Há um fenômeno curioso acontecendo no Brasil que talvez diga mais sobre nossa economia do que qualquer discurso de campanha, indicador do PIB ou promessa eleitoral. Enquanto o debate público permanece concentrado em discutir quem deve pagar mais impostos ou qual programa social deve ser ampliado, os que possuem maior patrimônio internacionalizam seus investimentos, empresários reorganizam suas empresas em outras jurisdições e profissionais altamente qualificados constroem suas carreiras fora do país. Médicos, engenheiros, pesquisadores, cientistas, executivos e empreendedores encontram nos Estados Unidos um ambiente institucional mais previsível, remuneração compatível com seu talento, segurança jurídica e uma economia que recompensa inovação. Empresários brasileiros estabelecem residência fiscal — e, muitas vezes, residência permanente — em países como Uruguai e Paraguai, atraídos por sistemas tributários mais simples, maior estabilidade regulatória e custos menores para produzir e investir. Enquanto isso, permanece no Brasil quem, simplesmente, não pode partir.
Essa talvez seja a maior ironia da economia brasileira. Durante décadas consolidou-se a narrativa de que um Estado cada vez maior seria financiado pelos mais ricos. No entanto, a globalização alterou profundamente essa lógica. O capital tornou-se móvel. O conhecimento tornou-se móvel. O talento tornou-se móvel. Quem possui patrimônio significativo pode diversificar seus ativos internacionalmente. Quem administra grandes empresas pode reorganizar operações em diferentes países. Quem detém alta qualificação profissional pode aceitar oportunidades onde seu trabalho é mais valorizado. Já quem depende exclusivamente do próprio salário, do pequeno comércio, da atividade rural ou de um emprego local permanece sujeito às escolhas econômicas feitas dentro das fronteiras nacionais.
Talvez a maior perda brasileira não seja sequer a fuga de capital. É a fuga da inteligência. O contribuinte brasileiro financia durante anos universidades públicas, centros de pesquisa e formação profissional. Forma médicos, engenheiros, pesquisadores, cientistas e especialistas de altíssimo nível. Quando esses profissionais alcançam seu auge produtivo, muitos fazem exatamente aquilo que qualquer agente econômico racional faria: buscam ambientes onde possam transformar conhecimento em prosperidade. Os Estados Unidos compreenderam isso há muito tempo. Grande parte de sua liderança em tecnologia, ciência, inteligência artificial, biotecnologia e inovação foi construída não apenas pela capacidade de formar talentos, mas principalmente pela habilidade de atrair os melhores cérebros do mundo. Cada pesquisador brasileiro que passa a desenvolver tecnologia em uma universidade americana representa anos de investimento cujo retorno econômico será colhido por outra nação. Cada empreendedor que abre sua empresa em Dallas, Miami ou Austin deixa de gerar empregos, inovação e arrecadação no Brasil. O Brasil financia a formação; outros países colhem os resultados.
Esse fenômeno deveria provocar uma profunda reflexão sobre nosso modelo de desenvolvimento. Ao longo das últimas décadas, independentemente da orientação ideológica dos governos, consolidou-se uma cultura política em que praticamente toda dificuldade econômica parece exigir a mesma resposta: mais gastos públicos, mais programas, mais subsídios, mais crédito direcionado, mais intervenção estatal e, inevitavelmente, mais impostos. Criou-se a ilusão de que o Estado é capaz de produzir riqueza. Não é. Estados administram recursos produzidos por indivíduos e empresas. Antes que qualquer governo distribua um único real, alguém precisou gerar esse real por meio de trabalho, investimento, empreendedorismo ou inovação.
A matemática econômica não faz concessões à retórica política. Quando governos gastam continuamente acima da capacidade de arrecadação, o resultado é o aumento da dívida pública. A dívida exige juros. Os juros pressionam o orçamento. O orçamento demanda mais arrecadação. A arrecadação exige aumento de tributos ou redução de investimentos produtivos. A consequência é menor produtividade, crescimento econômico mais lento e salários que deixam de acompanhar o aumento do custo de vida. A conta nunca desaparece; apenas muda de endereço.
E, ao contrário do que muitas vezes se imagina, esse endereço raramente é o dos muito ricos. Eles possuem instrumentos para proteger patrimônio, diversificar investimentos e reorganizar suas atividades econômicas. A conta chega primeiro ao trabalhador que depende exclusivamente de seu salário, ao pequeno empresário que não pode transferir sua empresa para outra jurisdição, ao agricultor, ao comerciante e à família que sente diariamente o impacto da inflação sobre alimentos, energia e transporte. A inflação, aliás, talvez seja o imposto mais perverso já criado. Ela não distingue partidos, discursos ou intenções. Apenas reduz silenciosamente o poder de compra daqueles que possuem menor capacidade de defesa financeira.
Mas seria intelectualmente confortável — e profundamente equivocado — encerrar essa análise afirmando que os mais pobres são apenas vítimas desse processo. Em uma democracia, escolhas produzem consequências. Ao longo de décadas, milhões de brasileiros foram convencidos de que prosperidade pode ser distribuída antes de ser produzida, de que crescimento econômico decorre da expansão permanente do Estado e de que sempre haverá alguém suficientemente rico para financiar qualquer nova despesa pública. Essa visão alimenta um ciclo político no qual benefícios imediatos frequentemente superam o debate sobre produtividade, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e liberdade econômica. É perfeitamente compreensível que quem enfrenta dificuldades cotidianas valorize respostas de curto prazo. Entretanto, compreender esse comportamento não significa ignorar seus efeitos. Quando uma sociedade recompensa, repetidamente, propostas que ampliam despesas permanentes sem discutir como a riqueza será criada para sustentá-las, ela também participa da construção dos resultados que experimentará no futuro.
Nenhuma democracia é melhor do que os incentivos produzidos por seu eleitorado. Políticos respondem às urnas. Se a recompensa eleitoral estiver concentrada na promessa de benefícios imediatos, haverá sempre quem ofereça exatamente isso. O problema é que a matemática fiscal não participa das eleições. Ela apenas apresenta a conta quando o ciclo termina. E essa conta, quase invariavelmente, é paga por quem menos dispõe de alternativas para escapar dela.
O Brasil não carece de recursos naturais. Não carece de inteligência. Não carece de empreendedores. Tampouco lhe faltam trabalhadores dispostos a produzir. O que nos falta é uma cultura institucional capaz de compreender que riqueza precisa ser criada antes de ser distribuída, que responsabilidade fiscal é uma política de proteção aos mais vulneráveis, que segurança jurídica atrai investimentos e que liberdade econômica beneficia principalmente aqueles que dependem exclusivamente do próprio trabalho para ascender socialmente.
Talvez o maior desafio brasileiro não seja econômico, mas cultural. Uma nação começa a mudar quando deixa de perguntar apenas o que o Estado pode oferecer e passa a discutir quais condições são necessárias para que indivíduos, empresas e ideias prosperem. Enquanto essa mudança não ocorrer, continuaremos exportando exatamente aquilo que temos de melhor: nossos cérebros, nossos empreendedores, nosso capital e nossa capacidade de inovar. Os que podem partir continuarão encontrando oportunidades em outras economias. Os que não podem permanecerão financiando um modelo que, em nome de protegê-los, frequentemente os torna ainda mais dependentes. E essa talvez seja a maior contradição da história econômica brasileira.