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Boas práticas para proteção de polinizadores


Decio Luiz Gazzoni

            O conceito de risco, baseado na relação perigo-exposição, constitui o cerne da abordagem de Boas Práticas Agrícolas, produzidas para mitigar o impacto de pesticidas sobre abelhas e outros polinizadores, constituído de práticas concretas e aplicáveis na propriedade rural. Trata-se de uma visão complementar: em vez de depender exclusivamente de restrições regulatórias, que operam no plano de políticas públicas nacionais, mais rígidas, e em escalas de tempo de anos, institui-se uma abordagem prática para a mitigação de riscos no campo.

            As boas práticas agrícolas capacitam os produtores a reduzir substancialmente o risco de mortalidade de abelhas associado às aplicações de pesticidas que sejam efetivamente necessárias, muitas vezes a um custo adicional insignificante. Temos observado que mais de 90% dos casos documentados de mortalidade de abelhas, relacionada ao uso pesticidas em lavouras de soja, não decorrem do perigo inerente dos pesticidas utilizados. O motivo principal tem sido a inobservância das regras de tecnologia de aplicação, o que aponta o foco da redução de riscos diretamente para o comportamento do agricultor e de suas decisões de manejo.

 

Boas práticas

            O agendamento de aplicações de pesticidas para períodos em que a atividade de forrageamento das abelhas é mínima representa uma boa prática das mais impactantes, e de custo zero para os produtores. A atividade de forrageamento da maioria das abelhas, de criação ou nativas, concentra-se pela manhã e no início da tarde. Assim, a aplicação de pesticidas no final da tarde ou à noite reduz significativamente o risco para os polinizadores.

            Essa prática resulta em uma redução drástica da mortalidade por contato direto das abelhas, em comparação com aplicações realizadas nos horários de pico de forrageamento, mesmo quando se utiliza o mesmo ingrediente ativo, na mesma dose. Esse simples ajuste temporal — que não exige equipamentos adicionais, nem mudança de produto, e requer apenas alterações mínimas no cronograma operacional do produtor — pode reduzir expressivamente a mortalidade direta das abelhas.

            Evitar a aplicação de agrotóxicos durante o período de floração da cultura constitui uma prática temporal complementar e igualmente importante, uma vez que uma cultura em floração representa o momento de maior atratividade da cultura – senão o único - para abelhas em busca de alimento e, consequentemente, o período de maior exposição potencial.

 

Deriva e delimitação da área aplicada

            Um cuidado fundamental é evitar, a qualquer custo, a deriva da pulverização, que é o deslocamento não intencional de gotas de agrotóxicos para além dos limites da área tratada, atingindo habitats adjacentes, corpos d'água ou locais onde se encontram apiários, ou locais de abrigo e alimentação de abelhas nativas. A deriva é influenciada pelo tamanho das gotas, pela altura de aplicação, pela velocidade e direção do vento e pela estabilidade atmosférica. Ela pode ser substancialmente reduzida mediante a escolha de pontas de pulverização adequadas, que gerem gotas maiores e menos suscetíveis à deriva, a manutenção das barras de aplicação na altura mínima compatível com uma cobertura eficaz, e a não realização da aplicação sob condições de vento que excedam os limites recomendados.

            O estabelecimento de faixas de amortecimento (ou zonas de segurança) não tratadas entre as áreas de cultivo e apiários, cercas vivas ou margens de campos em floração oferece uma camada adicional de proteção contra a exposição residual à deriva, com larguras de faixa calibradas de acordo com o método de aplicação e o equipamento utilizado. O protocolo de Boas Práticas recomenda um raio de coordenação de 3 km entre produtores de soja e apicultores, dentro do qual deve ser feito o aviso prévio sobre aplicações de agrotóxicos. Esse aspecto constitui uma boa prática de comunicação, e permite que os apicultores adotem medidas de proteção, como o fechamento temporário das entradas das colmeias, antes de uma aplicação planejada.

 

Pesticida e formulação

            A escolha do produto e da formulação representa outra categoria de boas práticas que pode ser facilmente integrada às estruturas de decisão existentes no Manejo Integrado de Pragas, sob a orientação de um engenheiro agrônomo. Quando múltiplos produtos registrados oferecem eficácia comparável contra uma praga-alvo, a seleção do produto com o menor risco documentado para as abelhas reduz diretamente o componente de perigo na equação de risco, mantendo-se as práticas de redução da exposição.

            O tipo de formulação também é relevante, independentemente do ingrediente ativo: formulações granulares e microencapsuladas podem apresentar riscos distintos em comparação com pulverizações líquidas, especialmente quando grânulos são confundidos com pólen ou material de nidificação por abelhas que fazem ninhos no solo — uma via de risco documentada para certas formulações de inseticidas aplicadas em culturas em floração, em estudos realizados na Europa. Já o tratamento de sementes com pesticidas é considerado um dos procedimentos mais seguros para os polinizadores.

 

Mistura em tanque

            Evitar a mistura desnecessária em tanque — a combinação de múltiplos produtos fitossanitários, incluindo inseticidas, fungicidas e adjuvantes, em uma única aplicação — constitui uma boa prática com crescente embasamento científico, dado o potencial documentado de toxicidade sinérgica entre compostos aplicados simultaneamente. Estudos científicos demonstraram que a combinação de certos fungicidas com inseticidas, em concentrações realistas de campo, resultou em taxas de mortalidade de abelhas superiores às previstas pela toxicidade aditiva dos componentes individuais. Fungicidas inibidores da biossíntese de ergosterol foram identificados como sinergistas particularmente potentes da toxicidade de inseticidas piretroides e neonicotinoides, devido à inibição das vias de desintoxicação mediadas pelo citocromo P450, das quais as abelhas dependem para metabolizar compostos xenobióticos.

            Portanto, evitar a aplicação simultânea de inseticidas e fungicidas, durante períodos em que as abelhas estão forrageando na cultura tratada ou em suas proximidades, representa uma medida de precaução fundamentada em um corpo crescente de evidências toxicológicas, sendo explicitamente incorporada às diretrizes de Boas Práticas Agrícolas desenvolvidas para produtores de soja brasileiros.

 

Informação e prática

            A adoção cumulativa dessas Boas Práticas — nenhuma delas individualmente onerosa e várias sem qualquer custo direto — exemplifica um princípio mais amplo nas políticas de conservação de polinizadores: reduções substanciais nos danos a esses insetos podem ser frequentemente alcançadas não pela proibição de insumos agrícolas, mas pela aplicação mais cuidadosa e informada dos insumos que os produtores já utilizam.

            Esse princípio fundamenta a estratégia de extensão e capacitação adotada pela Embrapa em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), após anos de testes e validação com lavouras e apiários comerciais, durante os quais ficou comprovada a ausência de mortalidade abelhas, para quem seguiu as boas práticas.

            Os resultados desta prolongada pesquisa estão acessíveis em forma de cartilha, produzida pelo SENAR, que traduziu os resultados de pesquisas sobre as interações entre pesticidas e abelhas em materiais de treinamento acessíveis par download (bit.ly/3VhUUB9). Também disponibilizou um curso online voltado tanto para produtores de soja quanto para apicultores (bit.ly/3SXXEpN), com o objetivo explícito de alcançar a coexistência harmoniosa de duas atividades, econômica e ecologicamente interdependentes, na mesma paisagem agrícola. Informações adicionais também podem ser obtidas em publicações da Embrapa (bit.ly/4r4Pw3n)

 

O autor é engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e do Conselho Científico Agro Sustentável.

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