Sucessão soja-trigo mantém percevejo ativo o ano todo
Inseto se beneficia de sistemas intensivos que mantêm plantas hospedeiras
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O percevejo barriga verde (dichelops furcatus e dichelops melacanthus) é uma praga-chave em sistemas de plantio direto com rotação soja-trigo, e sua presença na entressafra e na fase inicial do trigo pode comprometer o estande, o perfilhamento e o enchimento de grãos. Definir o momento correto para iniciar o controle químico é decisivo para reduzir perdas, evitar aplicações desnecessárias e minimizar riscos de resistência a Inseticidas, especialmente em talhões com histórico de infestação elevada.
O inseto se beneficia de sistemas intensivos que mantêm plantas hospedeiras quase o ano todo. Em sucessões soja-trigo, há alimento constante para a praga: primeiro na soja, depois nas plantas daninhas e voluntárias durante a entressafra, e em seguida no trigo em emergência e perfilhamento, o que permite que as populações do inseto se mantenham e aumentem ao longo dos anos. Os maiores problemas costumam ocorrer em áreas com grande volume de palha e plantas daninhas gramíneas na entressafra, em talhões com histórico de percevejo elevado na soja anterior e em lavouras de trigo sem monitoramento sistemático na fase inicial — condições em que o percevejo pode migrar rapidamente para o trigo no momento da emergência e do início do perfilhamento, justamente quando a planta é mais sensível à sucção de seiva e às toxinas injetadas pelo inseto.
Dichelops furcatus e Dichelops melacanthus são percevejos fitófagos que se alimentam por sucção em colmos e tecidos jovens, e tanto ninfas quanto adultos podem causar dano econômico à lavoura. Na entressafra, sobrevivem em plantas daninhas e culturas de cobertura, abrigando-se na palha e na vegetação espontânea, e os adultos podem migrar de áreas vizinhas logo após o plantio ou a emergência do trigo. As fases de maior dano vão da emergência até o perfilhamento, período em que a cultura ainda tem pouca capacidade de compensação — em estádios mais avançados, o trigo tolera melhor pequenas populações, desde que não estejam muito acima dos níveis de dano. Entre os sintomas mais comuns estão falhas de estande, com plântulas mortas ou muito fracas, perfilhamento reduzido, colmos quebradiços e menor vigor das plantas, folhas com descoloração ou aspecto queimado nos pontos de sucção e, em casos mais tardios, redução no enchimento de grãos e queda do peso hectolítrico.
O monitoramento é apontado como o ponto central da decisão de controle e deve ser planejado antes mesmo da semeadura do trigo, acompanhando a dessecação e a emergência das plantas. Na pré-semeadura e na dessecação, recomenda-se avaliar a presença de percevejos em plantas daninhas e na palha, já que um número elevado de insetos nessa fase indica risco de migração para o trigo recém-emergido. Da emergência até 15 dias após, o monitoramento deve ser intensivo, por ser a fase em que as plantas são mais sensíveis, mantendo-se regular do perfilhamento ao alongamento, com frequência ajustada conforme o histórico de infestação da área. Os métodos mais utilizados em campo combinam inspeção visual em zigue-zague pela lavoura, uso de pano-de-batida entre fileiras de trigo e avaliação de reboleiras, com abertura da palha em áreas de falha de estande para verificar a presença de percevejos abrigados. O registro de cada inspeção — data, estádio da cultura, número de percevejos por metro ou por ponto amostrado e local do talhão — permite comparar os dados com os níveis de dano econômico indicados pela pesquisa e com o histórico da própria área.
O nível de dano econômico é a densidade de praga a partir da qual o prejuízo potencial supera o custo do controle; abaixo desse nível, a tendência é que o custo da aplicação não se pague com o ganho de produtividade. A pesquisa brasileira em cereais de inverno tem indicado faixas de infestação em que o controle começa a ser vantajoso, variando principalmente com o estádio da cultura, o potencial produtivo do talhão, a condição nutricional e hídrica da lavoura e o histórico de ataque e a capacidade de compensação da cultivar. De forma geral, esse nível tende a ser mais baixo na emergência e no início do perfilhamento, quando as plantas pequenas têm pouca capacidade de compensar danos, e um pouco mais tolerante à medida que a cultura se desenvolve, desde que não ocorram surtos severos. Os valores exatos de nível de dano econômico devem ser obtidos em publicações técnicas da Embrapa e de universidades, atualizadas e adaptadas à realidade regional, sempre interpretados com apoio de profissional habilitado.
A decisão de controle químico depende da combinação entre o nível de infestação medido em campo, o estádio fenológico do trigo e as condições gerais de desenvolvimento da lavoura. Na fase de emergência, da germinação até 2 a 3 folhas, considerada a mais sensível, pequenas populações de percevejos já podem causar perdas significativas, principalmente se a emergência for desuniforme ou lenta. Os critérios para considerar o controle nessa fase incluem a detecção de percevejos em densidade próxima ou acima dos níveis de dano econômico, a presença de falhas de estande associadas à praga e o histórico de surtos em safras anteriores — atrasar a aplicação nesse momento aumenta o risco de perda de plantas e a necessidade de replantio em reboleiras. Durante o perfilhamento, o trigo ainda é sensível, mas já possui alguma capacidade de compensar perdas em perfilhos, dependendo da cultivar e das condições de manejo; nessa fase, o controle deve ser considerado diante de infestação igual ou superior aos níveis de dano econômico com tendência de aumento entre inspeções sucessivas, sintomas de sucção associados a plantas com perfilhamento fraco e previsão climática favorável à manutenção da população da praga. Lavouras vigorosas, bem nutridas e com boa umidade no solo podem tolerar melhor infestações ligeiramente abaixo desses níveis, permitindo aguardar a próxima avaliação antes da decisão. Em estádios mais avançados, como alongamento, emborrachamento e espigamento, o percevejo barriga verde costuma perder importância relativa frente a outras pragas da espiga e do grão, mas surtos tardios ainda podem reduzir o enchimento de grãos quando as populações são muito altas, especialmente em talhões de alto potencial produtivo.
Uma vez confirmada a necessidade de controle, a janela ideal de aplicação é aquela em que o monitoramento indica populações estáveis ou em crescimento acima do nível de dano econômico, as condições ambientais favorecem boa cobertura — vento moderado, temperatura e umidade adequadas e sem previsão imediata de chuvas intensas — e a maioria da população está em estádios suscetíveis ao inseticida registrado para a cultura. Entre os cuidados na aplicação estão o ajuste do volume de calda e do tipo de ponta de pulverização para alcançar a base das plantas e os locais onde os percevejos se abrigam, e a recomendação de evitar aplicações com vento forte e altas temperaturas, que aumentam a deriva e reduzem a deposição no alvo. Em áreas muito infestadas, pode ser necessário reforçar o monitoramento após a aplicação para avaliar a eficiência do controle e a necessidade de intervenções complementares.
O controle químico isolado tende a ser menos eficiente ao longo dos anos e aumenta o risco de seleção de populações resistentes, por isso a integração com outras práticas de manejo é fundamental. O manejo de plantas daninhas hospedeiras — planejando a dessecação pré-semeadura em tempo hábil e reduzindo a presença de infestantes nas bordas dos talhões — ajuda a reduzir a base de sobrevivência da praga na entressafra. O manejo de restos culturais e da sucessão de culturas também é relevante, já que palhada mal distribuída, plantas voluntárias e restos sem manejo favorecem o abrigo do percevejo; evitar a presença de soja voluntária ou outras gramíneas hospedeiras na entressafra e planejar rotações que quebrem o ciclo de hospedeiros preferenciais são medidas recomendadas dentro do planejamento produtivo da propriedade. O monitoramento conjunto com a cultura anterior também é indicado, já que o percevejo barriga verde frequentemente já está presente na soja, e o registro de seus níveis próximos à colheita ajuda a prever o risco para o trigo subsequente e a planejar a intensidade do monitoramento na safra seguinte.