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Trigo perde espaço em Santa Catarina

Custos e clima pressionam safra de trigo


Foto: Canva

A cultura do trigo, principal lavoura de grãos de inverno em Santa Catarina, inicia o planejamento da safra 2026 sob pressão de fatores climáticos e econômicos, segundo informações do Boletim Agropecuário de maio divulgado pelo Epagri/Cepa. A publicação aponta tendência de redução da área cultivada no estado, diante das previsões de maior frequência de chuvas durante o inverno e a primavera, cenário associado ao fenômeno El Niño, além da alta nos custos de produção e da cautela dos produtores na contratação de crédito rural.

De acordo com o boletim, o cultivo do trigo em Santa Catarina ocorre, em grande parte, em sucessão às culturas de verão dentro do sistema de plantio direto. Nesse modelo, os resíduos culturais deixados na superfície ajudam a proteger o solo da erosão e contribuem para a conservação da umidade em períodos de estiagem. A janela de plantio vai do segundo decêndio de maio ao segundo decêndio de julho, com maior concentração das atividades a partir de junho.

As projeções meteorológicas citadas pelo Epagri/Cepa indicam aumento das precipitações ao longo do ciclo, o que amplia os riscos produtivos em fases consideradas sensíveis, como florescimento e enchimento de grãos. Ao mesmo tempo, produtores relatam aumento nos custos de fertilizantes e operações mecanizadas, além de maior cautela na tomada de financiamentos para implantação da safra.

O boletim também destaca a pressão exercida pelos fertilizantes sobre os custos de produção. Segundo a análise, a relação de troca entre ureia e trigo alcançou o maior nível da última década. Mais de dois meses após o início do conflito no Oriente Médio, que colocou em risco parte relevante do comércio global de fertilizantes, o mercado do insumo segue instável. Para maio de 2026, o preço futuro da ureia permanece acima do valor de importação registrado em março, refletindo um cenário ainda sujeito a oscilações geopolíticas.

No mercado catarinense, a relação de troca ureia/trigo passou de 2,01 para 3,45 em apenas um ano, avanço de 72% no custo relativo do insumo entre as safras. O indicador, segundo o boletim, superou inclusive os níveis registrados em 2022, durante o choque de oferta provocado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia. Diante desse cenário, produtores passaram a adotar estratégias mais conservadoras, como redução da área cultivada, diminuição do investimento tecnológico e substituição parcial do trigo por culturas alternativas de inverno e plantas de cobertura voltadas à recuperação do solo.

Levantamentos preliminares de cooperativas estaduais indicam retração expressiva na área destinada ao trigo em diferentes regiões catarinenses. No Extremo Oeste, a redução estimada varia entre 25% e 30%, enquanto no Oeste e Meio-Oeste as projeções apontam quedas de até 40%. O Epagri/Cepa informou que as estimativas oficiais de área e produtividade devem ser divulgadas no próximo mês.

O boletim também cita dados da Companhia Nacional de Abastecimento, que apontam o início do plantio da nova safra em áreas de sequeiro de Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal. No Rio Grande do Sul, principal produtor nacional, a companhia projeta queda de 24,5% na produção, influenciada pela redução de aproximadamente 231,4 mil hectares na área cultivada. Segundo a análise, a estiagem que atingiu o estado e provocou perdas nas lavouras de verão, especialmente na soja, agravou a situação financeira dos produtores e reduziu o interesse pelo cultivo do trigo.

Em nível nacional, a previsão é de redução de 9,2% na área plantada, com produção estimada em 6,6 milhões de toneladas, volume 16% inferior ao da safra anterior. A combinação entre risco climático elevado, expectativa menor de rentabilidade e aumento nos custos de insumos e combustíveis segue entre os principais fatores apontados para a retração da cultura. Até 1º de maio, 9,9% da área nacional destinada ao trigo já havia sido semeada. Segundo os dados da Companhia Nacional de Abastecimento, 57,8% das lavouras estavam em desenvolvimento vegetativo e 42% em emergência.

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