Saída para biocombustível está nas áreas degradadas

Agronegócio

Saída para biocombustível está nas áreas degradadas

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O Brasil se encontra numa posição privilegiada em termos de disponibilidades de terras para a produção de biocombustíveis, e a produção nacional pode ser ampliada para áreas degradadas por pastagens. É o que acredita o peruano Segundo Urquiaga, pesquisador da Embrapa e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que esteve em Fortaleza, no começo de agosto, participando do XXXIII Congresso Brasileiro de Ciência do Solo

O que falta ao Brasil para que a produção de biocombustíveis seja realmente sustentável?

Biocombustível é um termo genérico e se refere a diversos materiais de origem biológica com possibilidade de uso como fonte de energia. Seja sólido, de cuja queima se obtém energia calorífica útil em termoelétricas para produzir energia elétrica, ou diretamente na produção de cerâmica vermelha. Entre os biocombustíveis líquidos, temos o álcool de cana-de-açúcar e o biodiesel de diferentes óleos vegetais e gorduras. É fácil obter fontes de energia renovável. O problema esta na sustentabilidade. Em algumas situações, uma unidade de energia alternativa, ou contida no biocombustível, pode demandar mais energia fóssil para sua produção, e isso é grave. Qualquer programa de produção de energia renovável somente será sustentável se o ganho energético contido no bicombustível for significativamente maior do que toda a energia fóssil investida. No mundo, somente o Brasil possui o maior programa de produção sustentável de biocombustível (álcool de cana e biodiesel de óleo de soja). No caso do álcool, são produzidas 9,3 unidades de energia renovável por cada unidade de energia fóssil investida, e com significativo efeito favorável na mitigação do efeito estufa. Nas demais culturas precisa-se ainda de pesquisa para aprimorar o balanço energético.

Há um tipo de oleaginosa mais promissor ou se deve investir na diversificação das culturas?

No País, existem diversas espécies vegetais com potencial energético, mas as leguminosas oleaginosas com alta eficiência de obter nitrogênio do ar para uso como nutriente oferecem as melhores perspectivas. A economia em fertilizantes nitrogenados promovida pelo processo de fixação biológica de nitrogênio do ar nas leguminosas influi favoravelmente para a economia de energia fóssil no processo de produção agrícola. Temos o exemplo da cultura de soja, que produz no Brasil cerca de 12 milhões de toneladas de óleo sem consumo de fertilizante nitrogenado. No caso de culturas não leguminosas, que demandam altos níveis de fertilizante nitrogenado, o ganho energético é geralmente baixo. As outras culturas oleaginosas anuais, como mamona e pinhão manso, cuja nutrição nitrogenada depende da adubação, ainda não têm alcançado o nível de sustentabilidade desejado.

O senhor acredita que a atual forma de produção de biocombustíveis compromete florestas nativas e a produção de alimentos?

Esta é uma boa pergunta. Qualquer programa bioenergético sustentável pode estabelecer-se sem comprometer as florestas nativas e a produção de alimentos, muito diferente de outros países com limitada disponibilidade de terras. Temos no Brasil mais de 230 milhões de hectares de terras sob pastagens, das quais aproximadamente cerca de 120 milhões de hectares estão cobertas com pastagens degradadas. Essas áreas estão disponíveis, não apenas para as culturas energéticas, senão também para pelo menos triplicar a área cultivada com grãos ou alimentos. Não podemos esquecer que, na pecuária, existem tecnologias para aumentar a produtividade e evitar a degradação.

Qual é a sua avaliação sobre o atual modelo de agronegócio brasileiro?

O agronegócio brasileiro tem estado baseado principalmente em commodities de poucos produtos agrícolas, como soja, suco de laranja e carne; sendo que a expansão destas culturas e pastagens ocorreu de forma desenfreada, comprometendo o meio ambiente pelo desmatamento. Hoje, graças à pressão da sociedade e dos países importadores, o componente ambiental está ocupando o espaço devido. Por isso acredita-se que o agronegócio brasileiro fique mais civilizado. É notória a falta de incentivo para reforçar o agronegócio interno, envolvendo a agricultura familiar, que responde por mais de 70 % da produção de alimento para o povo brasileiro.

A humanidade superou a revolução verde em busca de um modelo mais sustentável para garantir o abastecimento?

A revolução verde, baseada no melhoramento genético de plantas e no uso de fertilizantes, tem sido muitas vezes inadequadamente entendida. Salvou da morte por fome a mais de 50 milhões de pessoas no mundo, especialmente na Ásia, nos anos 60. No Brasil, deu suporte para os cientistas descobrirem o potencial produtivo dos solos do Cerrado, que hoje é um grande suporte para a produção agrícola do País. É claro que precisamos corrigir as deficiências e aprimorar. Solos extremamente pobres em nutrientes, como são a maioria dos solos tropicais, não são adequadamente produtivos pela falta de adubação. Desconhecer isso, no mínimo, é uma posição irresponsável. Precisamos racionalizar e usar de maneira eficiente todos os insumos agrícolas. É hora de otimizar tudo, sem esquecer os cuidados com o meio ambiente. Sistemas agrícolas sustentáveis dependem da pesquisa e da adequada aplicação.

Há chance de crescimento na produtividade sem aumento da dependência de agroquímicos?

Sim. Muito dos insumos agrícolas empregados atualmente na agricultura vêm sendo aplicados em excesso ou de forma irracional, o que tem dado uma falsa idéia da dependência da nossa agricultura de agroquímicos. Precisamos da disponibilidade de tecnologias que permitam otimizar o uso dos insumos agrícolas de forma eficiente e com mínimo impacto ambiental. Deve ficar claro também que, para nossas condições de solos pobres e ácidos, é praticamente impossível produzir alimentos agrícolas sem depender dos fertilizantes e de produtos sintéticos controladores de pragas e doenças. China e Coréia, países de alto consumo de agroquímicos, estão incentivando a pesquisa para desenvolver tecnologias microbiológicas que permitam otimizar a eficiência de insumos agrícolas para diminuir seu uso. No caso do Brasil, o melhor exemplo da eficiência microbiológica está na cultura da soja, onde se produz mais de 60 milhões anuais de toneladas de grãos ou alimentos sem uso de fertilizante nitrogenado. Precisamos de incentivo à pesquisa na área da microbiologia. Assim, é possível crescimento na produtividade sem aumentar a dependência por agroquímicos.

E a produção orgânica? É realmente promissora para o setor primário da economia?

Os princípios básicos que regem a produção orgânica de alimentos são muito bons. Quem não gostaria de ter disponíveis alimentos produzidos da forma mais natural possível? O problema está na dificuldade de conseguir insumos orgânicos, como esterco, para grandes extensões. Hoje, é possível produzir alimentos orgânicos, mas a alto custo, proibitivo para pessoas de baixos ingressos. Está cada vez mais claro que em solos pobres, como os nossos, é difícil a produção de alimentos orgânicos, mas todo esforço é válido para utilizar de forma eficiente várias das técnicas baseadas no princípio da agricultura orgânica nos sistemas de produção agrícola, como a otimização da contribuição da fixação biológica de nitrogênio, que, pela adubação verde, em rotação de cultivos, pode suprir a demanda ou diminuir a necessidade do uso de fertilizantes nitrogenados.

Qual é a estratégia adequada para lidar com a diversidade brasileira sem comprometer a fertilidade? E para combater o processo de desertificação?

É necessária a mínima ou nula perturbação do solo, como estabelece o sistema plantio direto. Este sistema permite cobrir o solo com os resíduos de colheita, diminuindo as perdas de solo por erosão. A eliminação da queima contribui muito para preservação da biodiversidade microbiológica do solo. Este sistema, com adequada rotação de culturas, incluindo leguminosas fixadoras de nitrogênio do ar, contribui para melhorar a fertilidade do solo, preservando e/ou aumentando a matéria orgânica. Quanto à desertificação, uma das técnicas de destaque é o reflorestamento com leguminosas arbó-reas tolerantes ao estresse hídrico e eliminar a queima.

Em que nível a pesquisa científica tem contribuído para melhorar a produtividade no Brasil?

Somente a pesquisa agrícola tem permitido dar suporte para os recordes de produtividade que o País vem obtendo ano a ano. Graças a ela o Brasil expandiu a fronteira agrícola, dominando o Cerrado. Falta muita coisa a pesquisar, refinar algumas tecnologias e desenvolver outras, destacando a integração de sistemas de produção envolvendo agricultura e pecuária. As esperanças estão voltadas para a biotecnologia, melhoramento genético, microbiologia do solo e planta e procura por insumos mais nobres ou de menor impacto ambiental.

Qual é a melhor alternativa para combater a fome do ponto de vista produtivo?

É necessário disponibilizar alimento mais barato. Para isso é preciso aumentar os rendimentos agrícolas com menores custos, um dos desafios da pesquisa. A população mais pobre e sujeita à fome está nos pequenos agricultores. Os programas assistencialistas com ajuda econômica direta poderiam ser aperfeiçoados concedendo adubo. Com a concessão de dez quilos de nutrientes por família por ano seria possível produzir mais de 300 quilos de grãos, o suficiente para colocar diariamente na mesa de cada família pelo menos 800 gramas de grãos.


FIQUE POR DENTRO
Pesquisador na área de Agronomia e Agroenergia

Doutor em Solos e Nutrição de Plantas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Segundo Urquiaga é pesquisador A do Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), consultor / assessor técnico-científico da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), consultor ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro da equipe de cientistas assessores da Agencia Internacional de Energia Atômica (Órgão das Nações Unidas). Publicou 143 artigos em periódicos especializados e 250 trabalhos em anais de eventos. Possui 59 capítulos de livros e dois livros publicados. Atua na área de Agronomia, com ênfase na quantificação da contribuição da fixação biológica de nitrogênio em sistemas agrícolas e sobre a importância deste processo na agroenergia e na proteção do meio ambiente. Recebeu prêmios nacionais e internacionais, entre eles, o Prêmio IPNI-Brasil 2009, por indicação da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, concedido pelo Instituto Internacional de Nutrição de Plantas, na categoria de Pesquisador Sênior.

MARISTELA CRISPIM


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