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Veranicos podem atingir fases decisivas da lavoura de trigo

O florescimento aparece como uma das etapas mais críticas


Foto: Pixabay

A disponibilidade de água entre o perfilhamento e o enchimento dos grãos é decisiva para o potencial produtivo do trigo. Embora a cultura necessite de umidade durante todo o ciclo, é nesse intervalo que a falta de água pode provocar as maiores perdas, reduzindo o número de espigas, a quantidade de grãos e o peso final da produção.

O florescimento aparece como uma das etapas mais críticas. A deficiência hídrica nesse momento pode prejudicar a fecundação, provocar o aborto de flores e aumentar a ocorrência de espiguetas vazias ou com poucos grãos. Mesmo períodos curtos de estiagem podem causar impactos expressivos nessa fase. Os danos tendem a aumentar quando a falta de água ocorre junto com temperaturas elevadas e ventos fortes.

Risco começa na implantação da lavoura

A necessidade de umidade começa ainda na germinação. Para que a emergência ocorra de forma uniforme, a semente precisa encontrar água disponível na camada superficial do solo, principalmente até cerca de 10 a 15 centímetros de profundidade. Quando o solo está muito seco, parte das sementes pode não germinar ou apresentar emergência atrasada. Isso deixa a lavoura desuniforme desde o início do ciclo.

O excesso de água também pode causar problemas. O encharcamento reduz a presença de ar no solo e prejudica o desenvolvimento inicial das raízes e das plântulas. Apesar de importante, a emergência é considerada uma fase moderadamente sensível e de curta duração. Em algumas situações, a umidade armazenada no solo é suficiente para garantir o estabelecimento da cultura, desde que a semeadura seja realizada em condições adequadas.

Perfilhamento define número de espigas

Após a emergência, o trigo inicia o perfilhamento, fase em que a planta forma novos colmos a partir do colmo principal. Parte dessas estruturas poderá se tornar fértil e produzir espigas. A falta de água nesse período reduz a emissão de novos perfilhos e pode aumentar a mortalidade dos que já foram formados. Na prática, isso significa menos colmos férteis e menor número de espigas por área.

Mesmo que a planta consiga compensar parte dessa redução em outras fases, a perda de perfilhos compromete a base do potencial produtivo da lavoura.

O efeito pode ser ainda maior em solos com baixa fertilidade. Nessas condições, a deficiência hídrica dificulta a absorção de nitrogênio e de outros nutrientes, agravando as limitações ao crescimento.

Durante o alongamento do colmo, a planta aumenta de tamanho, forma os nós e começa a definir estruturas que darão origem à espiga. Na sequência ocorre o emborrachamento, fase em que a espiga se desenvolve no interior da bainha da folha. Nesse período, são definidos componentes importantes da produção, como o número de espiguetas e o potencial de formação de grãos.

Quando há deficiência hídrica, as espigas podem ficar menores e apresentar menos espiguetas. Se a lavoura já enfrentou falta de água durante o perfilhamento, os efeitos podem se acumular. O trigo também se torna mais vulnerável quando o déficit hídrico ocorre junto com frio excessivo ou calor fora de época.

Florescimento é o momento mais sensível

Depois do emborrachamento ocorre o espigamento, quando a espiga emerge da planta. Em seguida, começa o florescimento e a fecundação. Esse período está entre os mais sensíveis do ciclo. A falta de água pode causar má fecundação, aborto de flores e redução direta do número de grãos por espiga.

O impacto pode ser elevado mesmo quando o estresse dura pouco tempo. Isso ocorre porque a planta tem capacidade limitada de recuperar posteriormente os grãos que deixaram de ser formados. Por esse motivo, estiagens próximas ao espigamento e ao florescimento representam um dos principais riscos para a produtividade do trigo.

Déficit reduz peso dos grãos

Depois da fecundação, a cultura entra na fase de enchimento. É nesse momento que a planta acumula nos grãos os compostos produzidos pela fotossíntese. A falta de água pode reduzir a velocidade desse processo e antecipar o fim do enchimento. Como resultado, os grãos ficam menores e mais leves.

Entre os efeitos estão a redução do peso de mil grãos, a queda do peso hectolítrico e o aumento da diferença de tamanho entre os grãos de uma mesma espiga. Assim, o momento em que ocorre o déficit define qual componente da produtividade será mais afetado. No perfilhamento, a principal perda está no número de espigas. No florescimento, no número de grãos. Já durante o enchimento, o impacto aparece principalmente no peso final.

Época de semeadura pode distribuir os riscos

Nas regiões de clima subtropical úmido, o trigo costuma ser semeado entre o outono e o início do inverno. Em um ciclo típico, as fases de maior sensibilidade ocorrem entre o meio do inverno e o começo da primavera.

Nesse período, a ocorrência de veranicos — intervalos curtos com pouca ou nenhuma chuva — pode coincidir com o perfilhamento, o florescimento ou o enchimento dos grãos. Uma das estratégias de manejo é planejar a semeadura para tentar posicionar o florescimento e o enchimento em meses com maior probabilidade de chuvas bem distribuídas.

O escalonamento da semeadura também ajuda a distribuir o risco. O uso de cultivares precoces, médias e tardias evita que todas as áreas cheguem às fases mais sensíveis ao mesmo tempo. A escolha deve considerar materiais adaptados à região, com ciclo e porte adequados, boa capacidade de perfilhamento e estabilidade de rendimento.

O conteúdo técnico informa que algumas cultivares apresentam melhor desempenho relativo sob estresse hídrico moderado, mas não especifica quais materiais possuem essa característica.

Manejo do solo ajuda a conservar água

Além do planejamento da semeadura, o manejo do solo tem papel importante na redução dos impactos da estiagem. No sistema plantio direto, a manutenção de palhada sobre a superfície diminui a evaporação, favorece a infiltração da chuva e ajuda a conservar umidade para os períodos de maior demanda.

Solos bem estruturados, com boa porosidade e teor adequado de matéria orgânica, conseguem armazenar mais água e permitem que as raízes explorem uma parte maior do perfil. O controle da erosão também reduz perdas. Quando a água escoa pela superfície, deixa de infiltrar e de abastecer o reservatório hídrico do solo.

Monitoramento 

O acompanhamento das previsões meteorológicas e do histórico de chuvas pode ajudar o produtor a identificar períodos de maior risco e ajustar o planejamento da lavoura. Em áreas com irrigação suplementar, a aplicação de água pode ser priorizada entre o perfilhamento e o enchimento dos grãos, desde que seja técnica e economicamente viável.

O material não apresenta volumes específicos de irrigação. A quantidade de água deve ser definida conforme as condições do solo, do clima, da cultivar e do sistema produtivo, com orientação técnica. A intensidade dos danos provocados pela seca também varia conforme a duração do estresse, a temperatura do ar, a fertilidade, a capacidade de retenção de água do solo e o desenvolvimento das raízes.

Na prática, identificar as fases mais sensíveis permite organizar melhor a época de semeadura, a escolha das cultivares e as estratégias de conservação de água. Preservar a umidade entre o perfilhamento e o enchimento é uma das principais medidas para proteger o potencial produtivo do trigo.
 

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