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Safra recorde, comercialização travada: por que o produtor gaúcho não vende sua soja

Incertezas mantêm o volume comercializado no Sul do Brasil abaixo de 35%


Foto: Seane Lennon

O Rio Grande do Sul registra uma das melhores safras de soja de sua história — estimada em 21 milhões de toneladas, 40% acima do ciclo anterior —, mas o produtor não está vendendo. Segundo Antônio Sartori, diretor da Brasoja, a comercialização estadual não alcança 35% do volume colhido, bem abaixo da média nacional, que já supera 65%. O diagnóstico foi apresentado durante entrevista à Rádio Guaíba, em Porto Alegre, na manhã de quarta-feira (03.06).

Produzir mais e vender menos. Esse é o cenário que Sartori descreve ao avaliar o comportamento do mercado gaúcho de soja neste momento. Para ele, o problema não é falta de produto — é excesso de incerteza. "O produtor tem soja em mãos, mas o preço está baixo. Ele não sabe quanto vai pagar pelo fertilizante, não sabe se vai conseguir o fertilizante quando precisa, a um preço que viabilize", afirmou Sartori. 

"Há muita incerteza e muita preocupação."

A esse cenário somam-se os preços de combustíveis, que segundo o diretor da Brasoja estão "bem mais altos do que estavam em fevereiro deste ano", e a taxa de câmbio, que ele avalia estar "supervalorizada, próxima de R$ 5 por dólar". Para Sartori, há mais chances de alta do câmbio do que de queda — o que, na prática, incentiva o produtor a segurar o grão na expectativa de uma conversão mais favorável.

El Niño costeiro no radar: o que diz o governo peruano

Para subsidiar decisões do setor, Sartori e sua equipe viajaram a Lima, no Peru, onde obtiveram diretamente dos dois principais órgãos climáticos do governo peruano o relatório mais atualizado do ENFEN — Estudio Nacional del Fenómeno El Niño.

O documento, publicado em 29 de maio de 2026 indica que o El Niño costeiro — restrito à faixa litorânea do Pacífico peruano — deve se prolongar pelo menos até fevereiro de 2027, com probabilidade maior de magnitude moderada.

Além do El Niño costeiro, o ENFEN prevê o desenvolvimento do fenômeno no Pacífico Equatorial Central (regiões Niño 3 e 4) entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. O cenário mais provável é de magnitude fraca, mas o órgão não descarta que o evento alcance intensidade moderada no final do ano, especialmente entre novembro e dezembro.

Para o trimestre de junho a agosto, o comunicado projeta chuvas dentro da normalidade na costa norte peruana, com temperaturas do ar acima dos valores climatológicos ao longo do litoral. No campo hidrológico, o ENFEN prevê predominância de vazões normais na região do Pacífico.

O relatório aponta ainda reflexos sobre os recursos pesqueiros: nas próximas semanas, a intensificação das condições quentes deve continuar modificando o habitat da anchoveta, com deslocamento para áreas mais profundas e em direção ao sul.

O principal ponto de atenção do comunicado está na preparação para a próxima temporada de chuvas, prevista entre setembro de 2026 e abril de 2027. O ENFEN recomenda que tomadores de decisão considerem cenários de risco baseados em avisos meteorológicos e prognósticos sazonais, adotando medidas de redução de risco e preparação para desastres. A próxima atualização oficial está prevista para 15 de junho de 2026.

Informação confiável como estratégia

Sartori defende que a desinformação climática está agravando a paralisia do produtor. Segundo ele, circularam nas redes sociais previsões de um El Niño catastrófico comparável ao de 1870 — evento que, à época, teria causado a morte de 4% da população mundial.

Para o diretor da Brasoja, essa comparação não tem sustentação técnica. "Em 1870 não havia a estrutura de armazenagem e de silos que temos hoje, não havia produção em confinamento de gado, frango e suínos, nem aquicultura como a que temos hoje. Isso não vai acontecer", afirmou.

Com esse argumento, Sartori tem compartilhado publicamente os relatórios oficiais do ENFEN, disponibilizando o documento para a imprensa, entidades do setor e produtores. A iniciativa, segundo ele, gerou mais de 7 mil visualizações em 30 dias em seu perfil no Instagram.

A próxima apresentação do relatório está programada para a reunião da Federasul, em Porto Alegre, onde o material será distribuído para toda a mídia presente.

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