnam alta resistência e todas as demais características agronômicas desejáveis pode ser limitada.
A variabilidade do fungo também exige atenção. Mudanças ao longo do tempo podem tornar necessária a atualização da escolha de cultivares com base em novos resultados de pesquisa e no comportamento observado nas áreas de produção.
Para o produtor, a prevenção começa antes da semeadura. Conhecer o histórico da área, verificar a reação das cultivares disponíveis, considerar a janela de plantio e evitar a dependência de um único material genético são medidas que ajudam a diminuir a exposição ao risco.
A resistência genética apresenta melhores resultados quando faz parte de um manejo integrado, com rotação de culturas, manejo de restos vegetais, ajuste da população de plantas e acompanhamento contínuo da lavoura.