Safrinha com personalidade própria
A safrinha, que ganhou este nome porque não era importante no passado recente, já representa 34,55% da área de milho e 33,19% da colheita
José Carlos Cruz e Israel Alexandre Pereira Filho, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo
Milho safrinha é o milho de sequeiro, semeado de janeiro a abril, após a cultura de verão, que geralmente é a soja precoce na região Centro- Sul brasileira. O termo safrinha tem origem nas baixas produtividades dos primeiros cultivos no estado do Paraná, na década de 1970, que geravam um volume muito pequeno de grãos comparado à safra de verão. Embora o termo safrinha seja pejorativo, não correspondendo ao excelente nível atual de produtividade de parte das lavouras e à sua importância no cenário nacional, o mesmo está consagrado pelo uso e caracteriza um sistema de produção peculiar. De acordo com o levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de novembro de 2009, a safrinha de milho confirmou naquele ano sua importância para o Brasil com a produção recorde de 16,721 milhões de toneladas, o que corresponde a cerca de 32,8% da safra total, estimada em 50,980 milhões de toneladas de grãos.
O milho safrinha é produzido basicamente nos estados do Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, Minas Gerais. O plantio normalmente ocorre após a colheita da soja precoce e apresenta, como vantagens, a possibilidade do uso mais racional dos fatores de produção (terra, máquinas, equipamentos e mão de obra) em período ocioso do ano, um preço geralmente maior do cereal na safrinha do que na safra normal, menor custo de produção, além da falta de alternativas mais seguras e rentáveis para a época.
Nos últimos anos, verifica-se que alguns fatores têm induzido o produtor a ampliar a área de cultivo da soja, causando uma redução da área de milho na safra: menor custo por hectare comparativamente ao do milho, o principal concorrente; baixos preços do milho; maior liquidez; cultura mais resistente a estiagem; e cultivo menos oneroso que o do milho. Por outro lado, tem-se verificado um aumento da área do milho safrinha. Um fator que tem contribuído para o aumento da área de milho safrinha é a adoção do sistema de plantio direto na palhada da soja, que permite redução do tempo entre a colheita da lavoura de verão e a semeadura do milho safrinha.
1/3 da área
A importância da safrinha pode ser facilmente constatada pelos números: 34,55% da área de milho da última safra foi plantada na safrinha, correspondendo a 33,19% de toda a produção colhida. Na região Centro-Oeste, a área do milho safrinha representa 82,88% de todo o milho plantado, correspondendo a 77,35% da produção colhida na região. Lá, houve um decréscimo de 28,3 % na área de milho plantada em 2009/10, comparada com a safra anterior, sendo que no Mato Grosso essa redução atingiu 35%.
A safrinha é especialmente importante nos seguintes estados: no Mato Grosso, em 2009, foi plantada em 1,509 milhão de hectares, o que corresponde a 92% de todo o milho plantado no estado, considerandosafra (2008/09) e safrinha (2009); no Mato Grosso do Sul, foram plantados na safrinha 853,8 mil hectares, ou 91% de todo o milho plantado no estado (safra mais safrinha). Por outro lado, os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul plantaram, na safra 2009/10, 72 e 26,6 vezes mais soja do que milho, demonstrando que, nessa região, predomina uma enorme monocultura da soja, que não é sustentável e que deverá ser mudada ao longo dos anos à medida que houver maior demanda para o milho na região ou que o escoamento do milho da região se torne mais econômico.
Por ser plantado no final da época normal, o milho safrinha tem sua produtividade bastante afetada pelo regime de chuvas e por fortes limitações de radiação solar e temperatura na fase final de seu ciclo. A época de plantio é, pois, o principal fator determinante do nível tecnológico da cultura na safrinha, considerando que, à medida que se atrasa o plantio, há uma acentuada queda no potencial produtivo e um aumento substancial do risco de perdas totais ou parciais da lavoura. Associada à época de plantio o mais cedo possível, toda estratégia de escolha e manejo do solo deve levar em consideração propiciar maior quantidade de água disponível para as plantas. Nesse caso, sempre que possível, deve-se optar pelo sistema de plantio direto, pois oferece maior rapidez nas operações, principalmente no plantio realizado simultaneamente à colheita, permitindo o plantio o mais cedo possível. Além disso, um sistema de plantio direto, com adequada cobertura da superfície do solo, permitirá o aumento da infiltração da água no solo e a redução da evaporação, com consequente aumento no teor de água disponível para as plantas. Em algumas áreas de plantio direto, já se constatou aumento do teor de matéria orgânica do solo, afetando a curva de retenção de umidade e aumentando ainda mais o teor de umidade para as plantas. Por outro lado, o milho safrinha, além da produção de grãos, irá produzir a palhada necessária para a maior efetividade do sistema plantio direto, dando-lhe maior sustentabilidade.
Mesmo nível tecnológico
Hoje, nas principais regiões produtoras de milho safrinha, o nível tecnológico utilizado nos plantios mais cedo é semelhante ao nível tecnológico utilizado na safra normal. Como ocorre na safra, hoje, na safrinha, os híbridos simples, que têm maior potencial produtivo, são os mais plantados. À medida que se atrasa o plantio da safrinha, aumentando os riscos climáticos, então o agricultor reduz o nível tecnológico e ocorre um aumento do plantio de milhos híbridos duplos de menor custo. Verifica-se, ainda, uma maior preocupação de plantio de cultivares mais precoces na safrinha, para escapar de provável déficit hídrico no final do ciclo. Pela mesma razão, a densidade de plantio normalmente é menor na safrinha. Geralmente, a densidade de plantio na safrinha é cerca de 20% menor do que na safra.
Também o controle de pragas e doenças deverá ser maior na safrinha quando esses problemas geralmente são mais sérios. Por outro lado, o controle de plantas daninhas normalmente é mais fácil. Entretanto, deve-se tomar cuidado na escolha dos herbicidas utilizados na safra da soja no verão para evitar o efeito fitotóxico desses herbicidas na cultura da safrinha. Mais recentemente, tem aumentado, com sucesso, a utilização do consórcio de milho com braquiária na safrinha para a produção de palha, melhorando a eficiência do sistema de plantio direto, especialmente na utilização da água disponível no solo ou, ainda, podendo ser utilizado como pastejo na entresafra.
Gerenciamento
Hoje, o planejamento do plantio da safrinha começa com a escolha da cultivar da soja a ser plantada no verão, levando-se em consideração seu ciclo (geralmente superprecoce), a época de plantio e o tipo de solo (normalmente, o que apresenta maior retenção de água disponível para as plantas). Na realidade, o milho safrinha não é apenas um plantio isolado e, sim, parte de um sistema integrado, que necessita ser gerenciado de forma correta, com um planejamento técnico que envolva um sistema de rotação de culturas tanto de verão quanto de inverno e com práticas de manejo integrado que levem em consideração todas suas características. É importante salientar que, à medida que se atrasa a época do plantio, há um aumento na adversidade climática e, normalmente, o agricultor ajusta seu sistema de produção, reduzindo a quantidade de insumo aplicada e utilizando cultivares de menor O milho safrinha é custo, geralmente híbridos duplos. (A Granja – Porto Alegre/ RS - Fevereiro de 2010)