Seguro a céu aberto

Agronegócio

Seguro a céu aberto

Com as variações climáticas cada vez mais acentuadas, o investimento na proteção das lavouras cresce a passos largos no Brasil
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“Se eu tivesse segurado toda a área, não teria lucro algum, o que é péssimo, mas também não teria prejuízo, o que não é ruim.” A avaliação, em tom de arrependimento, é do produtor Carlos Aberto dos Santos, de Sertanópolis (Norte do Paraná), que na safra passada cultivou 116 hectares de soja, mas segurou apenas 68, a parte da lavoura financiada. O restante do custeio, feito com recursos próprios, ficou desprotegido.

Ele conta que investiu para produzir 3.400 quilos de soja por hectare, mas acabou colhendo apenas 1/3 desse potencial. Acionou o seguro, que demorou o dobro do tempo prometido para ressarcir o sinistro (45 para 90 dias), e recebeu o suficiente para cobrir seus compromissos com o agente financeiro, mas somente para a área segurada. À parte da lavoura em que tirou dinheiro do bolso, restou o prejuízo.

Apesar de não considerar esse o modelo ideal de proteção, Carlos Alberto conta que irá renovar o seguro para o novo ciclo de verão. “Ruim com ele (o seguro), pior sem ele”, diz o agricultor, que agora pretende buscar recursos e condições que lhe permitam cobrir o mais próximo de 100% da área. A situação vivida pelo produtor de Sertanópolis traduz, de certa forma, a percepção da cadeia produtiva sobre o atual modelo de seguro agrícola em operação no Brasil, instituído no ciclo 2006/07. O divisor de águas, que marca o avanço dessa discussão, foi a garantia, pelo governo federal, da subvenção de até 70% do prêmio pago na contratação do seguro. A partir daí, a área protegida saltou de 2,3 milhões (2007) para uma projeção de 8,1 milhões de hectares (2009). A importância segurada tem uma variação ainda maior, de R$ 2 para R$ 12,5 bilhões.

Transição

O diretor do Departamento de Gestão de Riscos do Ministério da Agricultura (Mapa), Welington Soares de Almeida, afirma que os questionamentos do campo são ouvidos em Brasília. Para ele, o seguro está em plena fase de mudança e planeja passos decisivos de longo prazo. Quando os contratos passarem a cobrir satisfatoriamente a produção, a meta será o seguro de renda. Trata-se do sonho de todo produtor: a garantia de não ficar de bolsos vazios num ano de quebra, formato já disponível nos Estados Unidos. Mas isso é tarefa para o futuro, pondera Almeida. De qualquer maneira, ele entende que o seguro agrícola evolui rapidamente. “Já se falava de seguro nos anos 30, mas sempre faltou apoio ao produtor para o pagamento do prêmio. Agora, o quadro mudou totalmente.”

Para se chegar a um ponto em que a maioria dos produtores contrate seguro, são necessários contratos mais atrativos e condições mais lucrativas às seguradoras, considera. A partir daí, a cultura de contratar seguro na atividade rural deve se tornar mais difundida, como no meio urbano, prevê. “Produzir sem garantia será como manter um carro sem seguro.”

A prioridade para o setor produtivo é a aprovação do fundo de catástrofe. Com mais essa garantia, a previsão é que o meio rural se torne bem mais atrativo às seguradoras. As próprias cooperativas agrícolas cogitam atuar como empresas de seguro a partir do momento que puderem contar com o respaldo desse fundo para cobrir indenizações em caso de perdas generalizadas. “Pedimos ao governo para que as cooperativas possam ser seguradoras. Como as cooperativas não visam lucro, o preço do seguro pode ficar mais barato”, afirma o gerente de Mercado da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Evandro Ninaut.

Luiz Carlos Meleiro, superintendente de Agronegócios da Allianz Seguros, defende a cooperação mútua entre as instituições públicas e privadas na construção de um modelo que permita o desenvolvimento sustentável do mercado. “O futuro do seguro agrícola está aí, nos próximos anos. Mas a premissa básica é atender as necessidades do produtor.” O desafio, pontua o executivo, será trabalhar com algumas variáveis pouco previsíveis, como as incertezas sobre os riscos climáticos e a própria confiança do produtor rural. “Isso só virá com a adoção de um sistema único, organizado e eficiente de gestão de risco”, destaca.


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