Soja e milho: clima irregular exige mais controle no campo
Irrigação ganha força contra os riscos climáticos no Centro-Oeste
Foto: Pixabay
O clima irregular no Centro-Oeste brasileiro está mudando a estratégia do produtor de grãos, especialmente nas lavouras de soja e milho. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), 2026 foi marcado por chuvas irregulares, temperaturas acima da média e maior risco de déficit hídrico em áreas da região.
A mudança afeta principalmente sistemas de produção que dependem de janelas de plantio bem definidas, como a sucessão entre soja e milho segunda safra. Nesse cenário, a distribuição das chuvas ao longo do ciclo passou a ser tão importante quanto o volume acumulado.
Chuvas irregulares aumentam o risco no campo
Segundo Carlos Sanches, diretor de Negócios de Grãos e Fibras da Netafim, o comportamento das precipitações tem reduzido a previsibilidade do calendário agrícola. “Temos observado maior irregularidade no início e no encerramento do período chuvoso, ocorrência de veranicos em momentos críticos e temperaturas elevadas, que aumentam a demanda de água pelas culturas. Isso reduz a confiabilidade das janelas tradicionais de plantio e estreita a margem de segurança do produtor, especialmente em sistemas intensivos, como a sucessão entre soja e milho segunda safra”, afirma.
Na prática, a irregularidade climática pode comprometer a germinação e aumentar o estresse hídrico durante a floração e o enchimento de grãos. O resultado pode ser redução de produtividade e qualidade, além de impactos sobre o planejamento da propriedade.
Atrasos no plantio também reduzem a janela para a segunda safra, enquanto a menor disponibilidade de água pode comprometer a eficiência dos fertilizantes e ampliar a exposição financeira do produtor.
Irrigação ganha espaço na gestão do risco
Diante desse cenário, a irrigação passa a ser tratada como parte da estratégia de gestão das propriedades, e não apenas como uma resposta aos períodos de seca. “Os produtores mais tecnificados estão deixando de olhar a irrigação apenas como uma resposta à seca e começam a tratá-la como parte do planejamento estrutural da propriedade”, conta Sanches.
Segundo o diretor, a estratégia deixa de considerar somente o potencial de produtividade e passa a incorporar fatores como redução de riscos, proteção das janelas de plantio, melhor aproveitamento da área e maior previsibilidade dos resultados.
Embora não elimine os efeitos do clima, a irrigação reduz a dependência das chuvas nos momentos mais sensíveis das culturas. “Ela permite que o produtor proteja o estabelecimento da lavoura, mantenha o desenvolvimento das plantas durante veranicos e tenha maior controle sobre momentos críticos, como floração e enchimento de grãos. Também contribui para preservar o calendário agrícola, reduzir atrasos e dar mais segurança à implantação da segunda ou até da terceira safra”, explica Sanches.
Tecnologia busca dar mais previsibilidade à produção
Para o executivo, o retorno do investimento em irrigação não deve ser avaliado apenas pelo potencial máximo de produtividade. “O retorno da irrigação deve ser avaliado não apenas pelo ganho máximo de produtividade, mas também pela redução da variabilidade entre safras e pela maior previsibilidade operacional e financeira”, afirma.
Segundo dados divulgados pela Netafim, esse movimento também aumenta o interesse por tecnologias integradas, como fertirrigação, sensores de umidade do solo, automação e informações climáticas. A empresa destaca ainda soluções para ampliar a área irrigada por meio da combinação entre pivôs centrais e sistemas de gotejamento subterrâneo. A integração permite irrigar 100% da área produtiva, incluindo regiões que normalmente ficam fora do alcance do pivô. Com isso, a estratégia busca ampliar a eficiência do uso da água, aumentar a estabilidade da produção e melhorar o aproveitamento da área cultivada.
Manejo integrado melhora o uso de água e nutrientes
Além da redução dos riscos climáticos, a integração de tecnologias pode favorecer o uso mais eficiente de água, energia e nutrientes. A proposta é aplicar os recursos de acordo com a necessidade da cultura, considerando o momento e o local adequados. “A irrigação por gotejamento parte de um princípio simples: aplicar a quantidade necessária, no local correto e no momento em que a planta realmente precisa”, conta Sanches.
Produtor busca consistência além da produtividade
Na avaliação do diretor, o agronegócio brasileiro passa por uma mudança em que a previsibilidade ganha importância semelhante à produtividade. “A produtividade continuará sendo essencial, mas produzir muito em uma safra e sofrer uma forte quebra na seguinte torna o negócio mais vulnerável. O próximo salto do agro brasileiro não será apenas produzir mais por hectare, mas produzir com maior consistência, eficiência e controle”, afirma.
Nesse cenário, o clima irregular reforça a necessidade de estratégias capazes de reduzir a exposição das lavouras às oscilações de chuva e temperatura. Para o produtor de grãos do Centro-Oeste, a gestão do risco climático passa, assim, pela combinação entre planejamento do calendário agrícola, tecnologias de irrigação, monitoramento das condições de solo e clima e maior controle dos principais fatores que interferem no desenvolvimento das culturas.