Trigo: Brasil vai importar 7,1 milhões de toneladas, o maior volume em quase 20 anos
trigo no ano-safra 2026/27, iniciado em agosto, chegue a 7,103 milhões de toneladas
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A Conab estima que a importação brasileira de trigo no ano-safra 2026/27, iniciado em agosto, chegue a 7,103 milhões de toneladas. É mais de 20% acima do ciclo anterior e o maior volume desde 2006/07, quando o país comprou 7,164 milhões de toneladas e estabeleceu o recorde da série histórica da estatal, iniciada em 2001/02. A projeção subiu quase 4% em relação à estimativa de julho.
Do lado da produção, o 11º Levantamento cortou a safra brasileira de 2026 para 5,8 milhões de toneladas, queda de 26,2% sobre as 7,87 milhões colhidas em 2025. A área recuou 20,4%, de 2,45 milhões para 1,95 milhão de hectares. A Conab atribui a retração ao menor investimento dos produtores e à perspectiva de condições climáticas mais adversas.
No Rio Grande do Sul e no Paraná, líderes da produção nacional, a decisão de plantio também levou em conta os efeitos de um El Niño forte, fenômeno que traz mais chuva para a região e ameaça produtividade e qualidade na hora da colheita.
O produtor plantou menos porque a conta não fechava. Não é falta de tecnologia nem de área disponível. É margem.
O Valor Bruto da Produção das lavouras de trigo foi projetado pelo Ministério da Agricultura em R$ 7,929 bilhões para 2026, queda de 25,4% sobre 2025. Foi o terceiro maior recuo percentual entre as lavouras acompanhadas pela pasta, atrás apenas de cacau e laranja. Quando o preço de uma cultura não paga o custo, o produtor migra. Foi o que aconteceu. E a área que saiu do trigo não volta em uma safra.
Se a produção cai e o consumo não, alguém precisa vender o que falta. A Argentina segue como principal fornecedora, ao lado de Paraguai e Uruguai. Mas o dado novo está no Hemisfério Norte.
De janeiro a junho de 2026, as importações brasileiras somaram 2,8 milhões de toneladas, contra 3,6 milhões no mesmo período do ano passado, principalmente pela menor entrada do produto argentino, que caiu para cerca de 2 milhões de toneladas. No mesmo intervalo, a Rússia desembarcou 170 mil toneladas no Brasil, movimento que não havia ocorrido em 2025.
Moinhos reclamaram da qualidade do trigo argentino do ciclo anterior e reduziram compras no primeiro semestre. A expectativa de analistas é que a Rússia, maior exportadora mundial, ganhe espaço no segundo semestre, até a chegada da nova safra argentina em dezembro.
As projeções, porém, não convergem, e isso é parte da notícia. A Conab trabalha com 7,1 milhões de toneladas de importação, contra 5,9 milhões no ciclo anterior. A Safras & Mercado calcula que as compras externas possam se aproximar de 9 milhões de toneladas, o que seria o maior volume já importado pelo país.
A diferença entre as duas projeções não é detalhe técnico. Ela nasce de premissas distintas sobre estoques, qualidade da safra nacional e necessidade real dos moinhos. Se o El Niño comprometer o padrão panificável do trigo colhido no Sul, a demanda por importação de melhor qualidade sobe, e o cenário mais pessimista se aproxima.
A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) projeta aumento de cerca de 1,9 milhão de toneladas na necessidade de importação em 2027 e alerta que a combinação de safra menor com maior dependência externa pressiona os custos da moagem, com reflexo possível na indústria de alimentos. A entidade descarta risco de desabastecimento no mercado interno.
E há uma variável que quase nenhuma análise coloca na conta: o câmbio.
Um país que importa metade do que consome não forma preço sozinho. O mercado doméstico opera próximo à paridade de importação, e a paridade de importação é uma função do dólar.
O dólar comercial fechou a semana perto de R$ 5,14. O Boletim Focus de 17 de agosto manteve a projeção da moeda em R$ 5,20 para o fim de 2026. Com a Selic em 14% ao ano, depois do corte de 0,25 ponto decidido pelo Copom em 5 de agosto, o real segue relativamente valorizado.
Real forte significa trigo importado mais barato em reais. E trigo importado mais barato é teto para o preço interno.
Ou seja, o produtor do Sul enfrenta a pior combinação possível. Colheu menos, tem custo por tonelada mais alto pela produtividade menor, e não consegue capturar o prêmio de escassez porque o câmbio está trabalhando contra ele.
Os preços recebidos refletem isso. No Paraná, a saca de 60 quilos passou de uma média de R$ 70,28 em junho para R$ 71,69 em julho, segundo a Conab. Uma alta de 2% em um ano em que a produção nacional cai mais de um quarto.
Três variáveis definem o preço do trigo no Brasil daqui até o fim do ano: o comportamento do dólar, a qualidade do que for colhido no Sul sob El Niño, e o ritmo de chegada do produto russo e argentino.