Trigo: falta de chuva reduz potencial produtivo no Centro-Oeste
Restrição hídrica e brusone pressionam o trigo em MS e GO
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O trigo encerra agosto e inicia setembro de 2026 sob forte influência da disponibilidade de água no Centro-Oeste. Segundo dados divulgados pela Conab, Goiás mantém no campo apenas áreas irrigadas, enquanto Mato Grosso do Sul intensificou a colheita após registrar redução na produção, associada à brusone e à restrição hídrica.
Em Goiás, o desempenho das lavouras foi determinado principalmente pelo sistema de produção. Nas áreas de sequeiro, a escassez de chuvas durante o ciclo comprometeu processos fisiológicos como perfilhamento, alongamento do colmo, diferenciação floral e enchimento de grãos.
Segundo dados divulgados pela Conab, os impactos resultaram em rendimentos reduzidos. Em parte dos talhões, a baixa viabilidade econômica da colheita levou produtores a destinarem as lavouras remanescentes à cobertura do solo. A prática contribui para proteger a superfície, conservar a umidade residual e preparar as áreas para o próximo ciclo agrícola.
Nas áreas irrigadas de Goiás, o desempenho agronômico foi superior. A colheita começou pontualmente em agosto e apresentou produtividades satisfatórias.
Segundo dados divulgados pela Conab, não foram registrados casos de brusone ou outras doenças de importância econômica no trigo irrigado. As temperaturas mais baixas do inverno também contribuíram para reduzir a pressão de pragas.
A maior participação relativa do cultivo irrigado é justamente um dos fatores que elevam o rendimento médio estimado para Goiás nesta safra. A importância do fornecimento adequado de água também aparece em uma simulação realizada pelo Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (SISDAGRO), do INMET, para uma lavoura de trigo irrigado em Cristalina (GO).
Na simulação, a emergência ocorreu em 12 de maio e o ciclo considerado foi de 120 dias. Segundo dados divulgados pelo INMET, a necessidade hídrica estimada da cultura durante o período foi de 575,8 milímetros.
A precipitação acumulada, porém, chegou a apenas 69,2 milímetros, distribuídos em 13 dias. O volume correspondeu a aproximadamente 12% da demanda hídrica estimada.
A restrição foi especialmente intensa em julho, quando não houve precipitação, e em agosto, quando o acumulado chegou a apenas 0,2 milímetro.
Diante da baixa contribuição das chuvas, a cultura dependeu fortemente da irrigação. Na simulação, foram aplicados 303,8 milímetros de água, distribuídos em 12 lâminas de aproximadamente 25 milímetros. As aplicações ocorreram em intervalos progressivamente menores à medida que aumentava a demanda evaporativa da cultura.
Mesmo assim, a quantidade e o intervalo entre as irrigações simuladas não foram suficientes para eliminar completamente os períodos de deficiência hídrica. Segundo dados divulgados pelo INMET, o déficit hídrico acumulado estimado chegou a 277,4 milímetros durante o ciclo.
Nas condições de manejo utilizadas na simulação, a deficiência hídrica resultou em uma perda estimada de 39,9% do potencial produtivo até 7 de setembro.
Esse percentual, porém, está relacionado especificamente à parametrização utilizada na simulação, principalmente à quantidade das lâminas e aos intervalos entre as aplicações. Portanto, não representa necessariamente a perda observada em lavouras comerciais irrigadas por pivô central.
Em Ponta Porã, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, o desempenho do trigo de sequeiro foi limitado principalmente pela irregularidade na distribuição das chuvas durante o ciclo.
Segundo dados divulgados pelo INMET, a simulação para uma lavoura com emergência em 19 de maio apontou 236 milímetros de chuva acumulada em 42 dias, enquanto a demanda hídrica estimada da cultura chegou a 393 milímetros.
Embora junho tenha apresentado distribuição mais adequada das chuvas e déficit hídrico reduzido, a situação se agravou em julho.
Naquele mês, foram registrados apenas 19,2 milímetros de precipitação, enquanto a necessidade hídrica estimada do trigo alcançou 148,7 milímetros. A partir de 21 de julho, o armazenamento de água no solo permaneceu abaixo de 10% da capacidade, indicando forte restrição hídrica.
Segundo dados divulgados pelo INMET, esse cenário pode reduzir a expansão das folhas e, consequentemente, a capacidade da planta de interceptar a radiação solar e realizar fotossíntese.
Com menor capacidade fotossintética, a formação de biomassa é prejudicada. Nas fases posteriores do ciclo, o estresse hídrico também pode comprometer a formação e o enchimento dos grãos.
Na simulação, os períodos prolongados de baixa disponibilidade de água durante fases de elevada demanda resultaram em uma perda estimada de 54,6% do potencial produtivo.
Além da restrição hídrica, a cultura enfrentou pressão de doenças em Mato Grosso do Sul. Segundo dados divulgados pela Conab, a combinação de temperaturas elevadas, umidade e nebulosidade favoreceu o desenvolvimento de doenças fúngicas.
A brusone, causada por Pyricularia oryzae, teve destaque principalmente nas regiões produtoras do sudoeste sul-mato-grossense.
A ocorrência da doença exigiu atenção dos produtores e contribuiu para ajustes nas estimativas de produção à medida que a colheita avançou no fim de agosto.
Para o período de 3 a 10 de setembro, a previsão do modelo COSMO indica distribuição irregular das chuvas na Região Centro-Oeste.
Os maiores acumulados estão previstos para o sudoeste de Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás. Nessas áreas, os volumes devem variar, em geral, entre 20 e 50 milímetros, com possibilidade de valores próximos de 100 milímetros de forma pontual, especialmente em setores do norte de Mato Grosso do Sul.
Nas demais áreas do Centro-Oeste, a tendência é de baixos acumulados, inferiores a 10 milímetros, ou ausência de precipitação significativa.
O cenário exige atenção ao avanço da colheita do trigo. Chuvas acompanhadas de aumento da nebulosidade e da umidade relativa do ar podem reduzir as janelas de trabalho em campo e favorecer períodos mais prolongados de molhamento foliar.
Diante das condições previstas, a orientação é priorizar os períodos secos para dar continuidade às operações de colheita, reforçar a vigilância fitossanitária e acompanhar continuamente as previsões e os avisos meteorológicos emitidos pelo INMET.
O monitoramento das condições de umidade e das doenças pode ajudar na tomada de decisões e na otimização das operações no campo, especialmente nas áreas em que a colheita ainda está em andamento.