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Agronegócio e Bioeconomia: uma mesma realidade


Jalceyr Pessoa Figueiredo Júnior

Agronegócio e bioeconomia. À primeira vista, dois conceitos que poderiam parecer distintos, mas que, quando observados a partir da realidade de quem vive e produz no campo, encontram muito mais pontos de convergência do que de divergência.

Milho, soja, bovinos, aves, suínos, mel, açaí, castanha, látex e tantos outros produtos têm algo em comum: são resultado do trabalho, do conhecimento, da utilização dos recursos naturais, da tecnologia e, principalmente, da capacidade produtiva de homens e mulheres que vivem no meio rural.

O problema começa quando conceitos que deveriam ampliar possibilidades passam a ser utilizados para criar divisões.

Em determinados discursos, agronegócio e bioeconomia são apresentados como se fossem caminhos incompatíveis. Como se o produtor rural precisasse escolher um lado. Como se exercer uma atividade relacionada à produção de grãos ou à pecuária significasse estar necessariamente distante da bioeconomia. E, da mesma forma, como se trabalhar com produtos da sociobiodiversidade fosse incompatível com o agronegócio.

Essa visão de “um time contra o outro” é extremamente prejudicial ao produtor rural.

A realidade do campo é muito mais complexa — e, ao mesmo tempo, muito mais simples — do que determinadas disputas conceituais fazem parecer.

O produtor rural precisa ter liberdade para produzir. Deve poder avaliar as características de sua propriedade, sua capacidade de investimento, as condições de infraestrutura, a disponibilidade de mão de obra, as tecnologias existentes, as características ambientais, a aptidão produtiva da terra e, principalmente, as oportunidades de mercado.

A partir dessas informações, cabe a ele decidir o que produzir.

Pode ser milho. Pode ser soja. Pode ser gado. Pode ser aves ou suínos. Pode ser mel. Pode ser açaí, castanha ou látex. Pode ser uma combinação dessas atividades. Pode, inclusive, ser uma atividade que hoje sequer imaginamos como uma oportunidade econômica relevante.

O que deve orientar essa decisão é a capacidade de gerar produtividade, lucratividade, rentabilidade e qualidade de vida.

É perfeitamente possível pensar em uma propriedade rural que produza alimentos e, simultaneamente, utilize recursos da sociobiodiversidade. É possível agregar valor, industrializar, transformar matérias-primas, desenvolver novos produtos, incorporar tecnologia e acessar mercados diferenciados.

Agronegócio e bioeconomia, portanto, não precisam ser tratados como adversários. Podem ser compreendidos como diferentes dimensões de uma mesma realidade produtiva.

A bioeconomia pode encontrar no agronegócio cadeias produtivas, tecnologia, logística, mercado, crédito, pesquisa e capacidade de agregação de valor. O agronegócio, por sua vez, pode incorporar cada vez mais princípios de sustentabilidade, aproveitamento de recursos biológicos, inovação e valorização da biodiversidade.

O ponto central deveria ser o produtor rural.

É preciso lembrar que, por trás de qualquer conceito econômico, existe uma pessoa. Existe uma família. Existem sonhos, necessidades e projetos de vida.

O produtor rural também quer uma casa melhor. Quer que seus filhos tenham acesso a uma educação de qualidade. Quer atendimento de saúde. Precisa de segurança. Precisa de estradas, energia, internet, assistência técnica, crédito e mercados.

Quer, sobretudo, ter condições para permanecer no campo com dignidade.

E essa realidade precisa estar no centro das discussões.

Não faz sentido transformar o produtor rural em personagem de uma disputa ideológica entre modelos de produção. Muito menos impor a ele uma espécie de escolha obrigatória entre “agronegócio” e “bioeconomia”.

A propriedade rural não é um laboratório de disputas conceituais. É um espaço de produção, trabalho, geração de renda e realização de sonhos.

Se uma determinada atividade apresenta viabilidade econômica, ambiental e social para uma propriedade, ela deve ser considerada. Se outra atividade oferece melhores condições, também deve ser considerada. E se a combinação de diferentes atividades for a melhor alternativa, essa possibilidade igualmente deve estar disponível.

Esse é um pensamento verdadeiramente plural.

Em vez de estabelecer fronteiras artificiais entre produtores, deveríamos ampliar as oportunidades. Em vez de dizer ao produtor o que ele deve produzir, deveríamos oferecer informação, tecnologia, infraestrutura, crédito, assistência técnica, pesquisa e acesso aos mercados para que ele possa tomar suas próprias decisões.

O Brasil possui uma enorme diversidade produtiva. O Acre, particularmente, reúne características que permitem pensar em diferentes sistemas de produção, desde a pecuária e a agricultura até produtos associados à biodiversidade e à sociobiodiversidade.

Essa diversidade não deveria ser motivo de conflito. Deveria ser uma vantagem competitiva.

O produtor precisa ser visto como empreendedor rural, independentemente do produto que escolheu produzir.

Ele não precisa entrar em uma “guerra” entre agronegócio e bioeconomia. Precisa, na verdade, de condições para participar de ambos os mundos, caso isso seja economicamente interessante para sua propriedade.

Porque, no final das contas, o que importa para quem vive no campo não é o rótulo ideológico atribuído à sua atividade.

Importa produzir.

Importa vender.

Importa ter renda.

Importa gerar emprego.

Importa alimentar as pessoas.

Importa cuidar da propriedade e dos recursos naturais.

Importa melhorar a qualidade de vida da família.

E, acima de tudo, importa ter liberdade para escolher o próprio caminho.

Agronegócio e bioeconomia não precisam ser dois times em disputa. Podem ser partes de um mesmo sistema de oportunidades, no qual o protagonista deve continuar sendo aquele que coloca a mão na terra, investe seu patrimônio, enfrenta os riscos da produção e trabalha diariamente para construir um futuro melhor para sua família.

O produtor rural não precisa de uma guerra de conceitos. Precisa de liberdade, oportunidades e condições para produzir.

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