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Até o conteúdo de venda precisa ser conteúdo


Flavia Macedo

Na última semana, levei para uma palestra uma ideia que também merece espaço nesta coluna. Até o conteúdo de venda precisa ser conteúdo. Empresas do agro têm produtos, serviços e conhecimento para apresentar. Para vender nas redes, precisam transformar tudo isso em uma mensagem que dê ao público uma razão para assistir, ler ou ouvir.

O desafio começa na diferença entre o objetivo de quem publica e o interesse de quem recebe, ou melhor dizendo aqui no nosso caso, de quem assiste. Uma revenda quer vender um insumo. Uma fabricante quer apresentar uma máquina. Um consultor quer divulgar seu serviço. Quem está do outro lado da tela pode estar acompanhando notícias, vendo a rotina de alguém ou se distraindo. A oferta entra no meio dessas atividades. Por isso, a empresa disputa atenção com muito mais temas do que somente os seus concorrentes diretamente. No mesmo feed aparecem um cachorro, uma receita, uma atualização da lavoura e um equipamento agrícola. Para continuar assistindo, a pessoa precisa encontrar algo que interesse a ela.

Penso nas redes como uma feira movimentada. Ter um estande garante presença no evento. Já uma demonstração, uma explicação interessante ou uma conversa sobre um problema do campo dão ao visitante uma razão para parar. Nas redes, a lógica é semelhante. Publicar coloca a empresa naquele espaço. O conteúdo precisa conquistar a atenção.

Só que essa atenção também permite publicidade. Existe abertura para as "publis". O estudo global Media Reactions 2025, da Kantar, mostrou que 57% dos consumidores pesquisados eram receptivos à publicidade, ante 47% em 2024. O levantamento ouviu 21.300 pessoas em 30 mercados, incluindo o Brasil. Há espaço para anunciar, a maneira de apresentar a oferta faz parte do trabalho de aproveitar essa abertura. Na prática, isso significa dar ao público informações para entender o que está sendo vendido. Dizer que um produto é excelente, inovador e eficiente apresenta a opinião da empresa. Mostrar como ele funciona e explicar em que situação pode ser usado ajudam quem assiste a avaliar sua utilidade. Não é esconder a venda, é envelopar para presente.

No agro, as situações do próprio trabalho oferecem bons caminhos para essa explicação. Uma fabricante de máquinas pode mostrar a regulagem de um equipamento, explicar para que ela serve e o que acontece quando é feita de maneira inadequada. O produto aparece enquanto o público aprende algo sobre seu uso. O mesmo vale para uma empresa de insumos. Uma dúvida frequente sobre aplicação pode virar um vídeo que explique a função do produto, as condições de uso e os cuidados necessários. Assim, quem assiste entende onde aquela solução entra no manejo. A oferta passa a fazer parte de uma explicação útil.

Para encontrar essas dúvidas, basta começar pelas conversas que a empresa já mantém. O que o produtor pergunta ao vendedor? O que o técnico precisa explicar durante uma visita? Que dificuldade aparece no atendimento depois da compra? Essas perguntas são pontos de partida para conteúdos ligados à realidade do cliente. O passo seguinte é transformar a resposta técnica em uma explicação compreensível. Uma característica escrita no catálogo precisa vir acompanhada do que ela significa no dia a dia. Se a empresa destaca uma função da máquina, deve mostrar para que ela serve. Se apresenta uma tecnologia de um insumo, precisa explicar seu papel no manejo. Assim, o público entende por que aquela informação importa.

Além de ensinar e conquistar atenção, o conteúdo precisa ajudar a pessoa a lembrar da empresa e entender o que ela oferece. Uma análise da Kantar de mais de 15 mil conteúdos patrocinados identificou que menos de um em cada cinco conteúdos com alto engajamento apresentou impacto na construção da marca. Isso mostra que muitas curtidas e visualizações, sozinhas, não comprovam que a mensagem da empresa ficou na memória do público. É como alguém visitar um estande, gostar da demonstração e sair sem saber quem fabrica o equipamento. Houve interesse, mas faltou uma ligação clara com a marca. No conteúdo, essa ligação se constrói quando o público entende qual solução foi apresentada e quem a oferece.

Foi pensando nesse caminho que organizei uma sequência simples na palestra. Entregar uma informação útil, criar uma conexão com a realidade do público, construir confiança e apresentar a oferta. Para aplicar esse raciocínio, antes de publicar uma oferta, vale responder uma pergunta. O que esta mensagem entrega a quem a recebe? Vender faz parte do negócio. Criar interesse pelo que se vende é o miolo da conversa, é o roteiro bem elaborado, é o papel do conteúdo. 

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