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Renovar o cafezal sem planejamento pode custar caro

Cafeicultor perde produtividade ao ignorar manejo de nematoides


Foto: Pixabay

O nematoide das galhas é um dos maiores inimigos do café no Brasil. Esse verme microscópico vive no solo, ataca as raízes da planta e pode reduzir bastante a produção, além de encurtar a vida útil da lavoura. Segundo informações técnicas do setor, o produtor que pensa em renovar o cafezal precisa se planejar com antecedência: fazer análise do solo, trocar de cultura por um tempo e cuidar bem da área antes de plantar café de novo. Essas medidas ajudam a diminuir a quantidade do nematoide na terra e dão mais segurança para o novo plantio.

O que é o nematoide das galhas e por que ele prejudica tanto o café

O nematoide das galhas é um verme tão pequeno que só é visto no microscópio. Ele vive no solo e ataca as raízes do cafeeiro. A fêmea entra na raiz e faz a planta criar pequenos "caroços", chamados de galhas. Dentro desses caroços, ela põe uma grande quantidade de ovos. Quando o tempo está quente e úmido, esses ovos chocam e os novos vermes vão atrás de outras raízes para continuar o ataque, e assim o ciclo nunca para.

No café, as espécies mais comuns desse nematoide são conhecidas pelos nomes técnicos Meloidogyne incognita, M. paranaensis e M. exigua. Elas causam perdas grandes de produção. O problema piora porque cada tipo de nematoide tem suas plantas preferidas para atacar, e os ovos conseguem sobreviver no solo por muitos meses — às vezes mais de um ano — escondidos em raízes de mato. Esse verme também se espalha com facilidade: vai de uma área para outra grudado em máquinas, em mudas contaminadas ou levado pela enxurrada. Como o café fica plantado na mesma terra por muitos anos, o solo acaba "alimentando" o nematoide o tempo todo.

Os sinais que o produtor deve ficar de olho

Nem sempre o problema aparece igual em toda a lavoura, e por isso pode ser confundido com outras doenças. Quando o produtor arranca um pé de café suspeito e olha as raízes, costuma encontrar caroços (galhas) de tamanhos variados, raízes podres ou muito curtas, e poucas raízes finas nascendo.

Já olhando a planta de cima, os sinais são: o pé cresce pouco e fica fino, as folhas ficam menores e amareladas e caem antes da hora, a planta sofre com a seca mesmo em anos de chuva normal, a florada e a produção dos grãos ficam desiguais, e a colheita cai bastante.

Na prática, nas áreas mais atacadas pelo nematoide, o produtor precisa trocar a lavoura mais cedo do que o normal, o que encarece o custo de cada saca de café produzida. A planta com raiz doente também aproveita menos a água e o adubo que recebe.

Por que não dá para simplesmente arrancar o café velho e plantar de novo

Em áreas que já têm histórico de nematoide, arrancar o café velho e plantar mudas novas na sequência, sem cuidar do solo antes, costuma manter ou até piorar o problema. Isso acontece porque o nematoide se multiplica muito rápido quando tem raiz para atacar, e em pouco tempo a quantidade dele no solo volta a ficar alta demais para uma lavoura dar lucro.

Por isso, o período entre arrancar o café velho e plantar o novo é a melhor chance que o produtor tem para reduzir esse verme no solo. Plantar outras culturas que o nematoide não ataca, deixar a área descansando de forma cuidada e usar adubos verdes nesse intervalo funciona como uma espécie de "limpeza" da terra antes do novo plantio.

Esse planejamento deve começar antes mesmo de arrancar o café antigo. Três pontos ajudam na decisão: primeiro, fazer uma análise de solo e raiz em laboratório para confirmar se há nematoide e qual tipo é; segundo, olhar o histórico da área — se a lavoura sempre teve sintomas e queda de produção, vai precisar de mais tempo de descanso e troca de cultura; terceiro, decidir se a área vai continuar sendo usada para café no futuro, porque, se a resposta for sim, esse cuidado com o solo se torna ainda mais importante.

Pousio dirigido x área largada: qual a diferença

Muita gente acha que "descansar" a terra é só deixá-la parada, sem fazer nada. Só que, nesse tipo de descanso largado, o mato cresce sozinho e descontrolado — e boa parte desse mato também serve de alimento para o nematoide. Ou seja, mesmo sem o café, o verme continua se multiplicando.

Já o pousio dirigido é diferente: é um período de descanso, mas com o produtor cuidando da área de forma ativa. O objetivo é reduzir a quantidade de nematoide por falta de comida, melhorar a terra com plantas escolhidas ou palha, e evitar que o mato espalhe sementes novas. Na prática, isso significa plantar coberturas que não servem de alimento para o nematoide, arrancar ou controlar o mato que é hospedeiro dele, e visitar a área com frequência para não deixar que ela seja tomada por plantas ruins. Assim, esse período deixa de ser um "tempo perdido" e passa a fazer parte do tratamento da terra.

Como planejar os próximos 18 a 24 meses antes de plantar café de novo

Não existe um tempo fixo de descanso que sirva para todo mundo, porque depende de quanto nematoide tem na área, do tipo dele, do clima e de quão bem o produtor consegue controlar o mato. Mesmo assim, alguns números ajudam a entender: um descanso curto, de menos de um ano, costuma reduzir pouco o problema quando a infestação é alta. Já um período entre 18 e 24 meses, com culturas que o nematoide não ataca e bom controle de mato, costuma trazer resultados bem melhores. Em áreas que sempre tiveram muito nematoide, pode ser necessário esperar mais de um ciclo agrícola antes de voltar a plantar café.

Por isso, quando a infestação é alta, o mais comum é planejar pelo menos um ano completo de outras culturas no lugar do café, muitas vezes seguido de mais um ano de adubo verde e pousio dirigido, antes de plantar o cafezal novo.

O passo a passo recomendado é: primeiro, fazer a análise de solo e raiz para saber o tipo e o tamanho do problema; segundo, decidir quanto tempo dá para esperar antes do novo plantio; terceiro, escolher quais culturas e adubos verdes plantar, de acordo com o tipo de nematoide encontrado; quarto, planejar o pousio dirigido, com plantio de cobertura ou palha e controle rígido do mato; quinto, acompanhar a área de perto, cuidando do mato que nascer sozinho; e, por último, fazer uma nova análise de solo antes de plantar o café, para conferir se o nematoide realmente diminuiu e decidir se vale usar mudas mais resistentes.
O que deve ganhar mais espaço no cuidado com o café nos próximos anos

A troca de cultura e o pousio dirigido funcionam melhor quando fazem parte de um cuidado mais completo com a lavoura, que junta análise de solo, adubo verde, mudas saudáveis e acompanhamento técnico constante. Outras práticas importantes são: comprar mudas de viveiros confiáveis e livres de nematoide; usar, quando possível, variedades de café mais resistentes a esse problema; corrigir a acidez e a fertilidade do solo para a raiz crescer com mais força; cuidar bem da irrigação e da drenagem, sem encharcar nem deixar faltar água; usar produtos para controle do nematoide apenas como complemento, sempre seguindo orientação de um agrônomo; e lavar bem máquinas e equipamentos antes de passar de uma área contaminada para outra, para não espalhar o problema.

Esse planejamento também precisa respeitar a legislação ambiental, o uso correto de equipamentos de proteção em qualquer aplicação de produtos, e contar com o acompanhamento de um engenheiro ou engenheira agrônoma para interpretar os resultados das análises e ajustar o plano de manejo. Somando essas práticas, o produtor aumenta bastante a chance de manter o nematoide sob controle e garantir uma produção de café saudável por mais tempo.

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