Visita ao CAC Xangai: custos em alta, mas o repasse nos preços de agroquímicos ainda é contido
Índia: a pressão é maior do que se imaginava
Índia: a pressão é maior do que se imaginava - Foto: Divulgação
Nesta edição do CAC, tudo parecia seguir o roteiro de sempre: estandes montados, cartões de visita trocados, amostras expostas, preços sendo discutidos. Mas bastava aprofundar a conversa para perceber que algo no setor não estava bem. Não foi nenhuma crise declarada, mas tampouco havia alguém com uma resposta clara sobre o que vem pela frente.
A seguir, um apanhado do que o autor ouviu nas rodadas de visita ao evento.
Quem veio, quem ficou de fora e para onde foi?
O perfil do público desta edição revelou uma divisão bem nítida: empresas que trabalham com ingredientes ativos de grande volume relataram um fluxo intenso de visitantes — em alguns casos, até melhor do que em anos anteriores. Já as que atuam com produtos mais nichados ouviram muito "mais ou menos", "razoável", "sem novidades". O curioso é que essa diferença não se explicava apenas pela localização do estande. Havia empresas no corredor principal que ficaram ″frias″, enquanto outras na mesma posição viveram movimento intenso.
A composição dos visitantes internacionais chamou atenção. A América Latina se destacou: os principais compradores brasileiros compareceram, e havia representantes do Peru, Chile, México e Colômbia. O Leste Europeu também marcou presença, sobretudo mercados fora do eixo França-Alemanha-Reino Unido. Dos Estados Unidos, foi avistada apenas uma empresa em todo o pavilhão. Austrália, praticamente ausente. No Sudeste Asiático, o Vietnã liderou, seguido por Tailândia e Malásia, com poucos indonésios. Os países centrais da União Europeia mandaram principalmente prestadores de serviços, não compradores.
Uma parte da ausência de visitantes internacionais (fora a Índia) pode ser atribuída à instabilidade no Oriente Médio. Além disso, o crescimento do mercado global de agroquímicos está cada vez mais concentrado na América Latina, no Sudeste Asiático e em partes da África — os "grandes clientes tradicionais" já mudaram discretamente seu ritmo de compra.
Índia: a pressão é maior do que se imaginava
O caso dos expositores indianos foi, talvez, o aspecto mais revelador desta edição do CAC.
Grandes fabricantes de ingredientes ativos relataram pressão extrema com matérias-primas. Fenol, bromo, enxofre, organofosforados e outros intermediários essenciais deixaram de ter cotação disponível — não é que os preços subiram, é que os fornecedores simplesmente pararam de cotar. Isso significa que os produtores indianos estão operando sem nenhuma âncora de custo: não sabem quanto cobrar, não sabem se conseguirão entregar o que já venderam.
Algumas empresas também enfrentaram problemas com pedidos já fechados antes do Ano-Novo Chinês, e houve casos pontuais de rescisão de contratos. De maneira geral, o setor ainda está preservando sua reputação — todos sabem que o canal comercial é construído a longo prazo e ninguém quer queimar pontes. Mas o fato de esse sinal ter aparecido já é, por si só, preocupante.
No plano dos produtos, a situação é ainda mais grave: a homogeneização chegou a um nível alarmante. Tembotrione, isoxaflutole, quizalofop-p-etílico, flonicamida, clorantraniliprole, fluxapiroxade, fluopiram — em dez estandes visitados, oito estavam promovendo exatamente os mesmos produtos. O autor perguntou a alguns empresários indianos em processo de abertura de capital o que pretendiam fazer com os recursos captados. A resposta foi unânime: expandir produção e integrar verticalmente a cadeia.
Quando questionados se não temiam ser engolidos pelo próximo ciclo de guerra de preços, a resposta era: "A Índia tem 1,4 bilhão de pessoas, temos mercado doméstico e estamos expandindo para formulações no exterior." Esse discurso soa familiar. As empresas chinesas diziam exatamente a mesma coisa dez anos atrás.
Os preços químicos sobem — mas esta alta é diferente das anteriores
O tema mais recorrente nas conversas do evento foi a alta de preços. Mas ao ouvir até o fim, fica claro que esta rodada de reajustes não tem nada a ver com aquele cenário clássico de "mercado aquecido, demanda forte" — é algo bem diferente.
A origem da alta está na energia. A turbulência no Oriente Médio comprometeu instalações de petróleo e gás no curto prazo, criando problemas na cadeia de fornecimento de GNL. Esse impacto vai se propagando camada por camada: matérias-primas químicas sobem, glifosato e 2,4-D já se movimentam, e outros produtos virão na sequência.
Empresas chinesas consultadas disseram conseguir absorver altas de custo de 10% a 15% e ainda repassar ao cliente; acima disso, param de aceitar pedidos. Hoje, cerca de 80% das fábricas operam no vermelho, aguardando uma janela de recuperação. Ninguém quer especular — assim que aparecer uma margem mínima viável, a prioridade é girar o estoque.
Esta alta de preços tem três características distintas: é reativa, não proativa; a especulação financeira ainda não entrou em cena de forma expressiva; e, apesar de possíveis correções pontuais no curto prazo, o piso de preços já subiu — não voltará aos patamares de antes.
China em posição relativamente vantajosa — mas com fragilidades
No atual arranjo das cadeias globais de abastecimento, a China se encontra em posição favorável.
Um fator frequentemente subestimado é a matriz energética. A utilização do carvão nas minas chinesas gira em torno de 40%, mas essa taxa está artificialmente reduzida por restrições ambientais — a capacidade instalada real é muito maior. Em caso de escassez energética, a produção de carvão pode ser retomada rapidamente. Na Índia, a situação é de falta real de gás e petróleo, com nível de ansiedade muito superior ao chinês.
Na Europa, entre 2024 e 2025, um volume expressivo de plantas de síntese química foi encerrado, sem conseguir reduzir os custos de energia após os desdobramentos do conflito russo-ucraniano. Para onde foi essa capacidade produtiva? Um entrevistado com experiência na cadeia sino-europeia relatou que sua empresa perdeu mais de 400 projetos de fornecimento na Europa nos últimos três anos: cerca de um terço foi por falência de clientes; o restante migrou para a Ásia — e dele, estima-se que 70% a 80% foi para a China. A lógica é simples: eficiência. Não há lugar no mundo mais eficiente do que a China.
As restrições às exportações de fertilizantes merecem atenção à parte. Às vésperas do evento, a política de controle foi endurecida novamente — não apenas embalagens pequenas, mas todas as categorias foram bloqueadas. Diversas empresas do setor de fertilizantes disseram que comparecer ao evento praticamente não fez sentido: tinham pedidos em carteira que não conseguiam embarcar nem uma tonelada. A lógica do governo é compreensível: segurar as exportações para conter os custos agrícolas domésticos e evitar pressões inflacionárias que obriguem uma alta dos juros. Mas para o mercado internacional, isso equivale a bloquear uma fonte importante de oferta, aumentando ainda mais a pressão de inflação importada.
Por que sempre os mesmos produtos, sempre o mesmo desfecho?
Um detalhe observado por vários entrevistados de forma espontânea: ao percorrer os estandes das grandes empresas, o portfólio era praticamente idêntico em todos. Não só entre os indianos — os chineses também. Se um produto dá retorno, todos entram nele; se um mercado abre espaço, todos correm para lá.
Há uma lógica por trás disso. Um entrevistado com vivência na comparação entre os modelos chinês e europeu explicou: "A China é uma civilização da eficiência; o Ocidente, uma civilização da exploração." A cultura comercial chinesa tem raízes milenares na agricultura — tirar o máximo de um pedaço fixo de terra, levar a eficiência ao limite. Então, quando se vê um produto que no exterior custa 100 e tem custo de 50, a primeira reação não é "que nova necessidade posso criar?" — é "consigo fazer por 40 e tomar esse mercado?"
Quando todos pensam assim, expansão de capacidade é inevitável — e a guerra de preços (o chamado "involution") é o destino. Os que vieram antes percorreram esse caminho; os que vêm depois repetirão. Não é problema de nenhuma empresa específica: é a inércia de todo o setor.
Do outro lado, as empresas ocidentais apostam nos fornecedores, preservam poder de precificação em seus nichos e garantem o fornecimento crítico por meio de licenciamento de produção. Isso pode parecer protecionismo, mas é, na verdade, uma capacidade de sobrevivência construída num ambiente político fragmentado de longo prazo — sem escala para competir, restam inovação, prêmio de preço e expansão de mercado. Ambos os modelos têm suas origens e razões de ser. Mas no mundo atual, talvez a fusão dos dois seja o caminho mais adaptado ao futuro.
O repasse ao elo final: o nó mais difícil de desatar
Os custos sobem, mas o bolso do agricultor não acompanhou. Esse é o ponto mais delicado deste ciclo de alta no agroquímico.
Com o custo químico em alta, os fabricantes de defensivos estão sob pressão; querem repassar, mas ainda há estoque no canal que não girou; mesmo que o canal aceite o repasse, o produtor rural pode simplesmente não comprar. E para piorar, os fertilizantes já dispararam antes — comprimindo ainda mais o orçamento já apertado do agricultor. Espremido dos dois lados, quem sofre mais é o setor de defensivos no meio da cadeia.
Um desfecho possível é que parte das empresas opte por liquidar estoques agora, em vez de aguentar firme esperando o ciclo virar. Esse cenário foi mencionado em conversas reservadas, mas não aparece em nenhuma declaração oficial. No plano macro, vários entrevistados usaram a palavra "estagflação" — crescimento travado com inflação crescente. Se isso se confirmar, o problema do setor não será apenas vender produto: será que a demanda externa desmorone pela raiz.
Para fechar
Esta edição do CAC não trouxe grandes novidades nem respostas definitivas. Enquanto alguns enxergam oportunidade, outros aguardam notícias, e ainda outros já começaram a mudar de rota discretamente.
Mais de um participante disse algo parecido com isto: "Muitos dos problemas de agora não têm solução imediata. É ir tocando e vendo o que vem pela frente."
Autor: Erwin Xue
Portuguese Proofreading: Leonardo Gottems