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Vassoura-de-bruxa volta a assombrar lavouras de cacau


Após cinco anos de retomada, a cacauicultura brasileira se vê novamente ameaçada pela vassoura-de-bruxa, doença que dizimou a produção na década de 90. O excesso de chuvas na Bahia no primeiro trimestre favoreceu o alastramento do fungo e o setor estima perda de 40% da safra temporã, que começa em maio e deverá render cerca de 54 mil toneladas.

A umidade ajuda a disseminação do mal, e dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram, por exemplo, que em Gandu, uma das principais regiões produtoras da Bahia, o índice de chuvas foi de 350 milímetros no trimestre, ante uma média história de 270.

Thomas Hartmann, analista da TH Consultoria e Estudos de Mercado, explica que as perdas serão maiores este ano porque o fungo está mais presente nas plantações e a colheita está atrasada em seis semanas, devido a problemas climáticos entre setembro e dezembro. "O ciclo do fungo atinge o pico em maio, quando a maior parte da safra temporã já está colhida. Com o atraso da colheita, o fungo irá atacar mais frutos no pé", avalia.

Ainda não é possível estimar os prejuízos na safra principal, cuja floração começa em setembro, mas historicamente os efeitos acompanham as perdas da safra temporã. Hartmann estima um recuo na produção total de até 23%, de 170 mil toneladas, na safra 2003/04, para 130 mil.

Produtores confirmam a preocupação em relação à praga. Roberto Lessa, diretor de investimento da Fazenda Reunidas Vale do Juliana, que possui 858 hectares de área plantada, estima quebra de 30% na safra temporã. "O excesso de chuvas também favorece o desenvolvimento da podridão parda", completa. Para reduzir as perdas, a empresa intensificará a remoção de galhos infectados e a polinização manual.

Eimar Rosa, diretor da M. Libânio Agrícola, diz que o fungo está no estágio inicial de desenvolvimento e não é possível perceber os danos nos cacaueiros antigos. Já os 650 hectares renovados com variedades clonadas têm se mostrado imunes à vassoura-de-bruxa.

Segundo Carlos Bayard, presidente da Associação Brasileira dos Cacauicultores (ABC), as espécies clonadas, implantadas desde 1997, têm se mostrado a forma mais eficiente para evitar a doença. "O problema é que os produtores estão descapitalizados em função dos preços deprimidos do cacau nos mercados interno e externo".

A renovação das áreas por clonagem custou aos produtores R$ 500 milhões nos últimos quatro anos e o setor reclama a falta de programas do governo federal para incentivar o plantio de variedades clonadas. Gustavo Moura, diretor geral da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), ligada ao Ministério da Agricultura, diz que haverá um plano para custear a safra este ano, mas os valores não estão definidos.

O aumento da produção e dos estoques mundiais têm pressionado os preços do produto. Na bolsa de Londres, houve queda de 32,53% nos últimos 12 meses, e o preço médio em março foi de 844,74 libras esterlinas por tonelada. No mesmo período, os preços médios dos contratos em Nova York caíram 23,25%, para US$ 1.469,30, em média, em março.

No mercado interno, o cacau seguiu a mesma tendência, acumulando queda de 33,4% nos últimos 12 meses, para R$ 65,37 por arroba em Ilhéus e Itabuna, segundo a Central Nacional de Produtores de Cacau (CNPC).

Os preços deprimidos desestimulam as exportações de cacau inteiro. Segundo a Secex, os embarques do produto em 2003 recuaram 56,1%, para US$ 3,07 milhões. As importações cresceram 35,7%, para US$ 116,28 milhões. No primeiro bimestre deste ano, o Brasil não importou cacau inteiro e exportou apenas em janeiro, gerando receita de US$ 466,23 mil. O setor cacaueiro faturou US$ 400 milhões em 2003.

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