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América Latina rural: Crescimento sem inclusão social


Decio Luiz Gazzoni

           O professor Antônio Márcio Buainain, da Unicamp, publicou em julho de 2026 o artigo “Modernización agrícola y abandono rural: la persistencia de la cuestión social en el Brasil y América Latina rural”

           Em uma análise holística e didática, o artigo analisa como a modernização agrícola na América Latina, especialmente no Brasil, não conseguiu solucionar as questões sociais rurais, mormente desigualdade, exclusão e pobreza multidimensional. Apesar de avanços tecnológicos e produtivos, o campo continua sendo espaço de marginalização histórica.

           Buainain descreve que a modernização agrícola foi conservadora, ou seja, modernizou a produção, mas não a sociedade rural. Segundo ele, a pobreza rural não é resíduo histórico, mas resultado de decisões políticas e modelos de desenvolvimento que privilegiaram o urbano. Portanto, é necessário repensar a questão social rural como parte de um novo pacto social, que reconheça o campo como espaço de cidadania, infraestrutura e futuro. Sem políticas integradas e de longo prazo, a exclusão rural continuará sendo o espelho das contradições latino-americanas.

           A seguir elencamos os aspectos que consideramos mais importantes no artigo, os quais merecem séria reflexão:

  1. Persistência da desigualdade rural: A modernização agrícola trouxe mecanização, biotecnologia e integração aos mercados globais. Contudo, a exclusão social permanece, representada pela falta de acesso a serviços básicos, infraestrutura precária e cidadania incompleta.
  2. Pobreza multidimensional: Inspirado em Amartya Sen e Sabina Alkire, Buainain destaca que pobreza não é apenas falta de renda, mas também ausência de capacidades (educação, saúde, mobilidade, participação política). Os indicadores mostram que, mesmo com redução da pobreza monetária, o campo segue com altos níveis de privação.
  3. Marginalização histórica: Desde o início do século XX, o modelo de desenvolvimento urbano-industrial subordinou o campo às necessidades da cidade. Historicamente, o campo foi tratado como reservatório de recursos, não como espaço de vida. No Brasil, a CLT de 1943 excluiu trabalhadores rurais de direitos básicos, o que só foi corrigido na Constituição de 1988.
  4. Políticas públicas insuficientes: O foco tem sido no estabelecimento agrícola e na produtividade, sem atenção às condições de vida. Os programas de desenvolvimento rural integrados foram fragmentados e de curto prazo. Como exemplo, o crédito e extensão rural beneficiaram médios e grandes produtores, deixando pequenos agricultores à margem.
  5. Reforma agrária: Em nosso continente, sempre foi apresentada como solução para justiça social, mas implementada de forma reativa e fragmentada. Muitas terras distribuídas eram de baixa qualidade, sem infraestrutura, tendo como consequência resultados modestos e uma inclusão parcial, sem transformação estrutural.

    O quadro a seguir elenca os aspectos principais dos pontos acima:

 

 

Efeitos Positivos:

Produtividade e integração

Efeitos Negativos:

Desigualdade e exclusão

Produção

Aumento da produtividade

agrícola

Persistência da pobreza multidimensional

Tecnologia

Mecanização, biotecnologia e inovação

Acesso restrito para pequenos agricultores

Mercado

Integração aos mercados

globais

Dependência de commodities e vulnerabilidade

Políticas

públicas

Crédito e extensão rural para médios e grandes produtores

Fragmentação e insuficiência para inclusão social

Reforma

agrária

Distribuição de terras como tentativa de justiça social

Implementação reativa, terras de baixa qualidade

Cidadania

Reconhecimento parcial de

direitos trabalhistas

Exclusão histórica e falta de infraestrutura

Sustentabilidade

Expansão do agronegócio

moderno

Degradação ambiental e abandono rural

 

 

Conclusões:

           Em síntese, Buainain mostra que o crescimento econômico coexistiu com exclusão social. O que nos antepõe o desafio de transformar o campo em espaço de cidadania plena, integrando equidade, produtividade e sustentabilidade, resgatando uma dívida histórica.

           O autor aponta que a modernização agrícola foi conservadora: modernizou a produção, mas não a sociedade rural. Houve ganhos econômicos e tecnológicos, mas a desigualdade e a exclusão social persistiram. O campo continua sendo visto como fornecedor de recursos, e não como espaço de cidadania plena.

A íntegra do artigo pode ser lida em https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/server/api/core/bitstreams/84e0795a-4454-41e0-997c-fe23e39fe448/content, a partir da pg. 16.

 

O autor é Engenheiro Agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

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