Em comentários passados procuramos alertar sobre os prováveis efeitos colaterais da medida, posta em prática pelos Estados, de injetar recursos públicos na economia mundial visando mantê-la em pé. Foram injetados trilhões de dólares mundo afora, embora em muitos casos não se tenha evitado que o PIB terminasse 2009 sob o sinal negativo.
Isso ocorreu inclusive no Brasil, embora em dimensão menor do que na Europa, EUA e outros países. Mesmo sendo necessária para o momento, a medida efetivamente trouxe, neste 2010, os previstos efeitos colaterais.
Em termos mundiais, o alto endividamento público se agravou, trazendo à tona a crise da Grécia, Espanha e outros países que ficaram conhecidos sob a sigla PIIGS. Esta realidade, dentro da crise maior, é mais séria do que se pode imaginar. A grande maioria dos países está nesta situação, a começar pelos EUA e chegando inclusive no Brasil.
O mercado, preocupado com o fato, não decola! Em termos nacionais, o problema se traduz pelo alto endividamento da população, estimulada a gastar sem responsabilidade. Os números começam a surgir e assustam.
Nesse mês de março 73,8% das famílias gaúchas estavam em situação de endividamento, sendo que o percentual de famílias com dívidas em atraso havia pulado de 31% em janeiro para 39% em março. E o pior: quanto ao tipo da dívida, 68,5% era em cartão de crédito e 24,3% em cheque especial, os dois instrumentos que cobram os maiores juros anuais no país, com respectivamente mais de 200% e 130%.
Com isso, mesmo que a proporção de quem pode ficar inadimplente tenha recuado para 7% em março, não há dúvida que tal situação é preocupante. Na prática, o potencial de inadimplência em nossa economia, extrapolando para o restante do país, é enorme e deverá se cristalizar durante 2010 e particularmente em 2011.
Este é mais um fator que poderá impedir uma retomada de um crescimento econômico consistente nestes próximos anos.
Juros: um freio ao crescimento
Outro problema sério que se avizinha no país é a retomada nas elevações das taxas de juros, a começar pela taxa básica oficial conhecida por Selic. Apesar dos juros médios e do spread bancário (diferença do que os bancos cobram em relação ao que eles pagam em termos de juros), pela ação da crise mundial, terem recuado para os níveis mais baixos desde 1994 em nosso país, os mesmos continuam absurdamente altos, impedindo igualmente que a economia cresça mais e de forma sustentada.
Em fevereiro passado os juros médios atingiram a 41,9% junto aos financiamentos tomados pelas famílias. A margem dos bancos desceu para 30,8%, enquanto o juro médio do crédito livre recuou para 34,3%. E isso diante de uma inflação acumulada (IPCA) anual (março/09 a fevereiro/10) de apenas 4,83%.
Com a retomada dos aumentos da Selic, provavelmente a partir de abril, tais juros subirão igualmente, inclusive em maior proporção em alguns casos. Diante desse quadro, assusta a informação de que mesmo assim, em fevereiro, de forma anualizada, os empréstimos ao setor privado somaram R$ 1,37 trilhão, com crescimento de 14,4%.
Em algum momento esta bolha deverá estourar! Portanto, muito cuidado ao assumirmos novas dívidas e empréstimos. A regra sempre foi, e agora mais ainda: assumir dívidas aos juros brasileiros somente quando extremamente necessário ou, porventura, que se tenha real vantagem entre o que se irá pagar, a renda e poupança que se possui, e o benefício que nos trará o bem adquirido.
Quanto ao resto, é suicídio econômico!
Bolsa de Valores estagna
Como era esperado, a Bolsa de Valores brasileira, Bovespa, após ter registrado um recorde mundial de ganhos em 2009, ultrapassando 80% pelo seu índice de referência, perde espaço nestes primeiros três meses de 2010.
Os ganhos do ano passado mais uma vez fortemente especulativos, puxados pela importante entrada de capital financeiro no Brasil, diante do aperto geral provocado pela crise mundial, jamais tiveram sustentação na economia real.
Afinal, como explicar uma valorização superior a 80% das ações das empresas que, em sua atividade produtiva real, acabaram gerando um PIB negativo de 0,2% no ano passado, a não ser pela especulação desenfreada? Agora, em 2010, a correção se pôs a caminho.
Assim, até o dia 25/03, o índice Bovespa acumula uma perda de 0,214% neste novo ano. Enquanto isso Wall Street registra ganhos de 4,63%, o Nasdaq de 5,87%, o Nikkey japonês 2,75%, o FTSE inglês 6,98%, a bolsa da Alemanha 2,95%, o Mexbol mexicano 3,32% e assim por diante.
Apenas a bolsa espanhola, cujo país enfrenta uma crise muito séria (a Espanha compõe o grupo conhecido como PIIGS e que entrou na berlinda da crise neste início de ano), dos índices analisados, está em pior situação do que a nossa, ao acusar um recuo de 6,69% neste ano.
O comportamento de nossa Bolsa confirma que a saída da crise, embora esperada nesse ano, será difícil e vem deixando marcas na economia. Além disso, estamos diante de um ano eleitoral fato que sempre preocupa os especuladores.
Assim, a situação não permite euforias e sim bom senso e muita atenção para com nossos recursos.