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Crescer rápido, pagar caro: dilema dos municípios americanos


Vinícius André de Oliveira

Enquanto cidades texanas batem recordes de crescimento populacional, prefeitos e gestores municipais enfrentam uma combinação rara de pressões: tetos legais sobre a arrecadação, infraestrutura hídrica envelhecida e uma nova e voraz concorrente por água e energia — os data centers de inteligência artificial.


Há um paradoxo no coração do modelo americano de administração municipal, e ele nunca esteve tão visível quanto no Texas de 2026. Por um lado, o estado continua sendo o principal destino migratório do país: só entre julho de 2024 e julho de 2025, o Texas ganhou 391.243 novos moradores, mais do que qualquer outro estado americano, elevando sua população para cerca de 31,7 milhões de pessoas — a segunda maior do país, atrás apenas da Califórnia. As cinco cidades que mais cresceram nos Estados Unidos no período estavam todas no Texas: Celina (24,6%), Fulshear (21%), e os subúrbios de Princeton, Melissa e Anna, todos na região metropolitana de Dallas-Fort Worth, cada um crescendo mais de 10% em um único ano. Fort Worth sozinha ultrapassou 1 milhão de habitantes em 2024 e se tornou a décima maior cidade do país, superando Jacksonville, na Flórida.

Por outro lado — e é aqui que mora o dilema — esse mesmo crescimento está deixando as finanças municipais em petição de miséria. Cidades como Dallas, Fort Worth, San Antonio e Austin, os quatro grandes centros urbanos do "Texas Triangle", anunciaram neste ano déficits orçamentários que somam centenas de milhões de dólares, obrigando demissões, cortes em bibliotecas e centros comunitários, e um debate acalorado sobre até onde a legislatura estadual pode — ou deve — limitar o poder de tributar dos governos locais.

O centro da tensão fiscal tem nome e sobrenome: a Lei de Reforma e Transparência Tributária do Texas de 2019, conhecida como SB2. A lei limita o crescimento anual da arrecadação de impostos sobre a propriedade — a principal fonte de receita das cidades texanas — a 3,5% ao ano sem que o aumento seja submetido a referendo popular. Na prática, mesmo com a valorização imobiliária e o influxo de novos moradores, prefeituras não podem simplesmente acompanhar o crescimento de seus custos.

O resultado, em 2026, foi uma onda de rombos orçamentários nas maiores cidades do estado. Dallas projetou um déficit de 51 milhões de dólares; Fort Worth, de 94,4 milhões; San Antonio anunciou um buraco de 158 milhões de dólares para os próximos dois anos; e Austin estima que seu déficit estrutural pode ultrapassar 100 milhões de dólares no início da próxima década. As soluções encontradas variam de demissões de mais de cem funcionários em Dallas à eliminação de cargos vagos em Fort Worth, passando por aumentos de impostos em Austin e San Antonio combinados com cortes de serviços.

Segundo John Diamond, diretor do Centro de Finanças Públicas do Instituto Baker, da Universidade Rice, a combinação de inflação persistente, desaceleração econômica e limites legais deixou as cidades "numa posição sem saída aparente" no curto prazo. A arrecadação do imposto sobre vendas — outra fonte importante de receita municipal — também perdeu fôlego, em parte porque famílias texanas estão direcionando parcela maior da renda para moradia, alimentação e saúde, itens que geram pouca ou nenhuma receita tributária municipal.

Curiosamente, em cidades como San Antonio e Fort Worth, os valores de avaliação de imóveis chegaram a cair — Sant Antonio acumula três anos seguidos de queda —, em parte por mudanças na forma como os distritos de avaliação conduzem seus cálculos e pelo aumento no número de contestações de proprietários. Isso reduz ainda mais a base sobre a qual as prefeituras podem cobrar impostos, mesmo dentro do teto legal.

Autores da lei, como o senador estadual Paul Bettencourt, rejeitam a tese de que o teto de 3,5% seja o vilão da história, argumentando que as prefeituras têm o caminho do referendo à disposição e simplesmente preferem não recorrer a ele. Já críticos, como a senadora Molly Cook, descrevem as restrições como uma tentativa de esvaziar o poder decisório dos governos locais, os mais próximos da população.

Enquanto o debate fiscal ocupa as manchetes, um problema estrutural mais silencioso corrói a capacidade dos municípios de sustentar o próprio crescimento: a água. O Texas opera mais de 165 mil milhas de tubulação de distribuição de água, a maior parte instalada há décadas — a idade média de instalação é 1966. Como resultado, as maiores cidades do estado perdem coletivamente cerca de 88 a 186 bilhões de galões de água por ano só por vazamentos em tubulações envelhecidas, de acordo com estimativas oficiais e da Associação Americana de Engenheiros Civis (ASCE); somente Houston responde por quase 32 bilhões de galões dessa perda anual.

No relatório de infraestrutura de 2025, a ASCE deu ao sistema de água potável do Texas a nota D+, uma piora em relação ao C- de 2021 — mesmo em um ano em que a nota geral da infraestrutura americana, na média nacional, melhorou para C, a maior da história da série histórica iniciada em 1998. Em abril de 2026, o conselho estadual responsável pelo planejamento hídrico (Texas Water Development Board) estimou que o estado precisará investir 174 bilhões de dólares nos próximos 50 anos para evitar uma crise generalizada de abastecimento — mais que o dobro da projeção feita apenas quatro anos antes. Os eleitores texanos já aprovaram, em novembro de 2025, a Proposição 4, que destina cerca de 1 bilhão de dólares por ano, durante 20 anos, de receita de impostos sobre vendas para financiar projetos de água — uma quantia que, segundo especialistas do setor, ainda está muito aquém da necessidade real.

A urgência tem uma explicação demográfica clara: o Conselho de Desenvolvimento Hídrico do Texas projeta que a população do estado pode saltar de cerca de 30 milhões em 2020 para mais de 51 milhões em 2070, ao mesmo tempo em que a oferta total de água disponível deve encolher de 16,8 milhões para 13,8 milhões de acres-pé no mesmo período. Ou seja: mais gente, tubos mais velhos e menos água disponível — uma equação que qualquer prefeito no estado reconhece de cor.

Se o crescimento populacional já pressiona os sistemas municipais, um fator mais recente amplifica o problema: a corrida por data centers de inteligência artificial. O Texas se posicionou como um dos principais destinos do país para esse tipo de instalação, atraído por incentivos fiscais e pela disponibilidade de terra e energia. Só que um único data center de grande porte pode consumir mais eletricidade do que uma cidade inteira — algumas instalações em construção no estado, como a de Abilene, devem alcançar cerca de 1,2 gigawatt de capacidade quando entrarem em operação total, o equivalente ao consumo de mais de um milhão de residências.

O Operador do Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas (ERCOT), responsável pela rede elétrica do estado, projeta que a demanda de pico de eletricidade pode crescer 70% até 2031, impulsionada em grande parte pela expansão dos data centers. O impacto sobre a água também preocupa: um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) alerta que, sem atualização no planejamento e nas políticas públicas, o consumo hídrico dos data centers no Texas pode chegar a representar até 9% do uso total de água do estado até 2040 — hoje esse percentual está abaixo de 1%.

O choque entre expansão tecnológica e escassez de recursos já provoca reações locais. Em fevereiro de 2026, moradores de San Marcos lotaram uma reunião da câmara municipal, que durou oito horas, para protestar contra um projeto de data center que consumiria mais de 25 milhões de galões de água por ano — às margens do rio que dá nome à cidade. Cartazes com frases como "mantenha San Marcos molhada" resumiram o clima de tensão entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade dos recursos locais. Uma pesquisa da Gallup News mostrou que sete em cada dez americanos se opõem à construção de data centers de IA em suas comunidades, e metade deles cita o uso de água e energia como motivo principal.

Nem tudo, porém, é confronto. Em cidades menores e mais pobres, empresas ligadas à infraestrutura de data centers começaram a financiar diretamente melhorias que o orçamento municipal não conseguiria bancar sozinho. Em Colorado City, uma pequena cidade do oeste texano, três empresas de tecnologia associadas a um data center próximo se comprometeram recentemente com 10 milhões de dólares para substituir tubulações de água que, segundo moradores, estavam abandonadas havia décadas — sem que isso significasse aumento de impostos para a população local.

O retrato que emerge do Texas em 2026 é o de um estado em duas velocidades. De um lado, cidades-satélite como Celina, Fulshear, Princeton e Niederwald — esta última crescendo espantosos 65,3% em um único ano — continuam atraindo famílias em busca de moradia mais acessível e melhor qualidade de vida. De outro, seis das quinze maiores cidades do estado — Dallas, El Paso, Arlington, Plano, Irving e Garland — na verdade perderam moradores entre 2024 e 2025, em parte, segundo analistas, por causa da desaceleração da imigração internacional para os Estados Unidos.

Especialistas em política urbana, como Tushar Kansal, da Pew Charitable Trusts, defendem que parte da saída para o aperto fiscal está na própria forma como as cidades se planejam: permitir tipos de moradia mais densos — como duplex, triplex e pequenos prédios de apartamentos, a chamada "missing middle housing" — geraria mais receita por hectare do que os tradicionais lotes de casas unifamiliares, hoje predominantes na base tributária da maioria das cidades texanas. A ideia enfrenta resistência política típica de comunidades já consolidadas, mas ganha força à medida que o modelo atual de expansão horizontal mostra seus limites financeiros.

O caso texano ilustra, em escala ampliada, um desafio que atinge municípios em todo o país: como sustentar o crescimento — populacional, econômico e agora também tecnológico — quando a estrutura de financiamento local não foi desenhada para acompanhar a velocidade das transformações do século XXI. Entre o teto de arrecadação, os tubos que vazam e a fila de data centers batendo à porta, os governos municipais americanos, e os texanos em particular, correm para não ficar para trás de seu próprio sucesso.

 

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