De 47 a 156 sacas por hectare: O salto histórico da produtividade da soja no Brasil
Décio Luiz Gazzoni e João Vitor Ganem
Em 2008 um grupo de profissionais do agronegócio decidiu juntar esforços, usar seu conhecimento e sua experiência para enfrentar um desafio. A visão de futuro desses profissionais indicava que a demanda de soja no mundo seria crescente nos anos vindouros, e que o Brasil seria chamado a atender esta demanda, de forma progressivamente maior. A ponto de superar os EUA como maior produtor mundial, o que parecia inatingível à época.
A visão de futuro também indicava que, se não houvesse ações ativas, o aumento da produção agrícola se daria por expansão da área cultivada com soja, trazendo sérios problemas ambientais, de custos, de sustentabilidade, portanto de competitividade para ocupar um espaço seguro no mercado mundial, que se expandia a cada ano. A solução vislumbrada foi de pugnar por um aumento da produtividade sustentável da soja, ao longo do tempo. Como meta inicial, estabeleceu-se um teto de produtividade de 100 sc/ha (6.000 kg/ha). O que também parecia inatingível à época, pois a média da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) na safra 2005/06 havia sido de 2.500 kg/ha (41,7 sc/ha), em 2006/07 de 2.730 kg/ha (45,8 sc/ha) e, em 2007/08, de 2.816 kg/há (46,9 sc/há). Afinal, almejava-se mais que dobrar a produtividade média do Brasil, e afora em experimentos de instituições de pesquisa, não havia notícia de produtividade em lavouras de 100 sc/ha.
Mas, essa aparente utopia foi a ideia-força que o grupo utilizou para chamar a atenção de entidades privadas e governamentais de que construir outro futuro seria possível e, mais que isso, necessário para consolidar o Brasil como o maior produtor e exportador de soja do mundo.
Desafiando produtores e consultores
Assim foi criado o Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) por esse grupo visionário e preocupado em contribuir para construir um futuro condizente com a potencialidade do Brasil. Diversas ações foram colocadas em prática, sendo a principal delas o Desafio CESB de Máxima Produtividade de Soja. A lógica do Desafio é simples: produtores e consultores desafiam seus conhecimentos, suas experiências, as informações que possuem ou que buscam em entidades confiáveis, e até suas intuições, para moldarem um sistema de produção que redunde em produtividade significativamente superior à que vinha obtendo, também superior à da sua região e, por que não? superior à média nacional.
O CESB não interfere nas decisões, não fornece consultoria ou recomendações, embora o produtor e o consultor possam verificar qual foi o sistema de produção usado pelos vencedores de anos anteriores, para obter elevadas produtividades. Para participar do Desafio, o produtor aceita receber uma auditoria independente para verificar sua produtividade (caso haja perspectiva de superar, inicialmente, 90 sc/ha e, a partir de 2024/25, de 100 sc/ha) e todo o seu sistema de produção, seu histórico de cultivos, para estabelecer a rentabilidade e a sustentabilidade do sistema. O CESB destaca, a cada ano, o campeão de produtividade de cada região (N, NE, CO, SE, S), de onde é ressaltado o campeão nacional e, separadamente, a maior produtividade em lavouras de soja irrigada.
Foram 18 edições do Desafio, entre 2008 e 2026. O que ocorreu neste período?
A saga da produtividade – de 44 para 156 sc/ha
Comecemos pelo princípio, na safra 2008/09. A produtividade média da soja brasileira, informada pela CONAB, foi de 2.629 kg/ha (43,8 sc/ha), próxima dos valores dos anos anteriores. O CESB convidou 140 produtores, de diversos estados, para participarem do primeiro Desafio. À época, o campeão nacional colheu 82,8 sc/ha, 89% acima da média nacional, mas ainda abaixo da meta estabelecida pelo CESB. Os 10 melhores produtores daquele desafio colheram 77,8 sc/ha, um indicativo de que se tratava de um grupo de elite entre os produtores de soja do Brasil.
Para gáudio do grupo criador do CESB, já no segundo Desafio (2009/2010), a meta já foi superada: o campeão nacional obteve 108,4 sc/ha, tendo a média dos 10 melhores produtores sido de 88,1 sc/ha. A cada safra, aumentava a produtividade do campeão nacional, até o primeiro grande destaque, na safra 2014/15 (141,8 sc/ha) e o recorde que duraria nove anos (149,1 sc/ha), obtido em 2016/17. Enquanto isso, a média dos 10 melhores produtores, a partir da safra 2012/13 sempre tem sido superior a 100 sc/ha. Missão cumprida?
Os ganhos crescentes
Superada a meta inicial, o CESB propunha novos horizontes, buscando testar os limites da produtividade sustentável da soja no Brasil, devidamente chancelada por rentabilidade crescente para o produtor. Brevemente, estes dois pontos serão tema de novos artigos que publicaremos.
Do ponto de vista da série histórica cabe destacar alguns números importantes. Examinando a produtividade do campeão nacional de cada Desafio, entre as safras 2008/09 e 2025/26 - em que foi estabelecido o novo recorde nacional de 156,13 sc/ha – houve um crescimento de 87,6% entre as duas safras, significando um ganho geométrico anual de 1,04, o que pode ser considerado excelente. Destaque: na safra 2025/26, o campeão nacional produziu 152% acima da média brasileira (CONAB).
No mesmo período, os 10 melhores produtores apresentaram um crescimento de 77,3%, com média geométrica anual de 1,035 na sua produtividade, também um índice excelente. Na última safra, a média desses 10 produtores foi de 138,7 sc/ha, patamar 124% acima da média brasileira (CONAB).
E aquele piso inicial para acionar a auditoria independente, de 90 sc/ha? Na safra 2008/2009, apenas o campeão nacional superou a marca. Já na última safra (2025/26) foram 661 produtores auditados, que superaram 90 sc/ha.
Preparando o futuro
Anualmente, os participantes do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja (DNMP) englobam de 10% a 15% da área dedicada ao grão no Brasil. Como prova de sua dimensão, a safra 25/26 envolveu mais de 4 milhões de hectares. Ao consolidar o histórico das últimas 18 safras, nota-se que a produtividade média brasileira (segundo a Conab) avançou 40,5%. Contudo, esse percentual fica bem abaixo do crescimento obtido no próprio Desafio: a média de todos os produtores subiu 60,7%; a dos dez melhores, 77,3%; e a do campeão disparou 87,6%. Outro grande destaque é a rápida escalada de alcance do DNMP, que evoluiu de 140 inscritos iniciais para a marca de 6.500 na safra 2022/23 — mesmo ciclo em que o envolvimento de consultores atingiu seu pico histórico, com 2.019 profissionais.
Em conclusão, se os melhores produtores brasileiros obtêm índices progressivamente crescentes de produtividade sustentável, com alta rentabilidade, qualquer outro produtor pode também obter esses ganhos, se observar cuidadosamente as recomendações técnicas e fizer com muito capricho aquilo que precisa ser feito. O CESB sente-se recompensado por descortinar esse futuro de progresso para os sojicultores brasileiros.
DLG é sócio fundador do CESB e membro do CCAS; JVG é Coordenador Técnico do CESB.