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Entendendo fatores de risco de dispersão da ferrugem asiática da soja no Rio Grande do Sul


Emerson Medeiros Del Ponte

A atual safra de soja do Rio Grande do Sul (2005/2006) já se caracteriza com um número relativo recorde de detecções da ferrugem asiática no Estado. Na semana de 12 a 18 de fevereiro, mais de 75 novos casos foram reportados, totalizando 145 focos da doença, sendo 125 em lavouras comerciais. O conhecimento que se tem sobre a doença sugere que essas infecções devem ter ocorrido de meados de janeiro até o início de fevereiro, considerando o tempo que leva para a doença se desenvolver na lavoura até ser detectada e os casos confirmados e divulgados. Um modelo matemático que usa variáveis de chuva, indicou alto risco de estabelecimento das epidemias em diversas regiões do RS, usando dados do mês de janeiro, o que tem sido confirmado com a continuidade de detecções até então, concentradas em sua maioria na metade norte do Estado até o momento. Os municípios de Passo Fundo, Carazinho e Chapada já somam juntos 37 detecções. A estação meteorológica de Passo Fundo registrou 61.5 mm de precipitação em 6 dias de chuva no período de 20 a 26 de janeiro.

Fatores de risco da ferrugem
É importante se ter em mente que a época de estabelecimento e a dispersão de uma epidemia regional da ferrugem não depende somente do molhamento das folhas, por chuva ou por orvalho, mas também de diversos outros fatores além do clima. Um deles é a presença local dos esporos do fungo. Sem a chegada do fungo na lavoura, a doença não ocorre. Por outro lado, se o fungo chegar e não tiver o molhamento mínimo, a doença não tem início. Isso explica em parte porque todas as lavouras de uma grande região não são atacadas ao mesmo tempo, apesar do ambiente ser favorável e os modelos indicarem alto risco.

A cada ano a ferrugem é observada no início da safra em plantas de kudzu na região norte do estado e em sojas guaxas. As primeiras detecções do ano tem ocorrido normalmente na região norte do Estado, onde se concentram essas fontes e se tem áreas extensas de cultivo mais próximo das fontes de inóculo em outros estados. O mapa atual da dispersão da ferrugem no RS mostra um menor número de detecções na região nordeste e central do Estado, embora o risco climático com base nas chuvas de janeiro tenha sido similar às região norte noroeste, para onde a ferrugem continua avançando. O comportamento dos ventos pode exercer influência na direção da dispersão da doença em larga escala, por esses levarem os esporos de fungo. A combinação da presença de esporos nas correntes de ar que encontram as chuvas, pode resultar na chegada mais efetiva do fungo na lavoura, que, juntamente com o molhamento promovido pela chuva, pode dar início a uma epidemia local.  A direção predominante dos ventos no RS nessa época do ano é nordeste, ou seja, vão em direção a oeste e sudoeste, o que poderia sugerir uma tendência maior de dispersão para esses locais, e que relativamente concorda com o cenário atual,  porém a análise é preliminar.

Os modelos matemáticos de previsão de doenças não incluem todos os fatores de forma que possam prever acuradamente onde esta irá ocorrer, mas podem dar indícios da tendência e alertar um risco potencial, usando-se a informação de um fator crítico de grande importância, no caso a ocorrência das chuvas. Portanto,  devemos nos manter atentos ao monitoramento da doença na região, consultando fontes oficiais de confirmação de focos de ferrugem, como o Sistema de Alerta do Consórcio anti-ferrugem. Quando focos da doença começam a aparecer em uma região, significa que o inóculo está nos arredores e houveram condições de infecção, o que aumenta o risco para as lavouras próximas. Estas devem então ser inspecionadas com mais frequência e cuidado, especialmente nas semanas seguintes após um período de chuvoso. Em zonas de alto risco, ou seja aquelas com chuva frequente e próximas aos focos, a proteção das lavouras pode ser considerada para evitar surpresas devido às incertezas do clima.

Eng. Agr., Doutor em Fitopatologia, pesquisador da Universidade do Estado de Iowa, Estados Unidos e especialista em modelagem matemática e previsão de risco de doenças de plantas.

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